Não, não me incomoda nem um pouco minha idade. Não me encaixo na categoria “velha”: sou alegre, sou de bem com a vida, enfrento obstáculos, sou capaz de fazer coisas das quais até Deus duvida – subo em árvores, cuspo sementes, pulo amarelinha. Pulo corda
Não tenho mais aquela pele dos quinze anos. Mas também não tenho aqueles medos próprios da idade: será que ele gosta de mim? Será que essa maldita espinha vai desaparecer? E essa dor de dentes do siso, vai passar? Vou ou não vou? Respondo ou não? Mando a mensagem? Proponho amizade no Facebook? Casei, lutei como pude para ser feliz, para fazer feliz a família, tive filhos, tenho netos. Enfrento, ainda, medos: o da crítica e o da rejeição. Mas faço terapia para aprender a lidar com eles, para não machucar quem amo e para me proteger. Não consegui resolver o de lagartixas. Plantei árvores e escrevi um livro que será o primeiro de vários. O pior é sempre o inaugural – outra grande descoberta – o primeiro chute, o primeiro beijo, a primeira vez, o primeiro amor, a menarca, a primeira dor. À dor ninguém se acostuma, a bem da verdade, mas acaba por perceber que a sobrevivência fortalece. E como! Continuo odiando e temendo vermes, mormente após descobrir que os piores têm pernas, braços, cabeças, carteira de identidade e de motorista. Esgueiram-se, sorrateiros, pelos becos da vida; ao se expor mostram-se solidários e prestativos e roubam, destruindo, fé, a credulidade, a confiança das pessoas. Dentro da categoria, políticos e ditos messias do bem popular.
Às vezes, confundo-me. Olho uma roupa na vitrine, tenho vontade de tê-la. É quando percebo que minha auto-imagem interna não bate bem com minha imagem real: favoreço-me, quase sempre. Escolho roupas curtas, de babados, leves, muito coloridas, decotadas, quase juvenis. Brincos enormes, braceletes, batom muito vermelho. Não, não uso aquela calcinha de fio dental aparecendo no cós das calças jeans. Primeiro porque acho anti-higiênica, depois, porque são muito vulgares. Até para quem tem quinze anos. E não, de maneira alguma, barriga aparecendo: além de não ter competência, o que fica lindo na barriga lisa e sarada das de menos de vinte, fica ridículo na barriga das “enta” em diante.
Sonhos? Muitos. De viajar para bem longe, ficar um tempo fora. Sozinha, que nem Elizabeth Gilbert, autora de Comer, Rezar e Amar. Não seria fascinante? Malinha, grana no bolso, monte de perguntas, sair em busca de respostas. Mas o despertador me acorda: e suas netas? E seus filhos? Marido? Amigos? Sobreviverão? Minha superestima diz não e eu fico, escondendo-me atrás do meu medo de ficar sem eles. Desejos? Mil. De ser feliz. De ter coragem para enfrentar o que vier pela frente. De lutar para superar meus recordes diários. Amigos? Muitos, felizmente. Perto; distantes; de religiões, idades e línguas diferentes; pigmentação de pele e cabelos bastante variados; com tatuagem ou horror delas; preferências sexuais e musicais nada ortodoxas; caretas e avançadíssimos. Seria amiga tanto de Lisbeth Salander quanto de Elizabeth Bennet pela autenticidade, pela determinação, inteligência e vivacidade de ambas. Admiro essas características.
Feliz? Procuro ser. “Alie disciplina com bondade para si mesma. Você é filha do universo, irmã das estrelas e árvores. Esteja em paz com Deus, seja qual for o nome que você lhe der. No meio de seu trabalho e das aspirações de sua jornada, conserve a harmonia e a paz. Creia, acima de toda mesquinhez, falsidade e desengano, o mundo é bonito. Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz, partilhe com os outros a sua felicidade”. Aprendi e tento praticar.
Mensagem
Dentre as recebidas por ocasião do meu aniversário, destaco a confissão do amigo de longo tempo. Ele generosamente dividiu comigo as orientações que, tenho certeza, valeram-lhe de sobejo, recentemente, na maturidade. Passo-as para a frente, dirigidas àqueles e àquelas que, por causa de maior idade, possam utilizá-las.
Dicas
“Quando for fazer amor, use seus óculos. Certifique-se de que sua companhia esteja realmente na cama. Ajuste o despertador para tocar em 3 minutos, para evitar que você adormeça durante a performance. Acerte a iluminação: apague todas as luzes. Deixe o celular programado para o número da Emergência Médica. Escreva em sua mão o nome da pessoa que está com você, no caso de não se lembrar. Fixe bem sua dentadura para que ela não cair debaixo da cama. Tenha Dorflex à mão, para o caso de você cumprir a performance. Não faça muito barulho; nem todos vizinhos são surdos como você. Se tudo der certo, telefone para seus amigos para contar as boas novas. Nunca, jamais, pense em repetir a dose, mesmo sob efeito de Viagra ou Cialis. Não esqueça de levar 2 travesseiros para colocar sob os joelhos, para não forçar a artrose. Se for usar camisinha, convença-o de que não se trata de touquinha para dormir. Não esqueça de tirar a parte de baixo do pijama, mas fique com uma camiseta para não pegar gripe. Não tome nenhum tipo de laxante nos dias anteriores; nunca se sabe quando se tem um acesso de tosse.”
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br