Uma recente reportagem deste jornal mostrou o drama de uma família francana. A mãe não pode nem sair de casa. Ela despende todo o seu tempo para cuidar de um filho que possui problemas mentais. O rapaz de 29 anos fica preso em um quarto adaptado para tal fim. A segregação se dá no próprio lar por falta de vaga em hospital psiquiátrico.
Qualquer doença física encontra amparo ambulatorial ou de internação na rede pública de saúde. Encontra entre aspas. Porque a realidade costuma ser muito mais crua para os doentes. Parte da população enfrenta diretamente na carne as deficiências do atendimento. No entanto, a duras custas, quem tem no corpo algum sofrimento aparente consegue pelo menos um sofrível atendimento hospitalar.
Já a mazela interna do ser humano, em forma de distúrbio mental, poucas vezes consegue sensibilizar as outras pessoas. A própria família tem muita dificuldade para entender ou cuidar de toda opressão psíquica que possa afetar um ente querido. Tratamento externo então sempre foi mais complicado ainda. O portador de tormento psiquiátrico padece duplamente.
Ao longo da história, toda comunidade teve seus loucos mansos. Tratava-se de pessoas que desde a infância apresentavam um comportamento diferente da maioria das outras. Só que todo mundo se acostumava àquele padecimento. Mais ainda, havia compaixão. Isso facilitava a convivência. De mais a mais, ninguém oferecia drogas a esses sofredores da mente.
Hoje a situação está diferente. Quando alguém destoa o seu comportamento, em relação ao da maioria, aparece logo alguém oferecendo um tipo qualquer de droga momentaneamente aliviadoura da tristeza. O distúrbio aumenta sem parar com o consumo esporádico de componentes alucinógenos. Depois, vira uma bola de neve. De repente, sem nem perceber, o portador de um desarranjo mental simples acaba se transformando em um andarilho.
O morador de rua não passa de um preso do lado de fora. Aliás, esse tipo de gente padece de uma dupla prisão. A primeira, por viver em isolamento interno. Pois uma pessoa presa em si mesma não consegue administrar as suas mais íntimas emoções. A falta de domínio completo das ações psíquicas provoca a perda da noção daquilo que é bom ou ruim para a sua vida. Isso faz com que se recuse até uma internação para tratamento de desintoxicação.
O segundo cárcere fica por conta da prisão externa do andarilho. Quem leva uma vida sem rumo, nem parâmetro social, mesmo que se ache livre, está preso sem estar trancafiado em um lugar. Por mais que se movimente, o morador de rua não tem liberdade alguma.
Por fim, da prisão isolada de cada indivíduo, a sociedade tem ultimamente se recolhido totalmente. Perdeu de vez a noção de liberdade. Anda se prendendo, sem conseguir achar saídas para seus problemas. O detalhe é que a maioria nem percebe isso. Busca a libertação em formas que, na verdade, prendem mais ainda.
Antônio Araújo
Articulista e professor