‘A mudança mais significativa na vida de uma pessoa é uma mudança de atitude. Atitudes corretas produzem ações corretas’
William Johnson, político americano
Poucas vezes nos últimos tempos vi no Brasil algum assunto diferente de futebol - ou, no caso de Franca, também o basquete - despertar tanta polêmica como as recentes discussões sobre as tais sacolinhas plásticas. De uma hora para outra, todo mundo virou algoz convicto ou defensor inveterado das tais embalagens. O pior é que, no fogo cruzado disparado a esmo nas redes sociais, na área de comentários dos portais de informação ou nas seções de cartas dos jornais, há muito mais impropérios e sentimentos apaixonados do que argumentos racionais propriamente ditos. O que se vê, salvo exceções, é uma guerra ideológica que opõe eco-xiitas de um lado e consumidores contumazes sem um pingo de preocupação com o meio ambiente do outro.
Não que a questão seja simples. A poluição, a degradação do meio ambiente, o uso indiscriminado dos recursos naturais do planeta e o aquecimento global são problemas sérios, reais e imediatos. O descarte de lixo - e não apenas de sacolas plásticas - nas áreas urbanas é um desafio que segue sem solução definitiva. Exatamente por isso, transformar as tais sacolinhas plásticas em símbolo da sujeira do universo, como alguns fazem, chega a ser risível.
Nem é preciso muito esforço de busca e pesquisa para descobrir que, entre os agentes responsáveis pela emissão de poluentes, a fabricação das tais sacolinhas não está sequer entre os ‘top 50’. Dados do próprio governo federal indicam que espantosos 77,9% destes poluentes vem da agricultura - mais da metade do total é resultante do desmatamento, seguido pelas lavouras que utilizam adubos e fertilizantes químicos e, depois, pela pecuária e a ‘fermentação entérica’ do rebanho ou, em linguagem mais simples, o pum de vaca. Cerca de 20% vêm da produção de energia, como extração de petróleo, usinas elétricas, queima de combustível no transporte e o abastecimento de energia propriamente dito. Toda a indústria responde por apenas 1,7% do total de poluentes, enquanto 0,4% vem de outras fontes. Diante destes números, é fácil concluir que toda a poluição gerada para produzir as 30 bilhões de sacolinhas plásticas usadas anualmente no Brasil beira o desprezível.
É claro que o problema das sacolinhas não se restringe às emissões resultantes de sua produção. Há o problema de como eliminá-las depois do uso, já que a matéria-prima, o plástico, não é biodegradável e, portanto, não se decompõe no ambiente. É aí que a ‘guerra santa’ contra as sacolinhas ganhou força, com seus mais valentes combatentes bradindo com força o mantra de que o caminho lógico passava por sua substituição pelas ‘ecobags’, retornáveis, ou em última instância por alternativas oxibiodegradáveis (um tipo de plástico que seria capaz de se decompor). Sobre esta última, não se trata de opção válida. O tal oxibiodegradável é um engodo porque ele não se decompõe coisíssima nenhuma. Ele apenas se parte em pedaços menores e, ainda assim, só em locais com tratamento adequado, o que simplesmente inexiste.
Restam as sacolas retornáveis. O problema é que, diferente do que parece, estudos bastante sérios indicam que as ecobags não são tão milagrosas assim. Um relatório da agência ambiental britânica, divulgado com exclusividade pelo jornal inglês The Independent no ano passado, mostra que o impacto ambiental das sacolinhas plásticas é muitas vezes menor do que das ecobags, feitas de algodão. Os números impressionam. A cada utilização, uma ecobag é 200 vezes mais danosa do que uma sacolinha tradicional, além do seu fabrico ser responsável pela emissão de 70% a mais de gases poluentes. O estudo conclui que a ecobag só seria melhor se fosse usada todos os dias, durante um ano inteiro, antes de ser descartada. O problema é que, na prática, isso não acontece. Os consumidores usam as ecobags, na média, apenas 51 vezes antes do descarte. Na sua conclusão, o estudo da autoridade ambiental britânica aponta que as sacolas plásticas se revelam uma alternativa muito menos danosa.
O fato de não haver alternativa melhor não significa dizer que o plástico está redimido e deixa de ser um problema. Pelo contrário. Seu impacto no ambiente é considerável. Só que não é com regras e normas inadequadas que vamos chegar a lugar nenhum. Melhor do que lei para banir - ou para obrigar - sacolinha seria um grande esforço por uma mudança de mentalidade de cada consumidor.
As sacolinhas plásticas com todo o reaproveitamento que fazemos delas domesticamente são úteis e até sustentáveis, desde que usadas com alguma moderação. Ninguém precisa pegar uma no mercado para cada item que comprar. Além disso, comportamentos desprezados pela grande maioria da população são muito mais eficazes. Apagar as luzes de um ambiente em que ninguém se faz presente, comprar produtos regionais (menos combustível no transporte), evitar o desperdício de alimentos, preferir ingredientes naturais a enlatados, doar roupas usadas (e não velhas), dividir o carro com alguém para ir ao trabalho ou para levar as crianças à escola e até reduzir o consumo de carne (lembra da vaca?) são atitudes ecologicamente muito mais eficientes e impactantes do que desfilar sua ecobag por aí. E, melhor ainda, não precisa de legislação específica nem de discurso radical. É só uma questão de atitude.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br