Sou uma pessoa decidida, é difícil me deter em dúvidas sobre alguma coisa. Quase sempre compro uma roupa ou sapato na vitrine da loja mesmo, raramente questiono sobre outros modelos ou cores se aquele primeiro atendeu às minhas necessidades. O mesmo se aplica a questões essenciais da vida: casar, filhos, descasar, casar de novo, profissão... Penso, claro, e muito, mas decido logo e não volto para espiar fechaduras de portas trancadas.
Por isso, fico indignada comigo mesma com o fato de não conseguir responder às perguntas que escalonam as minhas preferências. Minha filha sabe disso e adora explorar minha “fraqueza”:
- Mãe, qual seu filme preferido? Mãe, qual seu livro preferido? Mãe, e seu prato? E música preferida? Ator, atriz?
Não satisfeita, ela me pede então uma lista dos 10 mais: isso até que sai, mesmo me sentindo uma traidora daquelas ou daqueles que me esqueci.
Mas, enfim, espero ansiosa pela próxima investida dela e me preparo para quando ela chegar ao ponto: prato mais gostoso que já comi. Hoje já tenho a resposta, pelo menos por ora consegui eleger a coisa mais gostosa que já comi: “Barriga de porco em bouillon de jamón”.
O nome pomposo não revela nem a delícia do prato nem a dificuldade em prepará-lo, o sabor é mais! O prato da chef Roberta Sudbrack é realmente fabuloso e requer tradução.
Trata-se de um cubo pequeno de leitão de leite, cortado exato, como a laser. Por cima vem coberto com pó de banana verde, embora seja marrom. Tal qual aquele cacau em pó que polvilhamos os doces de chocolate. Mais parece um doce, um tiramissú. O cubo de carne vem banhado por um caldo obtido através de um presunto espanhol. Tudo delicado, mas repleto de sabores. Ao comer, visitou-me uma vez mais aquela sensação: a porção de comida que rola na boca, procurando cada uma das papilas gustativas, como se quisesse se mostrar à boca inteira. Libera-se a endorfina, a boca se enche de água, o corpo amolece, os olhos se fecham porque o mundo que se quer enxergar está dentro. Fora, o frio, o metálico, o abrupto. Aqui dentro, o quente, úmido, cheiroso, saboroso. Às vezes acontece isso, é raro. Esse equilíbrio, combinando leveza com sabor pronunciado, é o que se busca sempre, quase nunca se acerta.
Sabia que a chef Roberta Sudbrack era uma cozinheira de muitos quilates: escolhida pela admirável Ruth Cardoso para comandar os jantares no Planalto, só poderia dar nisso mesmo, uma cozinha muito competente. Ainda assim me surpreendi.
O restaurante, homônimo da chef, fica no Rio de Janeiro às margens de um canal, próximo ao Jardim Botânico e ao Jóquei Clube. É caro e a comida é pouca, o intuito é transmitir uma experiência e não encher barriga. Tanto assim que o restaurante não tem cardápio fixo. Só se serve ao estilo menu confiance com os pratos sendo escolhidos no dia. Ou se confia na chef e come o que ela quer oferecer ou não se vai até lá. Também não é lugar para pessoas com grandes restrições alimentares, porque não dá pra se mudar um menu de 5 ou 9 pratos com a mesma maestria de combinações.
O menu, ou melhor, a experiência, que aceitei viver no dia do meu aniversário foi:
- Canjiquinha com ovas
- Barriga de porco em bouillon de jamón
- Namorado em vagem de primeira extração
- Ravióli de galinha caipira e quiabo croustillante
- Costela assada em baixíssima temperatura e praliné de farinha de milho
- Queijo
- Mil folhas com baunilha Bourbon
O restaurante parece afeito tão somente à celebração, ao meu lado também tinha um aniversariante. As pessoas conversam muito baixo, como se temessem incomodar a apresentação da artista. Há garçons inquietos em número superior ao necessário, sem conseguir oferecer um serviço impecável. As mesas nuas, embora lindas, o enfeite minimalista, as paredes de pedra e o chão frio, parecem dar suporte ao intuito de “Experiência Sudbrack” conforme anuncia o cardápio, em detrimento da palavra jantar: tão querida, romântica e cheia de promessas...
Dica da semana
Achamos lindos os bolos perfeitos, sem rachaduras, sem buracos, sem depressões. Não é fácil chegar-se a esse resultado. Os grandes pâtisseries são poucos e caros e normalmente homens. Os doces, diferentemente do sal, exigem que se cumpra a receita. Muitas vezes exige-se que se utilize uma balança de precisão. E mulheres tendem a colocar aquele ‘toque pessoal’ que muitas vezes acaba por desequilibrar a receita.
Pois bem, o bolo só se desenforma perfeitamente se a forma foi devidamente untada e polvilhada com farinha e só depois de morno.
Antes de cortá-lo em camadas, faça um corte na lateral, assim quando recolocar as camadas elas ficarão onde originalmente estavam. Os recheios tipo brigadeiro e doce de leite, se espalham melhor se a colher estiver molhada.
Para que a cobertura fique uniforme e brilhante é necessário pincelar todo o bolo antes com alguma geléia fina ou verniz, que cobrirá as imperfeições, espere secar. A cobertura deve estar líquida, mas, não muito fina. Despeja-se no centro do bolo e deixe que ela caminhe por todo o bolo de modo uniforme.
Coloque o bolo numa grade e deixe escorrer, sem interferir. Mãos a obra, você se divertirá e comerá muitos bolos até chegar a perfeição.