Há pessoas que têm problemas de estômago. Outras apresentam anomalias no coração, no fígado ou no pulmão. Para todas essas enfermidades há sempre um tipo de tratamento adequado. Pode variar desde um simples remédio, quando o problema é superficial ou passageiro, até um ato cirúrgico com a consequente internação, quando o problema é mais grave.
Porém, quando alguém apresenta algum tipo de transtorno mental, os caminhos do tratamento já não os mesmos trilhados pelo das outras doenças. A despeito da gravidade desses transtornos, o direito à internação parece subitamente arrancado do paciente e sua família.
A lógica, infelizmente, modifica-se. Permeada por ranços históricos e políticos, por interesses corporativos ou familiares, ou simplesmente por uma ingenuidade que parecia perdida naquela última esquerda romântica de final do século passado, essa lógica acaba transformando ‘shakespeareanamente’ o cotidiano de algumas famílias em verdadeiras tragédias.
Ao não poder internar seus filhos em função de uma política e de uma lei que propõem a desinternalização e o tratamento de doenças mentais por meio de uma rede integrada de serviços extra-hospitalares, sobra para algumas famílias a internalização do estigma manicomial dentro de suas próprias casas, fazendo com que essa regulamentação, no fundo, volte-se contra si mesma.
Sem saber como agir, ou sem estrutura financeira ou psicológica para lidar com o problema, muitas famílias acabam repetindo alguns métodos manicomiais que a lei justamente propunha acabar. Amarrar filhos em casa ou isolá-los em quartos com portas de aço, entre várias outras coisas, acabam sendo as únicas alternativas para essas pessoas, a despeito da dor e do sentimento de culpa que as invade.
Obviamente, não se quer com essa observação diminuir a importância do movimento antimanicomial que lutou desde início dos anos de 1980 para humanizar o tratamento psiquiátrico e trabalhar pela reinserção dos doentes mentais na sociedade. Porém, não se pode substituir um extremo por outro. Ao deixar de investir em hospitais psiquiátricos ou em unidades especializadas de hospitais gerais, e dificultar a internação de pacientes com graves distúrbios mentais, sem consolidar o sistema alternativo de assistência, o que o país está conseguindo é transferir para o seio familiar um tratamento que infelizmente não terá nenhum êxito.
Quase 11 anos depois da promulgação dessa lei, talvez já seja hora de parar com as desculpas ideológicas ou com o jogo de interesses. Já não há mais manicômios. Os hospitais especializados têm hoje pessoal capacitado e projetos terapêuticos para agilizar o processo de cura. Além disso, é fácil perceber quando a família está simplesmente querendo abandonar seu doente aos cuidados do Estado.
Está na hora de encararmos que há distúrbios que demandam internação. É simples. Se não mudarmos esses conceitos agora, corremos o risco de invertermos todo o objetivo da lei. Ao invés de termos um prisioneiro dentro de um hospital, teremos vários dentro de uma casa.
E não resolveremos o problema.