‘Na política não há amigos, apenas conspiradores que se unem’
Victor Lasky, jornalista americano
Num passado não muito distante, qualquer observador atento da política local que fosse desafiado a antecipar o desenrolar da disputa pela sucessão de Sidnei Rocha (PSDB), muito provavelmente descreveria um cenário em que o candidato do prefeito seria desde sempre o grande favorito, qualquer que fosse o nome em questão, independente dos adversários que se lançassem na disputa.
Respaldado por sucessivos recordes de aprovação popular, com dinheiro em caixa, maioria absoluta na Câmara de Vereadores e muitas obras previstas para serem concluídas na porção final de seu governo, Sidnei Rocha parecia um cabo eleitoral indestrutível, no melhor estilo Lula. Seu único real problema, pelo menos até meados de 2011, parecia ser decidir quem apoiar.
Menos de doze meses depois, o mar está para lá de revolto. Uma sequência de contratempos abriu caminho para uma radical mudança de cenário. Primeiro veio o golpe orquestrado pela vereadora Graciela Ambrosio, que num movimento agressivo removeu o grupo de Sidnei do comando do PP, no começo do segundo semestre de 2011. Praticamente ao mesmo tempo, o prefeito sofreria idêntico revés no PR, desta vez num movimento liderado pelo deputado federal Marco Aurélio Ubiali (PSB), com consequências idem.
A partir daí, as notícias positivas ficaram cada vez menos frequentes. Sidnei viu azedar seu relacionamento com a Câmara, a ponto de seus projetos, aprovados até aquele instante praticamente sem discussão, passarem a ser sistematicamente adiados ou rejeitados.
Foram reveses importantes, como no caso da desapropriação do prédio da Charm para fazer uma creche, engavetado de vez, ou a eleição para a mesa diretora da Câmara, em que viu seu preferido, Marco Garcia (PPS), ser derrotado pelo oposicionista Walter Gomes (PSB). Mesmo quando conseguiu vencer, não foi sem desgaste, como no caso da desapropriação do ‘esqueleto’ para ser transformado em secretaria de Educação, ou o viaduto da Major Nicácio, cuja aprovação só foi conseguida depois de três ruidosas votações.
Ao mesmo tempo, uma enxurrada de ações propostas pelo Ministério Público começou a pipocar, aumentando consideravelmente o grau de nervosismo no primeiro escalão. Seus principais assessores tiveram que passar a lidar, além dos desafios cotidianos da gestão, também com intermináveis reuniões com advogados e procuradores para discutir estratégias de defesa. Num dos casos, a perspectiva de um processo tumultuado numa acusação de assédio contra funcionários levou João Marcos, presidente da Emdef, a aceitar um acordo que resultou em sua demissão. Outro que ameaça deixar o paço é Jerônimo Sérgio Pinto, cujos bens estão indisponíveis como resultado de ações judiciais.
Mas do ponto de vista eleitoral, nada tem se mostrado tão desastroso como a decisão de realizar prévias. O que Sidnei Rocha sonhou como uma disputa justa, que permitiria uma escolha equilibrada entre aqueles que via com maior chance e qualidade de serem eleitos, transformou-se rapidamente num fratricídio. Neste instante, nada causa mais danos ao governo do que o ‘fogo amigo’ trocado fartamente entre os grupos que apóiam Alexandre Ferreira, Sebastião Ananias e Valéria Marson. No lugar da disputa que deveria se ater a ideias, com convergência muito superior às divergências e algum espaço para composições, o que se vê é uma guerra declarada, com adversários que mal se cumprimentam, acordos costurados que são rasgados à luz do dia e praticamente nenhuma colaboração entre os diversos setores da administração municipal. É um mal que corrói por dentro, de forma rápida e progressiva.
Melhor para os opositores de Sidnei Rocha, notadamente Graciela Ambrosio e Gilson Pelizaro (PT), que num outro movimento surpreendente recolheram a cavalaria. Ambos têm evitado polêmicas desnecessárias, críticas agudas ou exposição gratuita quando os temas são indigestos. Como num xadrez, mantêm suas peças onde estão e assistem ao autoflagelo do governo que, até pouco tempo, parecia inatingível.
Reza a lenda grega que Éris, também conhecida como Deusa da Discórdia, ficou profundamente ofendida por não ter sido convidada para o casamento de Tétis com Peleu. Vingativa, resolveu atirar sobre a mesa do banquete nupcial uma maçã de ouro, com a inscrição ‘Para a mais bela das deusas’. Hera, Afrodite e Atena, as três divindades mais poderosas, imediatamente começaram a disputar o troféu. Zeus, senhor do Olimpo, sem ter como controlar a situação que há muito transcendia o razoável, transferiu a decisão para Páris. Foram muitas as ofertas dirigidas pelas três em troca da maçã, mas Páris acabou se decidindo por Afrodite, que lhe prometera ‘o amor da mais bela mulher do mundo’. Afrodite ficou com a maçã, Páris ficou com Helena, a tal mulher mais bela do mundo, e a Grécia ficou com a guerra de Tróia, efeito colateral da luta pelo pomo e dos descontentes com a decisão.
A analogia com a lenda cai como uma luva. A julgar pelo ritmo das prévias tucanas, é difícil acreditar que os derrotados se empenharão para fazer do tucano escolhido o prefeito de Franca. Sidnei Rocha continua sendo um ator importante, tem experiência de sobra e vitalidade suficiente para fazer diferença na disputa eleitoral. Mas os egos de seus pré-candidatos estão, desde já, muito feridos. Cicatrizá-los talvez seja missão impossível. Bom mesmo para a oposição, que assiste aos tucanos se digladiarem até a última pena. De camarote.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br