10 de julho de 2026

Tragédia em Minas Gerais: dor une famílias após morte de cinco filhos


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UNIDOS - João e Edilamar Ponce, Luzia e Estevão Caprioli e Valdeir e Sirlei Rossi, casais que perderam filhos no acidente

No último ano, eles não passaram um dia sequer sem chorar. Neste domingo, 4 de março, as lágrimas não devem cessar. Nem as orações. A conexão com Deus, aliás, é o que tem dado forças às famílias Caprioli, Careta e Ponce. Elas estão entre as cinco famílias que perderam seus filhos, todos com 19 anos, num grave acidente de trânsito que completa exatamente um ano hoje. Juntos pela dor, se tornaram uma “grande família”.

Em 2011, os jovens francanos Marcos Vinícius Caprioli, Felipe Careta, Carlos Eduardo Ponce, Rafael Naves Bedo e Ana Beatriz Bittar Gimenes decidiram passar o feriado de Carnaval longe de casa. O destino era Ituiutaba (MG), a 327 quilômetros de Franca. Mas os planos foram interrompidos antes da chegada, na estrada, de forma trágica. Os cinco amigos morreram após o carro deles se chocar com dois caminhões na rodovia. 

Neste domingo, as famílias vão rezar a missa de um ano, às 19 horas, na Paróquia Santa Rita. “A gente se conhecia, mas depois do acidente nunca mais consegui fazer oração apenas para meu filho, então eu ganhei mais quatro filhos”, disse o pespontador Valdeir de Souza Rossi, 52, pai de Felipe.

Mães e pais dizem sentir um certo conforto ao ver que a angústia não é única, não é exclusiva. “A gente já era amigo, mas agora estamos muito mais unidos, estamos unidos pela dor e a gente está sempre junto. Choramos juntos, rezamos juntos, compartilhamos nossa dor. Isso ajuda um ao outro, dá forças”, disse a funcionária pública Luzia das Graças Caprioli, 61, mãe de Marcos.

Luzia e o marido Estevão Caprioli perderam o caçula de oito filhos. Não conseguiram se desfazer dos pertences do filho. Calçados, roupas e outros objetos estão intactos no quarto que Marcos dividia com um dos irmãos. “Ainda não tive coragem. Pego as roupas dele, abraço e choro”, disse a mãe, que busca na fé forças para, simplesmente, continuar. “Acredito que é a maior dor do mundo perder um filho. É um vazio que fica. Tenho vivido na misericórdia de Deus. Agradeço a Ele todas as noites por me colocar de pé, me dar forças para cuidar do meu lar, da minha família, dos meus netos”, disse Luzia.

Para Estevão, dormir virou um refúgio. “A separação dói. Só não dói de jeito nenhum na hora que estou dormindo. Não sofro porque estou apagado. Acordado, seja trabalhando, comendo, conversando ou divertindo, estou sofrendo. Onde a gente está, pensa no Marcos Vinícius.” O jovem estudava e trabalhava no laboratório de um ótica de Franca.

FELIPE, O ‘LILÃO’
Entender um fato que contraria a lei natural da vida é algo que ainda desafia a dona de casa Sirlei Careta Rossi, 46. Um dos cinco filhos dela, Felipe, é outra vítima da tragédia de 4 de março. “Nunca pensei que fosse perder um filho porque a lei da vida é os pais morrerem primeiro. Agora a gente percebe como uma mãe que perde um filho sofre”, disse, com os olhos marejados.

Os dias 4 de todos os meses se tornaram um tormento para Sirlei. O próximo está sendo mais doloroso. “Este 4 de março está sendo difícil, um sofrimento, uma tristeza, uma angústia. Se não fosse Deus, acho que nem me levantaria da cama.”

Sirlei e Valdeir Rossi tiveram cinco filhos, todos homens. Felipe era gêmeo de Tales. Dias após a tragédia, os familiares souberam de uma coincidência. Na sexta-feira de Carnaval, dia da morte do irmão, Tales estava jogando futebel num campo em Franca e, por volta das 18 horas, desmaiou no meio do jogo. O acidente que matou o irmão gêmeo ocorreu neste horário. “A ligação entre eles era muito forte”, disse Sirlei.

Ela e o marido estavam em casa lanchando, às dez da noite, quando duas amigas de Felipe bateram na porta. Perguntaram se o jovem estava viajando porque haviam recebido a notícia de um acidente com um grupo de amigos francanos. Quando Valdeir perguntou se Felipe estava bem, as duas começaram a chorar compulsivamente e informaram que os cinco tinham morrido. “O chão se abriu nessa hora. Pedi misericórdia para Deus, para ter forças. Foi um calvário”, relembra a mãe.

A família tem o hábito de visitar o túmulo de Felipe no Cemitério Santo Agostinho todos os domingos para levar flores. Hoje não será diferente. Novas rosas estarão sobre a sepultura e os parentes rezarão um terço. Felipe tinha voltado a estudar e trabalhava numa fábrica de sapatos.

CARLOS EDUARDO, KADU
A saudade dos abraços apertados, dos beijos e de ouvir o filho dizer “te amo” dilaceram o coração da confeiteira Edilamar Ananias Lino Ponce, 49. Um ano após sepultarem o filho Carlos Eduardo Ponce, que era Kadu para os amigos e Dudu para os pais e a irmã Lívia, Edilamar e o marido João Ponce não têm o tempo como um aliado para superar a dor da perda. “O pessoal fala que com o tempo a saudade vai diminuindo, mas é o contrário o que estou vendo comigo e com as outras famílias. O tempo não vai tampar essa dor tão fácil”, disse o pai.

Para Edilamar, o acidente deixou uma grande marca. “O Marcos Vinícius passava na minha casa todos os dias no almoço ou jantar, o Rafael dormiu várias vezes na minha casa e eles eram muito presentes no nosso dia a dia. Perdi todos eles. Considerava todos meus filhos.”

Na noite do acidente, um policial ligou e avisou da morte dos quatro jovens e disse que Kadu estava sendo socorrido no hospital de Uberlândia (MG). Assim que recebeu a notícia, a mãe começou a rezar. “Pedi para Deus ter misericórdia e fazer o melhor pelo Dudu porque ele não suportaria estar numa cama aleijado ou continuar vivo com os melhores amigos tendo partido.” Ele cursava educação física na Unifran.

A reportagem não conseguiu ouvir os pais dos outros dois jovens. Ana Beatriz Bittar Gimenes, a Bia, também era universitária. Cursava jornalismo na PUC de Campinas. Rafael Bedo fazia supletivo e era designer na fábrica de calçados do pai.