11 de julho de 2026

‘Novos ricos desprezam valores culturais’, explica sociólogo


| Tempo de leitura: 3 min
TENDÊNCIA - O sociólogo Agnaldo Barbosa diz que programas como ‘Mulheres Ricas’ devem ganhar cada vez mais espaço na TV

O sociólogo Agnaldo Barbosa, professor da Unesp de Franca, diz que o reality show Mulheres Ricas, da TV Bandeirantes, caricaturiza a elite de novos ricos que há no Brasil. Segundo ele, os novos ricos, que foram surgindo a partir dos anos 1990, “são exagerados, desprezam os valores culturais, cultuam o dinheiro, querem ser servidos a todo momento e fazer o que ‘der na telha’”. Leia a seguir os principais trechos da entrevista do sociólogo da Unesp.

Comércio da Franca - Qual a sua opinião sobre o reality Mulheres Ricas?
Agnaldo Barbosa -
Ele é interessante no sentido de instigar as pessoas, mostrando a possibilidade de consumo de uma infinidade de coisas que todos almejam. Ao mesmo tempo, porém, ao caricaturizar essa elite de novos ricos, acaba distorcendo ainda mais o que é ascender socialmente, dissociando um pouco dinheiro e cultura, que eram as marcas das elites tradicionais.

Comércio - Qual a diferença entre essas elites?
Agnaldo -
A palavra elite significa o que há de melhor. A elite dos atletas, por exemplo. Se é o que há de melhor, então deve ser referência. E nossas elites tradicionais funcionavam mais ou menos assim. Eram mais comedidas, davam exemplo. Tinham dinheiro, mas também prezavam os aspectos culturais. Os novos ricos, que vão surgindo a partir dos anos 1990, quebram com essa tradição. São exagerados, desprezam os valores culturais, cultuam o dinheiro, querem ser servidos a todo momento e fazer o que “der na telha”.

Comércio - E quais são as consequências disso?
Agnaldo Barbosa
- Uma influência perniciosa em nossa sociedade, pois a ascensão econômica passa a ser vista como desligada da responsabilidade cívica, da responsabilidade de dar exemplos de como agir e como representar. Como o valor único passa a ser o dinheiro, quem o possui parece livre de qualquer regra.

Comércio - Mas em um país de tantas desigualdades como o Brasil, nossas elites não foram sempre livres para fazer o que quisessem?
Agnaldo Barbosa -
De certa forma sim, mas não de uma maneira tão escrachada como é feito agora, sobretudo na esfera da cultura e dos costumes. O que acontece é que corremos o risco de perder as referências. Por exemplo, o sucesso de Val Marchiori reforça o estereótipo de que uma mulher pode (ou deve) usar seu corpo para escalar socialmente. No fundo, o que estamos dizendo para as nossas meninas é que a estética substitui completamente a cultura em um processo de ascensão social.

Comércio - E por que esse tipo de programa faz tanto sucesso?
Agnaldo Barbosa -
No caso de Mulheres Ricas, acredito que seja pela semelhança que esses novos ricos têm com as pessoas comuns. Eles gostam de pagode, axé e sertanejo, ao contrário da elite tradicional, que preferia música clássica. Além disso, Val e Débora Rodrigues, por exemplo, tiveram uma origem humilde, apesar de estarem agora identificadas com essa elite. Mas o programa atrai o olhar e a esperança das pessoas que sonham com essa ascensão.

Comércio - Qual é a tendência desse tipo de programa?
Agnaldo Barbosa -
Creio que é crescer cada vez mais. Já ouvi falar em um novo programa, nesses mesmos moldes, que iria tratar das “subcelebridades”. O Sérgio Malandro deve ganhar um reality show só para ele. Vão mostrar o dia a dia de sua casa e sua família, na mesma linha do que foi feito com o roqueiro Ozzy Osbourne. Creio que estamos caminhando para o fim da vida privada, para o fim da intimidade. O desejo, agora, é de também não ser anônimo.