10 de julho de 2026

‘Ação da PF foi um golpe na indústria de diamantes em Franca’


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ROLAM AS PEDRAS - Cercado de minerais, José Peres Algarte dá entrevista em seu escritório, no centro de Franca

O escritório é simples, ornamentado com uma variedade de minerais de várias origens, resultado de inúmeras viagens pelo Brasil e pelo mundo. Como já está aposentado e realiza apenas trabalhos de consultoria, o instalou em sua própria residência, um apartamento localizado bem no coração da cidade. Sua postura, no entanto, é bem mais complexa. Aos 69 anos, José Peres Algarte mostra-se bastante descontraído, irreverente na forma de se apresentar e provocativo nas idéias.

Sem formalidade, recebeu nossa reportagem descalço, de bermuda e camisa branca. “É para descarregar as energias”, disse, com bom humor. Mas as palavras que profere são ágeis e provocativas, principalmente quando o assunto é a indústria do diamante, uma área que ele conhece muito bem.

Para esse geólogo formado pela USP, com passagens pela Petrobrás, no Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM), no Serviço Geológico do Brasil e na CPFL Franca está perdendo o “bonde da história”, deixando morrer uma indústria que já foi importante e tradicional na cidade.

Apesar de francano, ele não poupa críticas à cidade e a sua população. “Franca é uma cidade meio masoquista, pois sempre precisa ter um motivo para chorar o que deveria ter sido feito e não foi feito, ou o que podia não ter sido feito e se fez. Choramos sempre o leite que derramamos. Veja o exemplo do Hotel Francano e, agora, o que estão fazendo com a AEC - uma vergonha.”

No início dos anos 1990, Algarte coordenou um projeto junto ao Serviço Geológico do Brasil. Financiado pelo governo estadual, esse projeto propunha o desenvolvimento de uma série de polos de produção espalhados pelo Estado, conforme o potencial mineral de cada uma das áreas especificadas.

Para Franca, estava previsto a criação de um polo diamantário, como se desenvolveu o polo de produção de pedras ornamentais (granito) na região de Atibaia e Bragança Paulista.

Em vez de exportar o diamante bruto para que fosse lapidado na Europa, o projeto buscava organizar a produção e a lapidação por aqui mesmo. Entre as propostas estavam a criação de cursos para formar lapidários, a formalização do comércio e a instalação de um laboratório gemológico, capaz de analisar e certificar diamantes de todo o país.

Infelizmente, porém, o projeto não foi para frente. Apesar de todo o investimento feito pelo Estado, segundo Algarte, o governo de Gilmar Dominici preferiu investir esse dinheiro em outros projetos. Salas que foram alugadas para o laboratório, funcionários do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) que foram treinados no exterior, tudo isso acabou se perdendo, assim como foi diminuindo aos poucos o número de lapidários na cidade.

Além disso, Algarte critica também a ação da Polícia Federal na conhecida Operação Quilate, que trouxe a Franca cerca de 150 homens armados, prendeu alguns francanos envolvidos na indústria do diamante e fechou várias oficinas de lapidação. Algarte diz que essa ação foi absurda e desnecessária.

Comércio da Franca - Como começou essa história de diamantes em Franca?
José Peres Algarte -
A tradição do comércio de diamantes em nossa cidade deveu-se à colônia árabe e a seus mercadores de sal que faziam o comércio do Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso. Com a produção e o comércio consolidados, começaram a surgir as primeiras lapidações nas primeiras décadas do século passado. A primeira em Franca foi a do sírio Zaré, em 1915. Funcionava no Sobrado Verde, famoso naquela época, mas que infelizmente também foi demolido. César Pereira e Álvaro Jacinto Guimarães, que foi aluno do famoso lapidário Bouquet, do Rio de Janeiro, também foram importantes lapidários da cidade. Nessas primeiras décadas, havia mais de 150 lapidários em Franca, com uma renda mensal em torno de US$ 1 mil por mês. Ao invés de fomentar e organizar essa indústria, nós a destruímos. Depois da operação da Polícia Federal em Franca, não deve haver mais de 20 lapidações na cidade. E a renda não deve ser a metade do que já foi um dia. Perdemos a chance de nos especializarmos em um negócio extremamente lucrativo, a despeito dos outros que mantivemos e que também são muito importantes.

Comércio - O senhor diz que essa indústria é bastante lucrativa...
Algarte -
Bastante, principalmente se você conseguir agregar valor à pedra bruta. Veja o que acontece na rua 54, em Nova York, ou em Antuérpia, na Bélgica. Em uma área como a nossa praça Nossa Senhora da Conceição há inúmeras lapidações, todas elas em cômodos muito pequenos, com profissionais altamente especializados lapidando pedras que serão vendidas a um preço bem maior do que aquele pago pela pedra bruta.

Comércio - Por que o senhor acha que a lapidação morreu em nossa cidade?
Algarte -
Primeiro em função de nossas leis, o que também é um absurdo. Se você resolver usar seu domingo para peneirar pedras no rio Canoas, por exemplo, é melhor não achar nada porque, se tirar um diamante do rio, mesmo que seja em função de seu esforço, ele vai pertencer ao Estado. Assim que você o puser no bolso, você passa a ser um bandido, um contrabandista, mesmo que trabalhe honestamente em qualquer outra profissão. Isso não deveria acontecer. O cidadão deveria ter direito de comercializar aquilo que ele tirou da terra a um preço justo, que obviamente seria determinado pelo mercado.

Comércio - Mas não é possível conseguir autorização para explorar áreas que apresentem potencial em diamantes?
Algarte -
É possível legalizar a produção, mas é um processo lento, burocrático e muito caro, algo que apenas as grandes empresas conseguem fazer. E elas fazem isso muito bem. A sul-africana De Beers domina praticamente 80% da produção de diamantes no mundo. Vende também para poucos e com isso consegue controlar o mercado. Mas, em minha opinião, existe outro motivo para o fracasso dessa indústria não apenas em Franca, mas também em todo o Brasil. Eu acredito que existe um grande preconceito contra a figura do garimpeiro. De forma geral, tudo o que existe de pior no ser humano é atribuído à figura do garimpeiro. E o diamante explorado de forma mais industrial com certeza atrairia garimpeiros. Não é um preconceito claro, explícito. É algo que a sociedade percebe de maneira diluída em toda a atividade e talvez por isso não lute para desenvolvê-la. Talvez a idéia do proibido, de contrabando, que sempre acompanhou a mineração de pedras preciosas também contribua para esse preconceito, assim como a presença de muitos judeus nesse comércio.

Comércio - Mas se essa comunidade tivesse mais informações sobre os benefícios que um polo diamantário poderia trazer a cidade, esse preconceito não poderia mudar?
Algarte -
Pode ser. Mas o fato é que, quando tentamos criar o polo diamantário aqui na cidade, que seria desenvolvido com dinheiro do Estado, pouca gente se interessou. O governo anterior ao PT, não me lembro bem quem foi, até que tentou alguma coisa. Eles se interessaram pelo projeto e fizeram a parceria com o Estado, mas as coisas acabaram não progredindo. O governo de São Paulo chegou a fazer alguns investimentos, mas na gestão do PT o dinheiro acabou sendo usado para outras finalidades que eles julgaram mais importantes. Como ninguém reclamou, o projeto morreu antes mesmo de nascer. Acho que Franca foi o único que não vingou. O projeto de granitos ornamentais da região de Atibaia foi um sucesso, além de outros que não me lembro. O polo de granito, por exemplo, foi levado para o Ceará, que hoje é um dos grandes exportadores brasileiros de placas de granito, já limpos, cortados e prontos para o uso. Deixamos de exportar o bloco de granito e agregamos valor ao mineral. É isso que queríamos fazer com o diamante aqui em Franca, mas infelizmente não conseguimos.

Comércio - Recentemente, a Polícia Federal desencadeou uma operação que prendeu várias pessoas em Franca. A ação tinha como objetivo desbaratar uma quadrilha que lapidava e vendia diamantes irregularmente. O senhor parece não concordar muito com essa ação da PF...
Algarte -
É claro que não! O que eles fizeram foi dar um golpe de misericórdia na indústria de diamantes em Franca, o que é uma pena. Essas pessoas que eles prenderam eram pessoas que trabalhavam na ilegalidade porque não existe uma regulamentação coerente para esse tipo de negócio, como eu já falei. Mas, de qualquer forma, essas pessoas traziam riquezas para a cidade, compravam produtos aqui, geravam empregos e gastavam aqui. E uma riqueza que, se bem organizada e administrada, seria a maior da cidade, bem acima daquela trazida pela indústria calçadista. Agora essas pessoas devem ir para outro lugar ou mudar de ramo, deixando de lado todo esse potencial de riqueza. Eu fico me perguntando por que a PF não traz toda essa truculência e essa mesma quantidade de homens para desbaratar as quadrilhas que vendem crack tranquilamente por toda a cidade, inclusive na porta das escolas. Será que se houvesse uma De Beers na área de entorpecentes os pequenos traficantes também não seriam banidos do mercado? Vou dizer mais uma vez, e talvez a última, porque já estou um pouco cansado de discutir essas coisas aqui em Franca. A sociedade francana parece não perceber o que está acontecendo. É preciso recuperar, organizar e normatizar essa indústria, não tratar as pessoas que nela atuam como bandidos e contraventores. E digo mais: o que nós não fizemos aqui o Panamá está começando a fazer e o Nordeste brasileiro também. Para você ter uma idéia de como toda essa história é uma grande bobagem, se você tentasse entrar em Antuérpia, por exemplo, com um saco cheio de diamantes, como se fosse uma bagagem de mão, não haveria o menor problema. A alfândega de lá apenas anotaria a quantidade de pedras que você estava levando. Quando saísse, aí sim eles iriam querer saber dos diamantes. Se você tivesse vendido, aí tudo bem, porque o que eles queriam é que o diamante entrasse para ser lapidado. Com certeza, ninguém iria te prender por isso.

Comércio - E o senhor acredita que nós ainda podemos reverter esse processo e reconstruir a indústria do diamante na cidade? Ou será que ela irá acabar de vez?
Algarte -
Enquanto não se normatizar a atividade do diamante de uma forma coerente, como acontece com outros setores da economia, a atividade clandestina irá continuar, até porque o diamante é muito disperso na natureza. Nesse sentido, Franca ainda deverá manter um pouco dessa atividade, mesmo que na velha informalidade da praça Barão. Porém, será economicamente insignificante. Agora, se quisermos nos tornar referência em diamantes, com uma indústria organizada, nos moldes do que foi proposto naquele projeto antigo, a cidade terá que se organizar melhor. Para além da vontade política, será necessário um envolvimento coletivo. Mas, tudo é possível, pois o Brasil ainda é um dos maiores produtores de diamantes do mundo e Franca tem muita tradição no negócio.