Na última semana de fevereiro foi registrado um grande tumulto na porta do Sindicato dos Sapateiros do Município, além da fila gigantesca que se formou na porta da entidade. O estopim dessa confusão foi um panfleto apócrifo que circulou pelas fábricas de calçado de Franca. Segundo esse folheto, o pedido de oposição dos sapateiros não sindicalizados à cobrança da contribuição assistencial, decidida em assembleia, seria feito quarta-feira de Cinzas, das 8h às 18h, na sede do Sindicato Municipal.
A informação, no entanto, estava errada. O horário correto, divulgado - discretamente, diga-se de passem - pelo Sindicato, era das 12h às 17h dessa mesma quarta-feira. Como consequência, logo pela manhã os sapateiros foram chegando. Primeiro começou o burburinho, depois vieram reclamações e protestos que logo se intensificaram, ganhando ares de tumulto. No final, parte dos profissionais que ali compareceram foi atendia. Quem não conseguiu atendimento no mesmo dia, recebeu uma senha para voltar no dia seguinte.
Para além da intervenção policial, que se fez necessária quando do tumulto, sobraram acusações e ataques de todos os lados. O Sindicato dos Sapateiros acusou os diretores do Sindicato da Padre Anchieta de serem os responsáveis pelo panfleto apócrifo, o que foi negado por esses sindicalistas. Por sua vez, estes acusaram o Sindicato Municipal de ser desorganizado e de tentar enganar os trabalhadores.
Mas a questão, todos sabem, passa bem longe desse panfleto. O motivo, a constância e a persistência dessa briga entre dois sindicatos que dizem lutar por uma mesma categoria têm uma razão que parece clara: uma disputa por poder, status e pelo direito de gerenciar a arrecadação que advém das contribuições sindicais. E, nessa situação, os interesses da categoria propriamente ditos acabam ficando em segundo plano.
Se considerarmos que ambas as diretorias militam e praticamente dominam o cenário sindical francano há mais de duas décadas, é possível inferir que o mote principal dessa disputa esteja muito longe das questões ideológicas que um dia embasaram os movimentos e as lutas dos trabalhadores.
Fazendo-se algumas contas superficiais, seria possível deduzir que o Sindicato dos Sapateiros movimenta anualmente uma quantia próxima a R$ 800 mil. Talvez o valor seja até um pouco maior, considerando-se o percentual da contribuição assistencial. Diante desses dados, faz sentido inferir que essa aguerrida pendenga possa estar diretamente atrelada mais com o montante arrecadado pelo sindicato que tiver a representação dos sapateiros do que com as estratégias, os planos e os princípios ideológicos que deveriam embasar a postura sindical.