Era jovem, bem jovem. Tinha pele boa, não era feia, nem bonita
Não era gorda, nem magra, não era alta, não desfilava, não era chegada à maioria das coisas que as mocinhas de então gostavam e achava natural ter amizade com rapazes. Era romântica, mas não dispensava o carrinho de rolemã. Nem gibis. Não era quietinha, nem exemplar. Matava aulas. Todos os funcionários da escola me conheciam, sabiam que eu era do balacobaco. Não era mal educada, não era agressiva, tocava violão, cantava. Duas professoras me amavam e me defendiam: Helena Barbosa e Lúcia Ceraso. Eu era absurdamente feliz com o pouco que tinha. E adorava conhecer gente nova.
Pery Ribeiro veio a Franca. Faria show na AEC-Centro. Era moço, até bonito. Olhos verdes puxados ao pai, voz maravilhosa. Já o ouvira cantar, e achava o máximo vê-lo defender publicamente a mãe. Dalva de Oliveira, naquela fase era espezinhada, aviltada, rotulada, porque ousara revidar, uma por uma, as humilhações pelas quais o marido a fizera passar. Pery ficou hospedado no Hotel Francano que, na ocasião, era propriedade do pai de querida amiga.
Ela sabia que eu gostava das músicas que Pery e Dalva cantavam e Herivelto Martins, o pai, compunha. Sabia que eu conhecia todas porque música, naquela época, durava bastante nas paradas de sucesso. Não eram descartáveis. E eu sabia tocar violão porque meu avô me ensinara, por meio das músicas que ele conhecia. Vai daí, cantava de dolentes valsas a sincopados rocks. Sem o menor preconceito. Ela me chamou para conhecê-lo, e eu fui. Lá pelas tantas apareceu um violão, que me foi entregue. Para homenageá-lo, cantei duas ou três músicas, sucessos dos pais dele. Simpaticíssimo, cantou junto. (Eu e Luís Bonfá, acompanhamos Pery Ribeiro ao violão!). Ele iria para o baile, perguntou-me se eu queira ir junto e sentar-me na mesa dele. Subida honra, achei. Fui, devidamente acompanhada pelo irmão mais novo, que se mandou atrás de alguma moça. Fiquei o baile inteiro com ele, grato por eu demonstrar meu carinho por seus pais.
No outro dia, a cidade estava fervendo com os comentários sobre mais uma transgressão daquela menina, que ó-meu-Deus-não-tem-jeito. Onde-já-se-viu moça de família sentar na mesa de baile com um artista? Onde-já-se-viu moça de família desprezar os bons moços da cidade e ficar de papo com alguém de fora? Onde-já-se-viu moça de família ir jantar no hotel de amiga com moço mais velho que ela?
A imaginação dos despeitados e invejosos moços ruins, de boas famílias, voou e voou... Sobrevivi. E continuei achando Pery Ribeiro - que infelizmente morreu semana passada - maravilhoso e meu parceiro de momento inesquecível. Apesar de fã, aquela foi a única vez que consegui vê-lo ao vivo. Tenho músicas suas gravadas no Ipod, mas nenhum CD ou LP. Li o livro Minhas Duas Estrelas - que escreveu em parceria com sua esposa - com emoção, respeito e reverência.
Pery deixou legado imporantante para as pessoas. Deixou exemplo magnífico quando pôs seu sentimento de filho de lado e partiu para a defesa pública dos pais, sem críticas ou julgamentos. Provou que o talento do pai era muito maior que seus ataques pessoais à mãe. Que a mãe era, sim, grande artista, mas também mulher, que merecia respeito e consideração. E que os acontecimentos da vida particular do casal, ao casal competia.
Ouvir Pery Ribeiro cantar Caminhemos, que Herivelto compôs para Dalva no auge do litígio, ainda hoje me arrepia. Mais do que a ‘imbecilidade das pessoas que imaginam e fantasiam com os parcos recursos que têm e soltam em palavras, mentiras como se fossem a mais pura verdade’, concluiu outra amiga com quem compartilhei essa história.
LIVRO
Minhas duas estrelas - uma vida com meus pais Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, é obra de Pery Ribeiro e Ana Duarte, sua esposa. Várias situações da turbulenta vida dos dois artistas e a experiência de dor dos filhos. De quebra, as letras das canções: algumas raras, outras bastante conhecidas. Espetaculares, todas.
PREFIXO
A PRB-5, antigamente, pontilhava seus programas, com o anúncio de seu prefixo. Garcia Netto a toda hora dizia que apresentava seu programa de auditório da ‘PRB-5, a Rádio Club Hertz de Franca, porta-voz de uma grande cidade’. Era acrescentado mais algum dado? Agradeço se alguém souber e passar a informação.
DUBLAGEM
Não acho bonito, não. Raramente vou a cinema em Franca. Nem conheço as salas novas. Todas as vezes que tentei ir - a programação é até boa - recebo banho de água gelada: o filme é dublado. Volto para trás e me conformo em esperar cópia. A alegação é que os frequentadores preferem dublagem às legendas. Só uma informação aos gerentes: os não-frequentadores que preferem legendas, lotam as salas dos cinemas de Ribeirão Preto.
POLÍTICA
Que vergonha. Há quem defenda a desobrigação do voto. Seus defensores teriam mais um forte argumento se tomassem conhecimento da atuação dos vereadores locais, principalmente na última reunião da Câmara Municipal de Franca. Ridículo é adjetivo delicado para avaliar o nível a que desceram. Além de obrigatório, voto é secreto. Se é obrigatório, comparecerei e votarei. Porém nunca mais escolherei vereador. A isso ninguém pode me obrigar.
DELICADEZA
A Baronesa de Franca teve páginas de seus diários de 1916 reproduzidos em muitas das edições da revista Vila Franca, histórica e saborosa publicação dos anos 60. Na transcrição parcial de carta enviada à comadre, a baronesa deseja-lhe felicidade, por meio deste auspicioso desejo: ‘e que Deus a conserve assim, gorda e viçosa!’
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br