O Comércio de domingo noticiou sobre família refém de drogados. Na mesma edição, noticiou a atuação do Delegado da Dise no comando de operação que resultou na prisão de quadrilha de jovens traficantes. Há um grande número de prisões, mas não há diminuição do número de traficantes e de viciados. Algo está errado!
Inegável que o delegado está fazendo um bom trabalho, inclusive por ser atividade da qual gosta e sempre sonhou em realizar. Eu o conheci como escrivão de polícia, quando ainda sonhava em ser delegado. Não desistiu. Estudou, perseverou e conseguiu. Parabéns! O trabalho dele é coroado por uma boa equipe de investigadores. É um conjunto! Embora eu, particularmente, não goste de alguns dos seus métodos, isso pouco importa. Cada um desenvolve seu mister como acredita que deve ser feito. Gostar ou não gostar de algo não pode implicar em uma análise sincera. Gostar é subjetivo e analisar é objetivo!
O resultado do trabalho da polícia, pela lógica, deveria implicar na diminuição de traficantes e viciados; mas tem sido diferente mesmo e apesar da impressa mostrar os malefícios das drogas e as prisões dos traficantes. Esse é um problema de saúde pública, de educação e não só de segurança pública; logo, é um equívoco deixar para a polícia, sozinha, resolver, porque não resolverá. Os nossos problemas sociais devem ser enfrentados com bravura. Cada qual precisa fazer o seu papel, mas esse triste quadro somente mudará com investimento pesado na formação e cuidado das nossas crianças e adolescentes. Pessoas bem formadas, bem educadas, com princípios morais, sociais, religiosos, humanitários, certamente não adotarão o crime como forma de sobrevivência e não elegerão as drogas como forma de escape ou fuga dos conflitos internos e externos.
Cabe a polícia a árdua tarefa de prevenir e combater a criminalidade, mas quando vemos os cidadãos doentes em razão das drogas, o tratamento tem que ser prioritário e de saúde. Antes da doença, o trabalho da polícia. Depois de instalada a doença, os trabalhos dos médicos com internações, remédios, terapias etc. Antes dos dois, o trabalho dos educadores, como os pais, professores, padres, pastores, religiosos. A educação de qualidade deixou de ser prioridade nas políticas públicas. A falta de investimento fez com que as escolas públicas perdessem a qualidade. O ensino da escola particular superou o da pública, no entanto, ser aprovado no vestibular da universidade não significa ser aprovado no vestibular da vida. Nós, pais, também estamos relegando nossa obrigação de educadores para os professores e, o início de uma boa educação começa em casa. Aqui também reside um problema da nossa sociedade. O ‘ter’ passou a significar mais do que o ‘ser’ e nós, pais, estamos gastando mais tempo em ‘ter’ um bom trabalho e padrão de vida do que educar filho para ‘ser’ uma pessoa equilibrada, saudável, do bem.
Falta lógica também na distribuição das receitas públicas! Os cofres estão gordos e os investimentos em educação e saúde pública estão magros. Educação e saúde de qualidade só para quem tem condições de custeá-las. Uma coisa é certa. Quando estamos doentes reunimos forças para combater. Essa receita aparentemente simples deve ser utilizada no combate às drogas, todos unidos em prol de uma sociedade feliz, saudável, promissora e equilibrada, sabendo que a diferença entre droga e remédio é a dosagem.
Acir de Matos Gomes
Advogado e professor universitário