No fundo, bem lá no fundo do porão, resta um calabouço.
Lá no fundo, bem lá no fundo do calabouço, há um poeta.
Correntes, argolas e algemas aprisionam-lhe as pernas e os braços, fazendo-o Prometeu, prolongamento da muralha.
A umidade escala as paredes da cela, molha suas costas, até a ferragem da porta.
O poeta está amordaçado.
Nenhum ruído de cores, nenhuma musicalidade transpassam as muralhas de pedra.
Às vezes, um fiozinho de aragem inventa gretas, viaja por corredores, sussurra-lhe segredos aos ouvidos.
É o que basta.
O poeta que mora no calabouço, bem lá no fundo do meu peito, arrebenta mordaças e solta gritos roucos.
Julga estar entoando hinos de louvor à vida.