Infelizmente, a intolerância parece inerente à alma humana. Se olharmos para o passado, vamos percebê-la amiúde, percorrendo sorrateiramente os vários episódios violentos que marcaram tristemente a história de nossa evolução.
O mais intrigante, no entanto, é que a intolerância começa pequena. Apesar de estar no princípio de grandes atrocidades, como o genocídio de judeus durante a II Guerra Mundial, ou como qualquer outro ato de violência racial, por exemplo, ela começa por baixo, ‘comendo pelas beiradas’ como se diz na gíria popular.
Primeiramente, invade o nosso cotidiano na forma de argumentação aparentemente racional. Com base na fé ou na ciência, como na ingenuidade ou complacência das pessoas, vai aos poucos apoderando-se completamente da racionalidade do todo social.
Apesar de séculos e séculos de iluminismo, infelizmente, ainda não entendemos completamente os conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo em um mundo mais democrático, cada vez mais mediatizado pelas normas do direito, eles continuam sendo um desafio para a humanidade, mais que uma condição.
É claro que hoje em dia diminuíram bastante as chances dessa intolerância cotidiana se transformar em uma grande atrocidade contra indivíduos ou minorias. Porém, a caça às bruxas parece ainda bem viva nos dias de hoje. Apesar de não haver mais fogueira para queimar os hereges que ousam pensar diferente, resiste ainda uma tentativa de queimá-los de outras formas.
É o que se pode deduzir das reações contra a recém-empossada ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, sobretudo por parte dos grupos religiosos.
Todos sabem de longa data que a nova ministra é a favor da legalização e da descriminação do aborto. Durante toda a sua vida se posicionou dessa forma. Essa postura, no entanto, é da cidadã e não da ministra, e como tal deveria ser respeitada. Como ela mesma disse, e como também reiterou a própria presidente, enquanto membro da equipe, ela deixará de marcar posição pessoal sobre o assunto, respeitando a posição assumida pelo governo.
Nesse sentido, se comportar-se como uma boa ministra, não fará exatamente o que quer, mas sim o que a chefe de governo solicitar. É claro que não deixará sua consciência no poste, como fez Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade. Se for uma boa servidora pública, contribuirá para melhorar o nível do debate sobre um tema que continua bastante polêmico e delicado, até porque, apesar de proibido, o aborto continua muito presente em nossa sociedade. E, sendo feito de forma clandestina e inapropriada, mata centenas de mulheres por ano.
Dentro desse contexto, um pouco mais de tolerância não faria mal a ninguém. Abrir-se ao diálogo e à opinião alheia é fundamental para a superação das divergências e para o desenvolvimento social. Como dizia o filósofo francês Voltaire, ‘posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo’.