O ritmo alucinante do trânsito urbano tem provocado inúmeros acidentes sem que nos apercebamos, todos os dias
São tantos e tão semelhantes que se banalizaram ao ponto de serem justificados e analisados como ‘acontecimentos tristes, porém consequência e fruto do volume atual do tráfego: sabe como é, aumentou a frota, natural que aumentem os acidentes’. Natural? Ferimentos, machucados e mortes de pessoas desconhecidas provocam comoção que passa rápido. Porém, quando alguém próximo e querido é injuriado, o egoísmo prova não ser de ferro. O discurso muda e vem a defesa da pena de morte e a aprovação de justiça com as próprias mãos.
Espectadores - aglomerados em torno do local da tragédia - sem perceber, tornaram-se cúmplices dos acidentes e abusos. Embora a expressão facial manifeste horror e indignação pelo que presenciam, nada mais fazem além de acompanhar a dor alheia com o olhar desalentado da impotência e de balançar de cabeça, em reprovação e lamento. Sem perceber, tornamo-nos coniventes e cúmplices dos assassinatos cometidos e das inúmeras tragédias não concretizadas por milagre, o que prova a nacionalidade de Deus. Ele é brasileiro, sim.
Assaltos e acidentes na cidade são assuntos que não mais permeiam conversas. São a tônica delas. Rodas masculinas, femininas e, lastimável, até as infantis, comentam fatos trágicos acontecidos aos vizinhos, parentes, pais dos amigos, amigos e conhecidos. Por toda parte é comum ouvir-se relato de violência recebida ou percebida: o motorista que atravessou a frente do carro de alguém; o veículo que surgiu do nada e quase bateu; o carro que atravessou o sinal vermelho e virou na contramão; o outro que provocou capotagem ao cortar a frente de quem descia - na velocidade correta - a avenida. Todas as manhãs cercas, marcas de pneus no asfalto, grades rompidas por todo tipo de violência de trânsito ocorrida nas madrugadas. Mortes de jovens e pessoas inocentes ainda chocam. Provocam revoltas, sufocadas pela notícia de nova desgraça, mais fresca. Não é que estejamos mais insensíveis. É que a banalização provoca esse tipo de entorpecimento, espécie de catatonia só rompida quando, perdão, a ‘água bate na bunda’ da gente. Aí vem o desejo de fazer alguma coisa.
Campanha de impacto? Mostrar gente morrendo na televisão ou em vídeo – na ficção e na realidade? Cobrar multa pesada? Exigir dos condenados a prestação de serviços sociais? Começar a trabalhar a cabeça dos jovens nas escolas? Sim, sim, sim e sim. Mais importante, porém, é educar crianças, jovens e alguns adultos (aqueles a quem foi negada educação formal e não está corrompido por esmolas do governo). Nessa ordem. Quase todos os outros adultos, não precisam de educação. Precisam é de punição.
As mais eficientes soluções de problemas primam por sua simplicidade. Que tal começar pela lembrança do preceito ‘amar ao próximo como a si mesmo e, assim, não fazer com o outro o que não quer que lhe façam’? A interiorização e a rigidez no cumprimento dessa ordem mudariam o resultado de qualquer estatística social. Há muitas outras medidas, soluções e palpites. Antes, porém, de começar as transformações alheias, testaria em mim as perguntas difíceis de difíceis respostas. Depois de mudar-me interiormente, pensaria em reformar o próximo.
QUESTIONÁRIO
1- Você já se apossou de livro, caderno, roupa, CD, DVD, objetos escolares, bijuteria, brinquedo, ideias, frases e os apresentou ou guardou como seus?
2- Já estacionou conscientemente, nem que fosse por alguns minutos, em vaga de estacionamento reservada apenas a deficientes físicos?
3 - Já desprezou sinais de trânsito porque ‘não tinha ninguém olhando’?
4 - Dirige e fala ao celular ao mesmo tempo e joga longe o telefone, quando percebe a viatura policial lá longe?
5 - Na estrada: põe o alarme do carro para funcionar e captar a localização de aparelhos que denunciariam a alta velocidade do seu carro?
6 - Já permitiu que o/a filho/a menor de idade dirigisse veículo motorizado?
7 - Ri, quando alguém tenta subornar uma autoridade qualquer?
8 - Acha ‘esperto’ o sujeito que consegue arrecadar grande fortuna burlando o fisco e deixando de pagar imposto?
9 - Despende tempo vendo programa de horror como o da exaltação de mulheres ocas e ricas e sai da sala para não ver reportagem de crianças famintas e desnutridas que vivem nos esgotos do mesmo planeta?
10 - Fura filas – da padaria, do supermercado, da loja, do banco – porque não tem paciência (e tempo) para aturá-las?
11 - Para em faixa dupla na porta da escola dos filhos?
12 - Ultrapassa pela direita, nos acostamentos dos congestionamentos?
13 - Gratifica o garçom antes para ser melhor atendido durante a festa?
14 - Registra imóveis num valor abaixo do comprado só para pagar menos imposto?
15 - Lembra-se de algum objeto de valor que achou, guardou e jamais procurou o dono ou fez algum esforço para encontrá-lo?
ANÁLISE
Não existe meia verdade. Não existe meia culpa. Não existe meio pecado. Não existe meia honestidade. Não existe moral mais ou menos. Ladrão é ladrão, seja de galinha, seja de milhão...
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br