11 de julho de 2026

Justiça obriga internação de três menores no hospital 'Allan Kardec'


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REMOÇÃO - Menino de 11 anos deixou o Pronto-socorro ‘Doutor Janjão’ em maca para ser transportado até o ‘Allan Kardec’

Um menino de 11 anos aguardou 18 horas no Pronto-socorro “Doutor Janjão” até conseguir ontem uma vaga para internação no Hospital Psiquiátrico “Allan Kardec”. Em uma semana, esse foi o terceiro caso de menor internado no hospital por ordem judicial. Um menino de 16 anos deu entrada na instituição na quinta-feira passada, e uma jovem de 17 no sábado, após sofrerem surtos psicóticos.

A mãe do garoto internado ontem, uma dona de casa de 33 anos, disse que desde os 4 anos o filho sofre crises de agressividade por ter problemas mentais. Depois de tentar agredir a mãe e de estrangular uma gata em sua casa, o menino foi levado para o pronto-socorro e o médico decidiu encaminhá-lo para o “Allan Kardec”. O hospital, segundo seus diretores, não tem estrutura para atender menores com problemas psiquiátricos e só recebeu o paciente por determinação da Justiça.

A mulher disse que o filho acordou agitado na segunda-feira, 20, e começou a agredi-la. Por volta das 23 horas, ela resolveu levá-lo até o “Janjão”. O médico receitou medicamento para acalmá-lo e o garoto recebeu alta. Em casa, dormiu até as cinco horas da madrugada de terça-feira e acordou agitado novamente. O menino continuou agressivo e, às 11 horas da manhã, a mãe acionou a ambulância pela primeira vez. Disse que esperou até as 15 horas sem o socorro e, como a crise agravou, ela telefonou de novo. O filho foi atendido pela segunda vez no “Janjão” cerca de 16h30. O médico então decidiu pela internação no Hospital “Allan Kardec”. Mas a vaga só foi liberada 18 horas depois. O garoto passou a noite deitado na maca, amarrado com faixas e só deixou o pronto-socorro às 10h30 de ontem. “Ele deu uma crise dentro do ‘Janjão’ e pedi para amarrarem porque ele fica muito agressivo”, disse a mãe.

A vaga no hospital psiquiátrico só foi liberada após a intervenção da Justiça. O conselheiro tutelar Ilton Ferreira foi chamado na tarde de anteontem para acompanhar o caso. Sempre que há internação de menores de idade, o Conselho Tutelar é acionado para requisitar autorização judicial. O documento foi solicitado por volta das 17 horas de terça-feira e, uma hora e meia depois, a deter-minação do juiz estava com o conselheiro. Mas, segundo Ferreira, o hospital se recusou a oferecer a vaga. Ele então registrou boletim de ocorrência de preservação de direitos e obteve novo documento do juiz Rogério Bellentani Zavarize obrigando a internação imediata do menino, sob pena do diretor do hospital ser preso. A internação aconteceu ontem.

O psiquiatra Marcelo Salomão, que atendeu o garoto, confirmou ser um caso de internação. “Ele teve um surto com características psicóticas, mas não é possível saber se associado a esquizofrenia, epilepsia ou retardo mental. Durante um surto não há crítica sobre o que se faz. Se a pessoa vai machucar um gato, parede ou cadeira não importa, porque o cérebro está completamente desorganizado”, disse.

‘Não APROPRIADO’
Wanderley Cintra, presidente do “Allan Kardec”, disse que os atendimentos aos três menores de idade só foram prestados porque a Justiça obrigou. “Não temos área apropriada para atendê-los e isso cria preocupação grande pelo perfil dos outros pacientes.”

Além da falta de uma ala específica para atender o público com menos de 18 anos, Cintra diz que o “Allan Kardec” tem dificuldades financeiras e está lotado. As 230 vagas oferecidas pelo SUS (200 para internação e 30 no hospital-dia) estão ocupadas. O SUS paga diária de R$ 42 por paciente internado. O mínimo, segundo o presidente, seriam R$ 100. “Ficamos acuados, sem saber como resolver esses problemas. O governo está asfixiando os hospitais psiquiátricos.”