A cada três francanos que morrem, um é vítima de doenças ligadas ao sistema cardiovascular. O levantamento mais recente feito pelo SIM (Sistema de Informação de Mortalidade), do Ministério da Saúde, mostra que 33% das mortes na cidade têm como causa doenças relacionadas ao aparelho circulatório. Em 2010, das 1.909 mortes registradas em Franca, 631 foram provocadas por infarto, hipertensão ou derrames. E o número não para de crescer. Há uma década, essas doenças mataram 349 francanos, uma alta de 80%.
Para o cardiologista Francisco Sérgio Garcia, o Fransérgio, que há 23 anos trabalha na Santa Casa e no Hospital do Coração de Franca, o aumento das mortes relacionadas às doenças cardíacas está diretamente ligado ao estilo de vida adotado pelas pessoas nas últimas décadas. “Claro que não podemos ignorar o fator genético, que existe e é importante, mas 90% dos casos que chegam ao consultório têm relação com uma rotina de vida desregrada.”
A má alimentação, o uso abusivo de substâncias lícitas, mas nocivas à saúde como o álcool ou o cigarro, o sedentarismo, o estresse são apenas alguns dos fatores citados pelo médico para exemplificar o que compõe uma vida desequilibrada. “A maioria das pessoas não se preocupa com o que está ingerindo nem com a quantidade de horas que está dormindo. Prefere se preocupar com a pilha de trabalho que tem para resolver, com as contas a pagar, com os compromissos assumidos. Isso tem um preço para a saúde. O coração é o primeiro a sentir.”
No estudo feito pelo Sistema de Mortalidade, como não poderia deixar de ser, as maiores vítimas do coração são as pessoas com mais de 60 anos, homens e brancos, que formam também o perfil mais vulnerável da população de Franca. Mas um dado apontado pelo estudo chama a atenção. Hoje as doenças do coração também são a principal causa de morte entre as pessoas com menos de 50 anos na cidade. Para se ter uma ideia, em 2010, elas mataram quase o dobro que os acidentes de trânsito. Foram 62 vítimas cardíacas com menos de 50 anos contra 37 vítimas do trânsito.
“Isso acontece porque quanto mais jovem a pessoa maior a carga de estresse, maior a correria e maior a despreocupação com a saúde. A cada ano, vem aumentando a presença de jovens no meu consultório”, disse Fransérgio.
O mesmo vale para as mulheres. Antes acostumadas a cuidar apenas do serviço doméstico e da educação dos filhos, elas ganharam o mercado de trabalham e entraram na disputa por espaço e salários. O reflexo disso também está nos consultórios médicos. “Antigamente, há 15, 20 anos, as mulheres vinham aqui para acompanhar seus maridos, filhos ou pais. Hoje, elas se tornaram também minhas pacientes. Para mim, a explicação está na mudança no perfil de vida adotado por elas”. Das 631 mortes por doenças cardiovasculares registradas em 2010, 300 eram mulheres.
Para o secretário municipal de Saúde, Alexandre Ferreira, o aumento de mortes cardíacas na última década preocupa. “Mesmo não sendo um fenômeno isolado, restrito à Franca, esse dado é preocupante. Hoje essas doenças são as que mais matam no mundo, principalmente, porque a maioria delas é silenciosa. Age sem que o paciente perceba e, quando o diagnóstico é feito, muitas vezes, já é tarde.”
Investir na prevenção e em bons hábitos de saúde são os caminhos apontados pelos especialistas para reverter os números nos próximos anos.