09 de julho de 2026

‘Carnaval não pode ser apenas uma festa, é preciso ter atividade o ano todo’


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ENSAIO GERAL -Volnei José Barbosa, no sambódromo de Batatais, durante o teste de som e iluminação

O som da passarela tem que estar tinindo; a iluminação precisa fazer brilhar cada escola de samba; a verba tem que ser suficiente para saldar todas as despesas; a infraestrutura tem que estar impecável; os serviços têm que funcionar. Os itens do check list acima são apenas uma amostra do trabalho, nos últimos dias, de Volnei José Barbosa, presidente da Uesb (União das Escolas de Samba Batataense), que está à frente da organização do maior Carnaval de Rua da região.

Apesar de ter que se desdobrar, ele não reclama. Ao contrário, comemora o fato de a gestão da Uesb ter voltado diretamente para as mãos de quem faz o Carnaval. “O Carnaval está nas mãos dos carnavalescos, nós estamos tomando conta”, tem repetido Barbosa nos últimos meses, enquanto encabeça a organização da festa em que desfilarão dois blocos e seis escolas de samba.

Isso significa não ter hora para comer, tampouco para dormir. A rotina de um presidente exala purpurina, suor, alegria e preocupação. Mas a paixão pelo samba neutraliza qualquer cansaço. Ele enveredou para o mundo do samba por gosto há mais de três décadas. Soma passagens por entidades carnavalescas como Stela, Castelo, Bloco do Mé, Acadêmicos do Samba, Baroel e, por fim, Unidos da Liberdade, escola de samba fundada por ele e uma legião de irmãos, cunhados, primos, sobrinhos e amigos. Até a mãe do sambista, dona Amélia Etelvina, de 91 anos, dá seus pitacos nos preparativos para o Carnaval e faz questão de desfilar na escola de samba todos os anos. “Este ano não será diferente. Ela adora Carnaval e estará lá, como destaque, em uma alegoria”, disse Barbosa, orgulhoso da mãe-foliona.

O amor pela cultura carnavalesca respingou ainda nos filhos. Casado, é claro, com uma sambista, Barbosa é pai da passista e princesa da bateria, Carolina, 17, e do mestre-sala oficial da Unidos da Liberdade, Victor Hugo, estreando no posto, com apenas 15 anos.

Na última quinta-feira, quando concedeu entrevista ao Comércio, o dia agitado ganhou um tempero a mais: a batida do surdo de uma bateria indicava o início dos ensaios técnicos que testariam a estrutura de som e iluminação montados no sambódromo “Carlos Henrique Cândido Alves” e, consequentemente, colocariam à prova a credibilidade e a capacidade de organização de Barbosa e de sua equipe.

Se tudo sairá como o previsto, só será possível saber ao final da noite do próximo sábado, quando a campeã do Carnaval de Batatais tiver atravessado a linha de chegada em seu desfile de apoteose.

Comércio da Franca - Por que Batatais tem um dos melhores Carnavais de rua do interior de São Paulo?
Volnei José Barbosa -
Primeiro por ter uma tradição de 40 anos de Carnaval. Essa sequência de trabalho vem formando profissionais na área do Carnaval, formando novas cabeças, novas lideranças e isso sempre vai renovando os ares e o Carnaval local permanece sempre forte. Apesar de ter parado alguns anos, mesmo assim voltou com força total porque tem uma grande massa de carnavalescos na cidade.

Comércio - De onde vem a sua paixão pelo Carnaval?
Barbosa -
Penso que eu não seria um carnavalesco se dependesse de minha família - que é tradicionalista mineira, que canta Santos Reis todos os anos -, mas o Carnaval passou a ser a minha paixão desde os 15 anos. Com esse sentimento consegui levar toda a família Barbosa para o Carnaval.

Comércio - Qual a sua trajetória no samba, por onde passou?
Barbosa -
A primeira escola pela qual me apaixonei foi a Princesa Isabel, mas fui lá e, como eu não era nem muito escuro nem muito branco, acho que não fui muito bem aceito (risos). Não sei se foi pela cor ou pela idade, já que eu era muito jovem (risos). Fui então desfilar na escola de samba Stella, na bateria. Depois fiquei um ano na Castelo, onde não me identifiquei muito; passei por alguns blocos, como o do Mé e o dos Duros; até chegar à Acadêmicos do Samba. Cheguei como cronometrista e me tornei presidente. Com a dissolução daquela diretoria, assumimos a antiga escola de samba Baroel. Mas parte da diretoria decidiu fundir a escola com outra, a Riachuelo, não concordamos e saímos. Foi então que cheguei à Unidos da Liberdade, que foi fundada por membros da família Barbosa e amigos e, no ano passado, cheguei ao ponto mais alto dentro do Carnaval de Batatais, que é a presidência da Uesb.

Comércio - O que significou a presidência da Uesb ficar diretamente sob os cuidados das escolas de samba?
Barbosa -
Essa administração da Uesb vem quebrar um paradigma, pois faz um tempo que a entidade não era administrada por carnavalescos. Hoje temos orgulho em dizer que a Uesb é formada por integrantes de todas as escolas. Isso é o ideal para que se tenha transparência, fique tudo claro, todos saibam onde a verba é investida. Sabemos o que as escolas de samba necessitam para o Carnaval e foi isso que nos incentivou a tentar assumir a Uesb. Isso traduz um ganho para o Carnaval e já é possível notar a diferença no sambódromo. Sou democrático, gosto de dividir as responsabilidades, mas cobro resultado. Tenho certeza que na Quarta-feira de Cinzas nós vamos comemorar um grande Carnaval realizado.

Comércio - Quais as mudanças que o senhor implantou que vão marcar época?
Barbosa -
Incluímos shows todos os dias após os desfiles, ampliamos os camarotes, mudamos a data do desfile das campeãs (de terça-feira de Carnaval para o sábado seguinte). Mas a grande mudança nem é estrutural do sambódromo, da avenida. A grande mudança é a participação das escolas. Elas têm que falar em Carnaval os 12 meses, temos que estar unidos para cobrar do poder público o desenvolvimento de um projeto. O Carnaval não pode ser encarado apenas como uma grande festa. Temos que ter atividades o ano inteiro. Podemos ter oficinas de instrumentos musicais, oficinas para a fabricação de sapatilhas, oficinas para formar professores que vão ensaiar Comissões de Frente, entre outros. Tem projetos para jovens e adolescentes em Batatais com os quais podemos fazer uma integração social via Carnaval. Temos um amplo campo para trabalhar.

Comércio - Falando em mudanças, os Carnavais de São Paulo e Rio são inspiradores, mas as datas dos desfiles não possibilitam que batataenses participem. A exemplo de outras cidades que têm grandes Carnavais, como Vitória (ES), Porto Alegre (RS), vocês pensam em alterar os desfiles de Batatais para que não batam com os de São Paulo e Rio?
Barbosa -
Acho até interessante, mas a data do Carnaval para Batatais ainda é muito importante, muito tradicional. Já mudamos muitas coisas e as alterações têm que ser gradativas. A partir do momento que você começa a mudar de forma radical, começa a criar conflitos. Acho que tudo é possível no momento em que várias cabeças pensarem da mesma maneira.

Comércio - O sambódromo é o ideal para as escolas? O que falta para ficar perfeito?
Barbosa -
Ainda não. Nosso sambódromo ainda está um pouco acanhado. Ele tem que atender melhor o turista, o público. Precisamos urgentemente de sanitários fixos, de camarotes fixos, acomodações melhores. Os camarotes comem dinheiro do Carnaval. O dinheiro que o comprador paga no camarote (R$ 1.600 para 15 pessoas) só abate o custo do mesmo, não sobra um centavo. Vendemos para cobrir as despesas e isso não pode acontecer. Eles precisam ser fixos, podemos ter salas para serem usadas durante o ano para cursos, até salas de aula. Outra questão é a ampliação (atualmente a capacidade é para aproximadamente 10 mil pessoas). As arquibancadas estão no piso e podemos aumentá-las em até oito degraus para cima e construir os banheiros embaixo delas. Acho também que a concentração das escolas é muito pequena. Por mim, abriria o alambrado, estenderia a área até o meio da rua, interditando a avenida Moacir Dias (no período do Carnaval). Mas isso tem que ser pensado gradativamente.

Comércio - O Carnaval já atingiu seu auge na parte artística?
Barbosa -
Ainda não. Nunca se atinge o auge, tem que se aprender sempre. Quem julga que sabe tudo é porque não sabe nada e é o mais ignorante de todos. Quem está aberto a aprender progride. Batatais ainda é carente um pouco na parte musical, não tem isso lapidado. Faltam também mais artesãos nos barracões para que os gastos com mão-de-obra sejam menores. Isso só acontece quando se tem o poder público e a Uesb engajados.

Comércio - O senhor pensa em segmentar o espetáculo em grupos: acesso e especial, por exemplo?
Barbosa -
Já pensamos, mas isso bate de frente com as opiniões de algumas escolas de samba. Alguns têm medo de ficar em último lugar e cair. Se isso fosse implantado, enriqueceria a competição: você passaria a ter uma disputa para não cair, para subir e para ser campeã. São três disputas e isso faz crescer o nível. Se dependesse de mim, seria assim.

Comércio - Nas cidades da região, o Carnaval só é percebido quando a data chega de fato. Por que em Batatais é perceptível a transformação em “estância do samba” no período que antecede o Carnaval? Como criar esse clima de festa?
Barbosa -
Batatais é diferenciada, tem vários pontos que as outras cidades não atingiram. Temos, por exemplo, os próprios meios de comunicação que nos ajudam [entre outros, ele cita o programa Casa do Samba, da Difusora Batatais, apresentado pela repórter, que em edições especiais é realizado nas quadras das escolas de samba, reunindo milhares de pessoas]. Quando eles começam a fazer a divulgação, o Carnaval cresce muito. E o mais importante é que o povo gosta de Carnaval.

Comércio - Como as cidades da região podem aproveitar a experiência e o sucesso de Batatais para melhorar seu Carnaval?
Barbosa -
Primeiramente, Batatais tem um rigor muito grande nas prestações de contas e no regulamento do Carnaval. Quando isso acontece, as agremiações passam a ter mais preocupação com seus desfiles, seus enredos, fantasias, carros alegóricos. Aí sim as cidades da região poderiam fazer um acompanhamento junto com Batatais. Batatais consegue atingir toda a região. É um trabalho de longa data, é uma seqüência de trabalho, de responsabilidade.

Comércio - Considerando que a maioria das agremiações depende quase que exclusivamente de verba pública para produzir seus espetáculos, um dia será possível fazer Carnaval sem recursos da prefeitura ou ao menos ter uma dependência menor?
Barbosa -
Totalmente independente não, mas se você conseguir terminar esse sambódromo com uma subvenção da prefeitura e ter uma concessão do sambódromo para que ele seja explorado o ano todo, você começa a ficar menos dependente. Aí sim a Uesb começaria a caminhar pelo menos 80% com suas próprias verbas.

Comércio - Para oferecer infraestrutura para as escolas de samba trabalharem, há a Cidade do Samba no Rio e, em São Paulo, a Fábrica do Samba está sendo construída. A Uesb pensa em fazer a versão batataense desses espaços?
Barbosa -
Sim, temos espaço e condições. Nossa cidade, por ser estância turística, recebe R$ 2,4 milhões por ano. Se conseguíssemos investir pelo menos uns R$ 500 mil para estruturar o Carnaval, poderíamos fazer aqui mesmo (no centro de eventos “Antônio Carlos Prado Baptista”, onde está localizado o sambódromo). Tem os barracões que poderiam ser adaptados, um para cada escola de samba, e poderiam ser usados durante todo o ano.

Comércio - Por fim, qual o papel social do samba?
Barbosa -
É aglomerar, abraçar, unir raça, cor, classes sociais, unir as pessoas com amizade, com tranquilidade. Carnaval é a melhor festa do Brasil e não é a toa.