O fato de se processar uma pessoa por assédio moral ou sexual no trabalho já é por si só uma evolução em nossa democracia. Com certeza, estamos melhorando enquanto nação. Se olharmos para nossa história, vamos perceber um país bastante conservador e autoritário. O poder, dividido ou disputado sempre por poucos e pequenos grupos, acabou se configurando em uma espécie de salvo conduto para quem o detinha, abrindo espaço para as mais variadas usurpações dos direitos individuais de cada pessoa.
Em função dessa realidade, muitas injustiças foram cometidas. Pelo poder econômico ou político que detinham, nossos poderosos se impuseram a uma população pobre e sem nenhuma possibilidade de defesa, impondo-se como roçadeiras diante de plantas retorcidas.
Aos poucos, porém, essa realidade foi se transformando. Mais informadas e conscientes, as pessoas começaram a pressionar por seus direitos, mesmo que de forma lenta e bastante penosa.
Dentro desse contexto, a consagração do Ministério Público na Constituição de 1988 foi um marco. Com a função de defender a ordem jurídica e todos os direitos sociais e individuais que abrangem a noção de cidadania, esse órgão passou a ser imprescindível para proteger os direitos do cidadão.
A despeito dessa importância, no entanto, há que se tomar certos cuidados. Como vivenciamos muitas injustiças, nossa tendência é agora querer ‘vingá-las’. É a teoria da curvatura da vara, como diz o professor Demerval Saviani, um dos principais nomes da área educacional brasileira. Segundo essa teoria, quando se pressiona uma vara com bastante veemência em uma única direção, quando se retira essa força a tendência é que a vara faça o caminho contrário até a outra extremidade, com a mesma força e intensidade.
No caso específico do assédio aqui tratado, é bastante claro para todos que essa foi uma prática infelizmente muito comum em nosso país, e que ainda viceja em algumas organizações. Nesse sentido, ela deve ser combatida de forma rigorosa para que mais pessoas não sofram as injustiças já experimentadas por outras.
No entanto, é preciso tomar cuidado para não se transformar qualquer ação ou atitude em assédio, apenas porque tradicionalmente sempre houve assédio, moral ou sexual. Dizer que uma mulher está bonita, mesmo que seja uma funcionária, não quer dizer que o chefe esteja necessariamente pressionando-a por algum favor sexual. Pode ter sido apenas um elogio, como muitos que permeiam uma sociedade tão informal como a nossa, cheia de simbolismos e sensualidade.
Obviamente, não queremos dizer com isso que o presidente da Emdef, João Marcos Rodrigues assim como seu comportamento, não devam ser investigados. Ao contrário, como houve denúncia, é preciso ir a fundo. (Ele acusado por funcionários de assédio moral e sexual e o Ministério Público do Trabalho ingressou com uma ação na Justiça do Trabalho). É necessárioapenas atentar para que não se incorra agora em um caça às bruxas. Pois se assim o fizermos, em pouco tempo não haverá mais chefes, gerentes ou diretores. E corremos o risco de caminhar para um mundo em que ninguém poderá dizer mais nada. Nem mesmo um elogio.