Jana! Pelo amor de Deus empresta aquele livro? .Foi na adolescência que nos conhecemos. O auge da cidadezinha era o Shopping e os “meninos de São Paulo”, causando suspiros por onde passavam com aquelas roupas de skatista e aqueles cabelos longos. Fora o sotaque, charmosíssimos!
Handerson tinha cabelos negros e lisos, assim como a barba e os olhos de jabuticaba... Brilhavam muito.
- Malu! Duvido que você tenha coragem de...
Lá iam eles, braços dados pelo shopping, caminhando sérios e compenetrados na atuação com uma lágrima de batom cor de- rosa no rosto. E se retorciam de tanto rir no final da andança, para o que fazia sentido somente para nós.
- Ô Abondanzza, passa essa bola rapá!
- Peraê, tenho um plano E batia a bola até o garrafão, fazia uma graça à moda NBA, e bola no ar - tijolada na tabela, sempre errava! E fazia o jogo muitíssimo mais divertido.
Ele sempre tinha planos mirabolantes o último era ser político!
Mais tarde descobriu o amor. Com pelo menos metade da população feminina adolescente da cidade. Amava a todas Ele dizia. Estava mais para um Dom Juan do que outro tipo. Moleque sensível...
- Parece uma moça! brincava o irmão.
Carismático e bonito. Uma mistura de Santoro com Deep que não tinha o menor pudor em fazer altas caretas.
Em pouco tempo o primeiro filho. Ele só soube anos depois. Nós descobrimos pela semelhança: mesmo sorriso largo e contagiante, com um fechar de olhos que os orientalizava.
E por falar na terra do Sol Nascente Abondanzza tinha duas tatuagens no braço. Ideogramas japoneses que significavam FORÇA e FÉ. Ele era chegado a Deus, e a coisas da natureza. Dá até um nó na garganta descrever essa parte deixava-nos encantados com suas explicações sobre os mistérios da vida... A saudade já apertava antes do ocorrido.
Às vezes ele ficava horas calado e sereno... Olhando para algum ponto fixamente. E depois passávamos outras deliciosas horas filosofando sobre a vida, sobre nossas experiências... E algumas “medidas de contenção de desejos”. Quase sempre fechávamos o assunto falando sobre flores. E ele sempre contava sobre a última que havia roubado de algum jardim.
- Ô meu! Isso é coisa de veado!
- Não to nem aí, bate a foto André?
E essa foto está bem na minha frente o Abondanzza de boné de algum partido político com quem ele se afinava na época, meio sorriso lindo e a mão levemente encostada no ombro apontando uma rosa enorme e vermelha.
E na foto ao lado tem ele novamente mão solta no ar e as palavras atrás da foto: “Estou segurando sua mão amiga. Em breve estaremos juntos novamente. Saudade. Um grande Abraço de Urso!”
E nós ficamos sem esse abraço saudoso. O “Abundância” como às vezes o chamávamos- seguiu seu chamado interno aos vinte e poucos anos. Mudou-se para a Amazônia e foi morar na floresta. Segundo os amigos de lá, morreu de picada de cobra a qual ele fez soltar sem matar.
E a última foto é aquela em que nós discutíamos abraçados, que pose fazer, quando de repente ele virou-se olhando meus olhos e disse: “Jana, a gente não precisa disso.”
E essa é das minhas preferidas. Dois amigos, dois sorrisos sinceros e felizes pela companhia um do outro. E é como ele dizia às vezes:
- Malu! Encontrei você no meu sonho ontem!
Abrindo aquele sorriso de eterno menino.
- Ah é? E o que você sonhou “Handso”?
- Sonhei que estávamos na canoa do seu rancho, deitados lá no meio de represa e contávamos estrelas, mas tinha umas que apagavam...
E ficava pensativo tentando decifrar o que poderia significar o sonho.
São momentos únicos e eternizados na nossa memória. O menino deixou marcas por onde passou. Marcas da alegria, da amizade, da beleza que é não ser tolhido de espontaneidade.
Um dia ele também sonhou ser advogado. E usando um termo dessa área, creio ter encontrado o adjetivo correto para esse meu amigo: Handerson Abondanzza, você foi um libelo contra a mesmice... Libelo.
É, Abondanzza... Há de brilhar uma estrela no céu cada vez que a gente lembrar.
Até.