07 de julho de 2026

Piaf - uma vida; e que vida!


| Tempo de leitura: 5 min

Passam de vinte os autores que encararam a tarefa difícil de biografar Edith Piaf, ícone da canção francesa, ainda o maior nome da música popular daquele país. Morreu aos 47 anos, no dia 11 de outubro de 1963, depois de pedir à enfermeira que dela cuidava para deitar-se ao seu lado, pois queria “apenas tirar um cochilo.” É esse tipo de informação, só aparentemente pequena, que faz a diferença no livro de Carolyn Burke, Piaf, uma vida. Lançamento recente na Europa, chegou ao Brasil via Editora Leya, traduzido de forma impecável por Cecília Gianetti, que tem extensa e profunda experiência na área.

Burke levou quinze anos entre a pesquisa e a elaboração do livro. Quem se der ao cuidado de ler as conclusões da autora no muito sugestivo capítulo Coda, bem como o seguinte, Agradecimentos, e principalmente as 48 páginas das Notas, perceberá como ela buscou obsessivamente a verdade. Nenhuma abertura para a ficção, a possibilidade, as versões do fato. O resultado deste empenho pelo real, pela história, pelo testemunho, pelo documental pode parecer nos primeiros capítulos, divididos por blocos de tempo, um pouco duro, embora em nenhum momento desinteressante. Seguimos, surpresos, a história da menina Edith Giovanna Gassion, nascida na periferia de Paris, no dia 19 de dezembro de 1915. Abandonada pela mãe aos dois meses, mal cuidada pelo pai, levada ao bordel da avó, ela transitou aos trancos e barrancos pelo período da vida chamado infância. Aos 13 anos já tinha um longo histórico de fugas de casa. Morou muito tempo nas ruas, em companhias suspeitas; tornou-se mãe aos 15 de uma filha que morreu ainda bebê; teve inúmeros relacionamentos com homens que a exploraram. Como voz extraordinária foi descoberta numa esquina, cantando por uns trocados. Teve então o nome mudado para Piaf, pois ao seu primeiro empresário lhe parecia, pelo corpo franzino, “um pardalzinho.” Até que o sucesso chegasse comeu o pão que o diabo amassou. Mesmo depois, quando sua carreira já parecia sólida, enfrentou problemas de naturezas diversas. Mas todos os seus biógrafos, entre eles Burke, são unânimes em afirmar que Edith “nunca teve pena de si”, “cobrava-se ferozmente”, e se distinguia “pelo riso anárquico”.

Sua inteligência é outro ponto sempre evidenciado na biografia em foco. Chamava a atenção pela capacidade de elaborar rapidamente um juízo, um conceito, uma blague- palavra com que os franceses definem situação divertida. Assim, já muito doente, voltou a Paris depois de meses nos Estados Unidos. Ali estivera apresentando-se em diversas cidades, finalizando a turnê no Carnegie Hall e no programa de Ed Sullivan, então de estrondosa audiência. Era 20 de junho de 1960 quando desceu de um avião em Orly na companhia de um rapaz 13 anos mais jovem e 32 centímetros mais alto. A imprensa estava à sua espera e uma das primeiras perguntas foi: “Edith, o que você trouxe da América?” E ela, rapidíssima: “Um americano!” Referia-se a Doug Davis, um de seus amantes, no rol de dezenas citados por Burke. “Não sou sortuda de ter tantos namorados?” brincava com a imprensa nas muitas coletivas. Numa delas, em junho de 1962, o jornalista Pierre Desgraupes, perguntou: “Edith Piaf, você é feliz?” “Eu sou feliz quando estou cantando,” ela respondeu.

É com frases como essas, pinçadas em contextos expressivos, que Burke vai compondo o retrato de Piaf, em meio a relatos de pressões de empresários, amizades interesseiras, paixões verdadeiras, relações complicadas, muitas viagens, atitudes políticas, gastos excessivos, falência financeira, deblâcle iminente da saúde. Tudo isso centrado em disposição e inspiração constantes para cantar a vida e o amor. Surpreende a intensidade com que experimentou tudo o que lhe foi oferecido nos seus 47 anos vividos entre miséria extrema e glória máxima: numa das suas últimas apresentações no Olympia, voltou ao palco 22 vezes, aclamada pelo público que não queria vê-la desaparecer atrás das cortinas, intuindo que poderia ser para sempre.

Depois de assistir a um número de Piaf em espetáculo no alto da Torre Eiffel, Joseph Kessel escreveu: “Para chegar àquela altura, Piaf pagou o preço, cada centavo dele; superou a pobreza, dominou a fragilidade e a ansiedade, cultivou um padrão artístico impiedoso e uma coragem inacreditável.”

É dessa ascensão, dessa vida e desse preço que nos fala Carolyn Burke, reunindo ao texto fotos de Edith Piaf pouco conhecidas e de excelente qualidade.


FOCO NO FEMININO

Carolyn Burke

Carolyn Burke nasceu na Austrália em 1940. Morou muitos anos em Paris e hoje vive na Califórnia. É membro da Associação dos Autores e da PEN American Center, entidade que trabalha para difundir a literatura e defender a liberdade de expressão no mundo.

É autora do best seller Lee Miller, A Life, publicado em 2005.

Dez anos antes, Burke havia publicado A vida de Mina Loy, poeta e pintora inglesa que viveu fora de seu país e publicou um importante livro de poemas, Lunar Baedeker, marcado pela nascente estética modernista e elogiado por Ezra Pound. Com isso, a vida revisitada da artista desencadeou um revival, incluindo um musical.

Com Piaf, uma vida, Burke reafirma seu interesse pela existência de mulheres que assumiram papeis sociais e artísticos depois de muitos e dolorosos percalços. Lee, Mina e Piaf parecem fazer parte de uma mesma família espiritual.

Também ensaísta e tradutora, Burke tem textos em várias revistas, como Vogue, Heat, Sulfur, Art in America e New Yorker. Ela participa de festivais e eventos literários nos EUA, Reino Unido, França e Austrália. Recentes aparições incluem campi ingleses e norte-americanos, rádio e televisão em São Francisco, Nova Iorque e Sidnei; e grupos culturais ao redor do mundo. Ela é também uma palestrante engajada e divertida que entusiasma o público ao qual se dirige, formado em geral por pessoas que acreditam na arte como oportunidade de humanização.

Serviço
Autora: Carolyn Burke
Título: Piaf, uma vida
Tradução: Cecília Gianetti
Formato: 16x23cm
Páginas: 392
Editora: Leya