A tecnologia de ponta recria a história do Cinema sem deixar de lado a magia da sala escura e da fruição coletiva. Em A Invenção de Hugo Cabret, longa de Martin Scorsese que estreia hoje nas salas do país, é exatamente essa magia que tomará conta do público durante a exibição da película. Recordista de indicações ao Oscar 2012, em 11 categorias, Hugo (nome original do filme) tem em sua essência uma verdadeira carta de agradecimento aos pioneiros da sétima arte, em especial os irmãos Lumière (Auguste e Louis) e a George Méliès.
Baseado no romance homônimo de Brian Selznick, o filme conta a história de Hugo Cabret (Asa Butterfield), um órfão que vive escondido nas paredes da estação de trem. Ele guarda consigo um robô quebrado, deixado por seu pai (Jude Law). Um dia, ao fugir do inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), ele conhece Isabelle (Chloe Moretz), uma jovem com quem faz amizade. Logo descobre que ela tem uma chave com o fecho em forma de coração, exatamente do mesmo tamanho da fechadura existente no robô. O robô volta então a funcionar, levando a dupla a tentar resolver um mistério mágico.
É nesse momento que nascem as inserções que nos levam à história da origem do Cinema. George Méliès, o ilusionista francês criador de mundos fantásticos a partir de efeitos fotográficos, também conhecido como ‘pai dos efeitos especiais’, foi figura fundamental para o desenvolvimento do Cinema como contador de histórias. No filme, além de regravações de suas obras, imagens originais de um de seus clássicos, Viagem à Lua (1902). O mesmo acontece na alusão feita aos Irmãos Lumière, com a exibição na íntegra de A Chegada do Trem na Estação, primeira projeção transmitida em uma sala de cinema (em 28 de dezembro de 1895, na França), que aliás fez com que a plateia saísse correndo da sala, com medo de que o trem ultrapassasse a tela branca.
Hoje, a tecnologia do 3D certamente dará ao público a sensação de que as imagens saltam da tela. Scorsese rodou todo o filme em 3D, e foi aplaudido por James Cameron, que chegou a afirmar que Hugo é o melhor filme em 3D já exibido nas telonas, ultrapassando a qualidade de seu Avatar. (Uma pena que em Franca o longa não tenha sido selecionado para exibição em 3D).
O ponto alto do filme, no entanto, não fica na história dos precursores do Cinema, e sim na jornada de Hugo e Isabelle. Sensível e delicada, a amizade da dupla é construída sem que haja qualquer sugestão de sentimentos que fossem além do companheirismo e da solidariedade. Trata-se de uma amizade genuína e digna de emoção por parte de quem assiste.
Nostálgico, não há dúvidas de que A Invenção de Hugo Cabret é um retrato (muito bem produzido) de um dos grandes acontecimentos da história da Arte. A obra, ao homenagear os que criaram o Cinema, traz em si o resultado do que foi e de onde chegou essa criação.