08 de julho de 2026

Eram meio bobos


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Imagine uma criança toda suja, brincando na rua, correndo sem parar, não igual à meninada de hoje, que tem um corpo meio balofo, quase sempre esbranquiçado, devido à falta de sol. Recupere em sua mente um moleque bem desprovido de carnes, com muitos ossos à mostra.

Escola? Havia sim. Mas só se ia para ela por volta dos sete anos. Antes disso, o negócio (ou melhor, o ócio mesmo) acontecia pela rua afora. Claro, vez por outra, alguém aparecia todo machucado em casa. Essa situação advinha de uma brincadeira mal calculada ou de uma briga por motivo besta.

Os estudantes se entendiam na sala de aula ou no pátio. Mais que isso. Eles acatavam as ordens dos funcionários. Dificilmente se chamava o pai ou a mãe até a escola. Não havia motivo para tirar os pais de casa ou do trabalho para resolver pendenga de alunos.

Aliás, naquele tempo os adolescentes eram meio bobos. Eles iam a pé para a escola. Chegavam na hora exata, sem atrasos. Só que aprendiam.

Hoje, ao contrário, são levados de carro e deixados no portão. Primeiro vão usar seus celulares. Depois, entram atrasados. Quanto a aprender...

Por sinal, nos dias de hoje o que não falta é sinal telefônico entre os jovens. Ainda assim, os pais costumam nem saber onde anda o filho, muitas vezes após tê-lo deixado na porta da escola ou de qualquer outro local de lazer. Para ampliar a segurança, com um telefone móvel.

Na década de 1970, pouca gente tinha telefone fixo. Celular nem existia. No entanto, os pais sabiam onde os filhos estavam. O lazer era buscado no Centro. Normalmente aos sábados, os adolescentes se aglomeravam na Sorveteria do Afonso, na Praça Barão.

Nada de posto de gasolina. Todo mundo se contentava em tomar vaca-preta. Essa expressão não vai ter explicação aqui, por motivos mercadológicos. Qualquer dicionário decifra esta inigualável mistura de sorvete. Mãos ao calhamaço. Ou, mais fácil, na Internet tem o significado.

Voltando à vaca fria, isto é, ao sorvete misturado com refrigerante, a rapaziada ficava na antiga sorveteria do ‘seu’ Afonso. A música vinha dos alto-falantes do estabelecimento. Adolescentes de ambos os sexos, até então só de ambos, conviviam tranquilamente na noite francana, sem badernas.

Tempos depois, já bem mais espertos, os adolescentes migraram para a Avenida Champagnat, nas redondezas dos barzinhos. Como o consumo não era mais de sorvete, passaram a ficar meio doidões. Um pouco bêbados não se contentavam apenas com as calçadas. Impediam o trânsito de veículos. A polícia teve muito trabalho na época.

Atualmente, muito mais antenados e enfumaçados – fumando até uma ‘macoinha’ com o aval da mãe –, os adolescentes adotaram postos de gasolina como pontos da moda. E de arruaças, principalmente.

Agora, eles não são mais meio bobos. São malucos. Em vez de vaca-preta, tomam bebidas. Usam também outras misturas. E, de quebra, enfrentam policiais.

Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br