‘Se o seu navio não chega, nade até ele’
Jonathan Winters, ator americano
Sexta-feira, 22h15. Depois de um dia de muito trabalho, a semana finalmente chegava ao fim. Ou, pelo menos, era o que eu imaginava. Faltava só fechar minha agenda para esta próxima semana, confirmando compromissos e reuniões dos quais participaria. Teria ainda que responder aos e-mails do dia, o que sempre faço de casa. E na manhã de sábado, haveria a primeira reunião com os conselheiros do GCN, voluntários que durante um ano vão exercer a função de críticos do que produzimos.
Foi logo após fechar a agenda que fui informado de que enfrentávamos um problema no sistema de CTP (computer-to-plate), engenhoca que transforma as páginas de jornal, produzidas em computador, numa chapa de alumínio usada na rotativa que imprime o Comércio. Desci as escadas rumo à redação e, no meio do caminho, vi a silhueta do Sandro Bonamin, responsável pela manutenção de parte significativa de nossos equipamentos, caminhando apressado. Não era um bom sinal. Se o Sandro havia sido chamado, é porque alguma coisa realmente não estava funcionando como devia. Perguntei o que havia.
‘O motor da CTP está cheirando queimado. Parece que vai parar. Estamos tentando terminar de tirar as páginas’, avisou. Conversei um pouco com o chefe da gráfica, Robson Vieira, e discuti as alternativas possíveis. Para praticamente todos os equipamentos utilizados no jornal, na rádio ou no portal, temos backup, unidades de reserva ou sistemas redundantes. O processo de CTP é uma exceção. Decidimos que Robson e Sandro ligariam para gráficas que tivessem equipamento semelhante ao nosso, ainda relativamente raro no mercado, para deixar tudo acertado para o caso de uma emergência que, intuía, era cada vez mais inevitável.
Era quase 0h quando saí da sede do GCN. Apesar do cheiro de queimado, o CTP continuava funcionando. Neste instante, cheguei a pensar que meu pessimismo era exagerado e que daria para concluir a edição. Na manhã seguinte, os técnicos teriam melhores condições de fazer os reparos necessários ou esperar pela chegada dos especialistas de São Paulo. Infelizmente, meus pressentimentos estava certos.
Mal cheguei em casa e o telefone tocou. O desastre estava consumado. O CTP havia entrado em colapso. Para piorar, nenhuma das três gráficas com as quais imaginávamos poder contar tinham condições de nos ajudar, ou porque o equipamento não era grande o bastante para suportar nossas necessidades ou porque ninguém atendia o maldito telefone.
Dei meia-volta e retornei. As caras de desespero sinalizavam que a situação era bastante complicada. Faltava só o caderno principal, justamente a capa, mas sem ele não há edição possível de circular. No desespero, lembramos do jornal A Cidade, de Ribeirão Preto, com o qual mantemos excelente relacionamento. Num raio de 250 km, é o único com porte para atender as necessidades técnicas do Comércio. Arriscamos. Ligamos para o gerente gráfico, Paulo Silveira, que atendeu rapidamente. Não foi preciso mais do que meia dúzia de palavras. ‘Venham para cá. Temos que botar o Comércio na rua. Estou em casa, mas espero vocês na gráfica’.
Foi um alento. Separamos as chapas de alumínio, gravamos os arquivos em pen drives e partimos, às 3h45, rumo a Ribeirão. Chegamos pouco antes das 5h. Paulo estava à nossa espera. Correu, ajudou, solidarizou-se. ‘Temos que botar o jornal na rua. Os reparos vocês fazem depois’, dizia.
Passava pouco das 6h da manhã quando tomamos o caminho de volta. Encontramos uma tropa à nossa espera. Além dos mais de 70 gráficos, encartadores e entregadores que aguardavam a conclusão de suas tarefas, já se reuniam neste instante na sede do GCN secretárias, gente da área administativa, o pessoal de assinaturas, diagramadores, vários motoristas. Everton Lima e Leandro Vaz já tinham alertado os ouvintes da Difusora sobre o atraso na impressão do Comércio. Postamos também um aviso no portal. Às 7h30, começamos a imprimir a edição de sábado. Debaixo de chuva e após uma noite de intensos desafios, o jornal começava a chegar nas bancas, pontos de vendas e nas casas de milhares de assinantes.
Na minha carreira, já vi muita coisa - e enfrentei dificuldades que muitos sequer imaginam. Contando o episódio deste sábado, foram quatro ocasiões, nestas duas décadas, em que o Comércio correu o risco de não circular por conta de problemas técnicos. Em nenhuma oportunidade isso chegou a acontecer. Já improvisamos peças em condições absurdas, já cortamos milhares de exemplares com tesouras quando houve um problema na dobradeira e já até imprimimos o Comércio em Ribeirão - numa outra gráfica - e trouxemos aos poucos para Franca, em dezenas de viagens de caminhonetes e carros. Mas nunca deixamos de circular. Nem um único dia.
Ontem, às 9h30 da manhã, pude entregar a cada um dos novos conselheiros o Comércio do dia, recém-impresso, pois sabia que ninguém havia recebido ainda o seu exemplar. Só tive este privilégio porque uma equipe valente, responsável e que tem garra, coragem e determinação mostrou-se mais uma vez capaz de entender a importância do que faz e de transpor qualquer obstáculo que surja no caminho para cumprir um objetivo fundamental: entregar, a cada dia, um novo exemplar do Comércio para a população de Franca e região. Missão cumprida. Como sempre.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br