Eike Batista é mais que um empresário de sucesso. É quase um Midas contemporâneo, diferente daquele encontrado na mitologia grega, mas com certeza com a mesma capacidade de transformar em ouro tudo aquilo que toca. E foi esse Midas que, na última semana de janeiro, surpreendeu os moradores de Araxá, cidade mineira a cerca de 168 quilômetros de Franca, sobrevoando por cerca de duas horas a cidade e a região. Não avisou ninguém, nem fez questão de protocolos. Apenas chegou, voou pelos céus da cidade, reuniu-se rapidamente com o prefeito e partiu.
O fato, obviamente, chamou a atenção de toda a mídia nacional, já que, como ensina a sabedoria popular, um empresário desse quilate “não dá ponto sem nó”.
Se não foi à cidade mineira para se hospedar no Grande Hotel Araxá e relaxar ou cuidar de sua saúde nas águas radioativas e sulfurosas de suas termas, o que será que o homem mais rico do Brasil, e o oitavo do mundo, segundo a revista americana Forbes, estaria procurando em Araxá?
Duas hipóteses foram levantadas. A primeira relaciona-se ao fato de que a exploração dos elementos químicos das chamadas “terras raras” vai sair do papel durante este ano em Minas Gerais. E Araxá tem a segunda maior reserva de terras raras do país, que poderia interessar a MMX, a empresa de mineração do grupo de Eike Batista, que fez fortuna explorando minérios.
“Terras raras” é o nome que se dá a um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para a indústria de alta tecnologia como lantânio, cério, neodímio e disprósio. A maioria das pessoas não conhece os nomes, mas provavelmente já teve contato com algum dos diversos produtos que levam esses minerais. São usados em smartphones, iPods, fibras óticas, supercondutores, lentes especiais, ímãs e na indústria bélica, além de vários outros.
A segunda hipótese, levantada pelo colunista Lauro Jardim, na revista Veja, atribuiu a viagem ao interesse do empresário em produzir e exportar café. Segundo Jardim, Eike quer se tornar o “rei do café” no Brasil e, para começar esse novo empreendimento, estaria comprando algumas fazendas em Araxá.
Procurada pelo Comércio, a assessoria de imprensa da EBX foi bastante lacônica. Em nota, disse apenas que o Grupo EBX está estudando oportunidades de negócios no setor de café.
O prefeito de Araxá, Jeová Moreira da Costa, confirmou a versão da EBX. “O Eike Batista está interessado apenas no café. Não tem ligação com a mineração.” Segundo o prefeito, a exploração dos minérios está confirmada, mas será feita pela empresa canadense MBac, que já atua no Brasil desde 2008, principalmente na área de fertilizantes.
No entanto, a despeito dessas declarações, muitos continuam com a “pulga atrás da orelha”, apostando que o interesse verdadeiro do bilionário esteja mesmo nas terras raras. Boatos que circulam pela mídia da cidade mineira apontam nessa direção. O site Clarim.net, por exemplo, especula que Eike poderia até ser parceiro da MBac. Outros vão mais longe, como o blog do Germano Afonso, que especula uma possível participação acionária de Eike nessa empresa canadense.
Para uma importante fonte ligada ao setor cafeeiro - pessoa conhecedora de todos os números, desafios e tendências do comércio mundial do café, mas que preferiu ficar no anonimato para não criar transtornos políticos - dificilmente um empresário como Eike Batista iria investir na produção de café em Araxá. Nada contra a cidade, ou sua economia cafeeira. O problema estaria na topografia da região, que é bastante acidentada.
“Para ser o rei do café, Eike teria que plantar entre 3 e 4 mi-lhões pés de café, o que daria aproximadamente de 6 a 8 mil hectares de terra. Além disso, precisaria de terrenos mais planos, pois a produção precisaria ser mecanizada”, diz.
Para esse analista, o café seria um negócio bem modesto para um empresário do porte de Eike Batista, já que a instabilidade de seu preço no mercado internacional reduz bastante as expectativas de ganho no longo prazo, obviamente quando comparado a outros negócios, sobretudo alguns nos quais ele já atua.
“Se ele quisesse investir para agregar valor à indústria do café, como tornar-se um torrador, por exemplo, aí sim teria sentido, pois ele ganharia bem mais e ainda ajudaria a indústria cafeeira do Brasil”, acrescentou o analista. Para ele, ou o Eike está mal informado, algo difícil de se acreditar, ou o empresário está procurando outra coisa.
BOM MOMENTO
O momento parece altamente propício à exploração das terras raras. De acordo com matéria publicada pelo jornal Brasil Econômico, a China detém 97% do mercado mundial de neodímio. Historicamente, o valor cobrado pelas empresas chinesas era tão baixo que tornava a exploração por outros países bastante inviável economicamente. Nos últimos anos, porém, o gigante asiático resolveu endurecer o jogo. Colocou cotas para os vários países e busca agregar valor a sua riqueza mineral, tentando atrair as indústrias de alta tecnologia, em vez de apenas vender matéria prima.
Em função disso, os preços subiram assustadoramente. Para fugir dessa regulamentação dos chineses, diversos países, capitaneados por Canadá, Estados Unidos e Austrália iniciaram projetos para a exploração de terras raras.
A canadense MBac já teria comprado 214 hectares de terras em Araxá. E, segundo o prefeito, Jeová Moreira da Costa, vai construir um centro de pesquisas na recém-lançada Cidade da Tecnologia do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba.
O próprio Eike, numa palestra para empresário e autoridades, proferida em Belo Horizonte, no final de 2010, disse estar mapeando algumas áreas em Minas Gerais. Segundo reportagem do Estado de S. Paulo, o empresário teria dito que as terras raras são os metais do futuro e, na opinião dele, o Brasil tem um potencial extraordinário para competir com a China.
Para quem pretende ser o homem mais rico do mundo até 2015 ou 2016, conforme revelou em recente entrevista concedida ao Fantástico, da Rede Globo, é de se imaginar que o negócio almejado esteja mais próximo dos U$ 200 dólares do quilo de neodímio do que dos cerca de U$ 300 da saca de café.