Lourenço Fernandes Rosa já foi muito conhecido na cidade. Para muitos francanos com mais de 40 anos, seu nome talvez seja um sinônimo de farmácia. A farmácia dele também já foi maior, com vários funcionários e seis motos. Por mais de 30 anos, os funcionários e ele rodaram pelas ruas de Franca, entregando remédios, aplicando injeções e prestando outros serviços.
O estabelecimento, inaugurado em 1962, continua no mesmo endereço, mas ficou mais acanhado. Lourenço acabou comprando vários prédios ao lado de sua farmácia, mas, há alguns anos, passou tudo para sua ex-mulher e seus filhos, ficando apenas com o pequeno espaço onde tudo começou.
Mas se a farmácia não é mais a mesma, Lourenço ainda se mantém firme atrás de seu pequeno balcão. No alto de seus 80 anos, ainda com a mão segura, a mesma presteza de sempre e a memória extremamente afiada, ele segue a profissão que abraçou há sete décadas.
Com incrível precisão, consegue lembrar datas e horários em que as coisas aconteceram. Lembra-se, por exemplo, do dia exato em que veio para Franca, deixando sua terra natal, a vizinha São José da Bela Vista. Era 21 de novembro de 1949, data em que completou seus 18 anos.
E Lourenço não se lembra apenas do dia, lembra-se também das horas. Recorda-se do momento exato em que abordou Moacir Vieira Coelho, dono de farmácia, conseguindo seu primeiro emprego em Franca como farmacêutico.
Lembra-se também dos bons tempos em que trabalhou na farmácia Modelo, no centro da cidade, local em que aprendeu muitos dos segredos e manhas do trabalho em uma farmácia. Tempos em que manipulava remédios em tachos de 50 litros, como era comum antigamente. Tempos em que aprendeu a tratar de furúnculos, fazer curativos, dar pontos e aplicar soro.
Nessa entrevista, Lourenço contou um pouco de sua vida, da sensação de mediunidade e da profissão que o tornou popular na cidade que adotou. Leia a seguir os principais trechos.
Comércio da Franca - Como o senhor começou a vida de farmacêutico?
Lourenço Fernandes Rosa - Foi em São José da Bela Vista. Eu ainda era menino, tinha 10 anos. O Enoc Costa, meu primeiro patrão, me chamou para trabalhar. E lá fiquei até completar 18 anos, quando resolvi vir para Franca. Aqui chegando, no mesmo dia comecei a procurar emprego. Fui às farmácias, obviamente. Duas delas me prometeram para depois de uns dias. Na outra não havia vaga, mas o gerente me mandou falar com o senhor Moacir Vieira Coelho, que estava abrindo uma farmácia logo em frente. As caixas com remédios e prateleiras ainda estavam na rua. Eram 10h35. Conversei com o Moacir, ele perguntou sobre a minha família. Como conhecia meu pai e meu avô, já me pediu para ajudá-lo com as caixas. Às 14h05 desse mesmo dia, eu já estava trabalhando e lá fiquei durante um ano, quando o Moacir fechou a farmácia.
Comércio - E depois, para onde o senhor foi?
Lourenço - Fui para a Farmácia Modelo, no centro. Fui trabalhar com o Manoel Messias e lá fiquei por 10 anos. Lá eu aprendi muita coisa. Era uma farmácia muito movimentada, apesar de não ser a maior da cidade. O Manoel era um grande farmacêutico, sabia muito sobre remédio e por isso muita gente o procurava.
Comércio - E quando o senhor abriu a sua própria farmácia?
Lourenço - Foi em 1960. Saí da Modelo no dia 10 de abril de 1960. No dia 11 já estava dentro de minha farmácia, aqui na Francisco Marques. Comprei de um ex-colega que havia trabalhado comigo na farmácia Modelo, o Paulo Diniz Sampaio. Ele abriu a farmácia Santo Antonio em 1955, mas resolveu ir para Ribeirão. Então fiquei com ela. Era um tempo em que não havia muita coisa por aqui. O asfalto terminava logo na esquina. O pessoal das fazendas amarrava os cavalos em um poste aqui na calçada. Era um tempo mais tranquilo, em que podia deixar tudo aberto que ninguém mexia em nada. As motos ficavam na rua. Eu morava aqui mesmo e atendia as pessoas durante toda a madrugada.
Comércio - Como era isso? A farmácia ficava aberta?
Lourenço - Não. Tinha um aviso na porta ao lado, que abria para minha casa, nos fundos da farmácia. As pessoas tocavam a campainha. Eu acordava e lá de dentro acendia uma luz para elas saberem que eu tinha acordado e que já iria atendê-las.
Comércio - E muita gente procurava a farmácia à noite?
Lourenço - Sempre teve movimento. Mas, conforme a cidade foi crescendo, o movimento foi aumentando.
Comércio - E o senhor não se incomodava de ter que acordar toda madrugada?
Lourenço - Não era toda a madrugada, necessariamente. Mas, de qualquer forma, eu me acostumei com isso. Era minha profissão. E, se a pessoa toca a campainha de uma farmácia durante a noite, é porque está precisando. Ninguém ia a uma farmácia de madrugada só para acordar o farmacêutico. Meu dever e minha função era atendê-los da melhor maneira possível.
Comércio - Por que o senhor se tornou tão conhecido em Franca? O que o senhor fazia de diferente?
Lourenço - Não saberia dizer muito bem. Sempre me dediquei ao trabalho, como muitos de meus companheiros. Aprendi a dar ponto, manipular remédio, tratar de furúnculo, fazer curativo, entre várias outras coisas, e fazia isso com muita seriedade e disposição. Era só me chamarem que o “motor” (motocicleta) roncava pela cidade. Mas não era só eu que fazia isso. Talvez nem todos ficassem a noite inteira à disposição, como eu ficava, mas de resto, não saberia dizer porque fiquei mais conhecido, ou mesmo se era mais conhecido.
Comércio - Mas o senhor acredita que tenha feito um trabalho diferenciado?
Lourenço - Sei que muita gente não vai acreditar, mas acho que tenho alguma espécie de mediunidade ou alguma ligação espiritual mais acentuada, apesar de não conseguir explicar direito.
Comércio - O senhor é espírita?
Lourenço - Sou católico, mas sinto alguma coisa diferente. Certa vez, me lembro como se fosse ontem, chegou um homem de Cristais Paulista. Ele trazia seu filho, uma criança de um ano e meio, mais ou menos. Veio em um Jeep, com sua mulher. Eu estava no fundo da farmácia e minha ex-mulher, no balcão. Ele disse que o menino estava passando mal e pediu um remédio. Antes que minha mulher me chamasse, algo me incomodou. Foi como se uma voz me dissesse: “Não dê nenhum remédio”. Conversei com o homem, expliquei que não poderia medicar o menino e o aconselhei a ir até o dr. Chafic Facury, médico famoso na época. Depois de um tempo, ele voltou com a receita dos remédios e de uma injeção. Preparei tudo, apliquei a injeção no menino e a mulher o levou para o Jeep. Enquanto embrulhava os remédios, a mulher começou a chamar o marido desesperada. Fomos até o carro e ali assistimos o menino morrer. Imagine se eu o tivesse medicado?
Comércio - E o senhor chegou a vivenciar outras experiências como essas?
Lourenço - Sim, aconteceu também com um homem. Foi quase a mesma coisa. Ele me pediu para medicá-lo, mas eu achei que não devia. Então, o encaminhei para o médico. Da mesma forma que o pai do menino, ele foi e voltou com a receita. Enquanto estava preparando o remédio, ele morreu sentado, em um banco como esse que você está vendo, dentro de minha farmácia.
Comércio - Mas, naquela época era bastante comum um farmacêutico medicar as pessoas, não era?
Lourenço - Para algumas coisas sim. Quando já sabíamos o que era, ou era alguma coisinha simples, a gente mesmo passava a “receita”. Com a experiência que se vai adquirindo, as coisas simples ficam ainda mais fáceis. Porém, as mais complicadas sempre eram encaminhadas para o médico. Mas, conforme o tempo foi passando, o farmacêutico foi deixando de medicar por conta própria. Até ser proibido de vez. As coisas mudaram muito.
Comércio - E o senhor nunca errou nesses seus diagnósticos?
Lourenço - Errei sim, é claro. Mas, graças a Deus, foram erros que não me comprometeram. De qualquer forma, acredito que se sou farmacêutico até hoje, já com 80 anos, o que me segurou nessa profissão todo esse tempo foi essa sensação de mediunidade que sempre senti. Muitas vezes, fazia as coisas de uma forma que eu mesmo não compreendia muito bem o motivo, mas acabava fazendo. Tomava algumas atitudes que não entendia direito, mas sabia que tinha que tomar.
Comércio - Como é sua vida hoje?
Lourenço - É muito simples. Continuo firme aqui na farmácia, mas hoje só vou até as 20h. Depois vou para casa e passo a noite com minha atual companheira. Tenho ainda dois filhos vivos e meus netos. E vou levando as coisas como elas são, encarando com tranquilidade as mudanças e as transformações. Tem gente que passa por aqui e diz: “Não vou entrar nessa farmácia, porque esse velho não deve saber de nada”. Porém, outros dizem: “Como ele é velho, deve saber muito coisa”. Mas é assim mesmo, a gente tem que se acostumar com essas coisas.
Comércio - E quanto ao futuro?
Lourenço - Quero trabalhar até quando Deus me permitir.