Em fevereiro do ano passado, mencionamos nesse mesmo espaço, a novela dos mototaxistas assemelhava-se a uma peça teatral ligada ao movimento denominado Teatro do Absurdo. Esse termo, cunhado por Martin Esslin na década de 1960, caracteriza um tipo de teatro em que o enredo, as personagens e os diálogos mostram-se como elementos chocantes do ilógico, buscando com isso reproduzir o desatino e a falta de soluções que permeiam os meandros da sociedade contemporânea.
Quase um ano depois, é possível dizer que a novela continua. Se não mantém a mesma intensidade, apresenta pelo menos ainda uma boa dose de absurdo. Para quem não se lembra, no final de 2010 uma resolução do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) passou a exigir que todos os mototaxistas, motofretistas e motoboys da cidade apresentassem o certificado de um determinado curso para que pudessem regularizar sua situação profissional. O problema é que esse curso não estava disponível em nenhum lugar da cidade, nem mesmo da região.
Na época, houve muita polêmica e até mesmo alguns tumultos. Como alguns tiveram suas motos apreendidas pelas autoridades competentes, os mototaxistas se revoltaram e chegaram a fazer algum barulho nas ruas. Eles se manifestaram contra a obrigação de fazer um curso que não existia, algo que com certeza seria impossível até para o mais ‘caxias’ dos mototaxistas.
Felizmente, porém, o absurdo foi atenuado pelo TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) que o município firmou com o Ministério Público (MP), credenciando provisoriamente os profissionais que precisavam trabalhar. Primeiramente, o prazo final dessa autorização esgotou-se em junho de 2011, data em que ainda não havia nenhum órgão credenciado para ministrar o curso. Para mantê-los na legalidade, um novo prazo foi ajustado, liberando esses profissionais para trabalharem até 31 de janeiro de 2012.
Quase um ano depois, no entanto, percebe-se que o absurdo foi apenas atenuado. Por incrível que pareça, a novela continua no mesmo capítulo. A lei continua a exigir um curso que insiste em não existir, o que deve deixar os mototaxistas atordoados, assim como os funcionários municipais responsáveis pelo trânsito e os promotores do MP. O ‘inexplicável de Almeida’, como diria Nelson Rodrigues.
Nesse compasso, as autoridades deverão novamente estender o prazo da autorização provisória, pois esse é o único caminho possível se tomarmos como parâmetro a racionalidade humana. E para acabar de vez com o absurdo que acompanha essa situação e deixar a todos os envolvidos um pouco mais tranquilos, seria recomendável que essa autorização não tivesse um prazo limitado. Seria mais coerente que ela durasse até o dia em que o curso fosse oferecido na cidade.
Isso evitaria desgastes desnecessários e também a repercussão ainda maior desse absurdo.