Há pouco mais de um mês, o amor de mais de uma década que uniu a aposentada Teresinha Geraldo Lisboa, a Terê, de 51 anos, e a gráfica Márcia Pompeu Souza, de 47 anos, chegou ao fim. Depois de 13 anos e seis meses vivendo juntas como um casal, no último dia 23 de dezembro, elas decidiram que havia chegado o momento de cada uma seguir seu caminho sozinha. Como em toda separação, houve discussões e lágrimas e, no final, as duas acabaram se entendendo no escritório do advogado Mansur Jorge Said Filho.
Terê e Márcia vão ingressar com uma ação na Justiça para que o seu relacionamento seja reconhecido como uma união estável homossexual. “Nós éramos uma família. A Márcia foi minha companheira por muito tempo. Dividíamos a vida. Infelizmente, não estava dando mais certo”, disse Terê.
A partir do reconhecimento de que a união delas tinha caráter familiar, o advogado pedirá também que seja feita judicialmente a dissolução desta união e a partilha dos bens das duas. “A petição inicial do processo já está pronta. Devo dar entrada no Fórum nesta semana”, disse Mansur Jorge.
Ao longo dos anos em que viveram juntas, Terê e Márcia acumularam bens. Hoje, possuem três imóveis em Franca e um veículo zero quilômetro. “Nós duas contribuímos para construir esse patrimônio. Fizemos tudo juntas. É muito difícil um processo de separação. Decidimos que iríamos oficializar tudo, por isso resolvemos procurar a Justiça. Os homossexuais precisam saber que têm o direito de ter seu casamento reconhecido e sua separação também. É isso o que queremos”, disse Terê.
Para Márcia Pompeu, a oficialização da Justiça sobre a separação será o encerramento de um capítulo de sua vida. “Eu e a Teresinha passamos por muita coisa juntas, fomos muito felizes, mas, como em todo relacionamento, houve desgastes e percebemos que não era mais possível continuarmos juntas. Agora queremos resolver tudo da melhor maneira possível para que não haja problemas nem para mim nem para ela.”
As duas já fizeram a partilha consensual dos bens. Agora torcem por uma decisão favorável do juiz. “Até onde pude me informar, essa é uma ação inédita em Franca. Me parece que é a primeira vez que é pedido o reconhecimento com a dissolução. O processo é todo baseado na jurisprudência e na recente decisão do Supremo Tribunal Federal que reconheceu como entidade familiar a união estável homoafetiva”, diz o advogado.
HISTÓRIA DE AMOR
Terê e Márcia se conheceram em 1998, em São Paulo. As duas eram colegas de trabalho em uma gráfica. Um dia, num encontro com o pessoal da empresa, as duas trocaram telefones e se aproximaram. O primeiro encontro aconteceu no dia 12 de junho de 1998 e não se separaram mais.
Elas se mudaram para Franca em 2004. “Eu estava cansada de toda aquela agitação de São Paulo. Viemos passar o fim de semana na casa de uns amigos e não fomos mais embora”, contou Márcia.
Juntas, encontraram empregos novos e até disputaram uma vaga na Câmara Municipal em 2008. O desgaste do relacionamento começou a se agravar no ano passado, quando resolveram reformar a casa onde viviam.
“Foi muita dor de cabeça. A Márcia até ficou doente. Aí, começamos a nos desentender e acabamos decidindo nos separar”, disse Terê.