Dois jovens bonitos e alegres tiveram suas vidas perdidas em acidentes de trânsito no final de semana passado. Mayellen Eduarda Silveira, de 21 anos, morreu na madrugada da sexta-feira, dia 27, depois que o carro que dirigia derrapou e caiu no córrego dos Bagres. Lucas Gomide Mendes, também de 21 anos, morreu no domingo devido aos ferimentos causados pela batida de sua moto em um carro.
A pedagoga Zelma Bonacine Vietro Silva, de 45 anos, compreende a dor que as mães dos dois jovens estão sentindo. Como elas, Zelma também perdeu um filho depois de um acidente de trânsito. Paulo Eduardo morreu há dois anos. O jovem de 20 anos à época gostava de tocar violão e cantar. No dia em que sofreu o acidente, voltava de um culto religioso, caiu com a moto, foi socorrido e, depois de 23 dias internado, faleceu no Hospital das Clínicas em Ribeirão Preto.
Filho do meio de uma família de três irmãos, Paulo Eduardo era o mais extrovertido. Adorava brincar com a mãe e dividia o quarto com os dois irmãos, Leandro, de 25 anos, e Matheus, de 17. Sua morte abalou Zelma, que até pensou em suicídio.
A reviravolta veio depois de seis meses, com os pedidos insistentes de atenção do filho caçula e o apoio da família e das amigas. Já melhor, ela sentiu necessidade de ajudar outras mães que também haviam perdidos seus filhos ainda jovens. Começou a ler jornais atrás de histórias e a fazer visitas. Não demorou a criar o Grupo Mães de Amor, que, sem a pretensão de ser uma ajuda profissional, busca no apoio mútuo um caminho para vencer a dor da perda.
“Nós acreditamos que é possível tentar viver com essa dor. Nunca vamos esquecer nossos filhos. Eles estarão sempre em nossos corações. Mas temos que continuar. Essa é a nossa luta”, diz a mãe do Eduardo.
Comércio da Franca - Como foi o acidente de seu filho?
Zelma Bonacine Vietro Silva - Foi no dia 4 de outubro de 2009, um domingo. Tínhamos ido à igreja. Ele era músico. Tocava e cantava. Depois que o culto acabou, por volta das 10h30, eu, meu marido e meus outros filhos viemos para casa. Ele ficou para guardar os instrumentos e arrumar tudo. No caminho de volta, numa curva da rua José da Silva, eu não sei se ele se desequilibrou da moto ou se foi fechado por um outro veículo, o que sei é que ele caiu e bateu com a moto em uma árvore. Foi levado para a Santa Casa. Apesar da queda, o Eduardo estava consciente e conversando. Tinha quebrado o fêmur, o ombro e deslocado a bacia. Esse deslocamento de bacia provocou uma série de consequências. O médico conversou comigo sobre a gravidade do acidente. Eu não entendia o que estava se passando porque eu via meu filho bem. Ele não tinha batido a cabeça, estava conversando comigo. Mas a situação não era tão simples assim. O médico disse que o Eduardo tinha ferimentos internos e que precisaria passar por uma grande cirurgia. Ele foi operado, teve complicações, acabou adquirindo uma infecção hospitalar, foi transferido para o Hospital das Clínicas em Ribeirão Preto. Depois de 23 dias internado, morreu aos 20 anos, no dia 27 de outubro.
Comércio - Como a senhora recebeu a notícia da morte dele?
Zelma Bonacine - No dia, eu e o meu marido tínhamos conversado com o médico à tarde, em Ribeirão Preto. Ele tinha nos dito que só um milagre salvaria o nosso filho. Na hora, respondi a ele que eu, como mãe, acreditava em milagres. Mas, na viagem de volta para Franca, dentro do carro, eu e o meu marido estávamos muito tristes. Éramos só silêncio e dor. Então, eu tive aquele momento mãe e Deus. E fiz a oração mais difícil de toda a minha vida (chorando), a oração em que entreguei meu filho a Deus. Pedi que Ele fizesse o melhor para o Eduardo. Foi a coisa mais dura que já fiz. Depois, na madrugada, o telefone tocou. Meu filho mais velho atendeu e era o hospital falando que o Eduardo tinha morrido. Eu não sabia se era real ou se era um sonho ruim. Só via minha casa enchendo de gente.
Comércio - E como foi o processo de superação, se é que podemos dizer que uma mãe consegue superar a morte de um filho?
Zelma Bonacine - Realmente, superar a gente não supera nunca, apenas aprendemos a viver com essa dor. Para mim, o momento mais difícil foi voltar para casa depois do enterro. Porque foi quando eu percebi que realmente eu não o tinha mais. Aí, a dor foi tão grande que até respirar era difícil. Para puxar o ar, doía dentro da minha alma. Acordar no dia seguinte, entrar no quarto dele e ver que ele não estava ali era muito dolorido. Depois, eu o procurava todos os dias de manhã. Eu esperava por ele, mesmo sabendo que ele não iria voltar. Eu entrava no quarto dele, olhava as medalhas que ele havia ganho, o Eduardo era atleta; via a casa, os irmãos, mas não tinha mais a alegria dele, o companheirismo, as brincadeiras. Em muitos momentos, eu achei que não iria conseguir superar esse sofrimento. Eu cheguei a pedir a Deus para que me levasse. Eu fiquei sem chão, sem ar. Eu costumo dizer que, quando a gente enterra um filho, nós, mães, somos enterradas junto com ele. Só que somos enterradas vivas porque nosso coração ainda bate, mas estamos mortas porque não temos mais esperança, não temos mais sonhos, não temos mais foco. Achamos que tudo acabou. Eu não sabia como viver sem o meu filho. Eu via os meus outros filhos e o meu marido, sabia o tanto que eles precisavam de mim, mas eu não conseguia ajudar. A dor era maior que eu.
Comércio - E como a senhora conseguiu encontrar o caminho de volta para a vida?
Zelma Bonacine - No meio da minha dor e das cobranças dos meus filhos, que me mostravam a todo minuto que ainda estavam aqui e que precisavam da mãe deles, uma amiga minha veio me visitar. Eu estava muito triste e chorando. E ela me disse uma coisa que me marcou muito. Ela me abraçou e, disse: “Não sei o que te dizer, então, não vou falar nada. Vou apenas chorar junto com você”. E foi o que fizemos. Ela me ouviu e me abraçou. Depois, recebi a visita de duas mães que também tinham perdido filhos ainda jovens. Elas conversaram comigo sobre suas experiências, mostraram fotos dos filhos, eu mostrei do meu. Trocamos telefones e estávamos sempre conversando. Porque existem datas que são sempre muito difíceis, como aniversários, Natal, Ano Novo. A gente fica sempre esperando aquele que não vai chegar. Foi muito bom conversar com essas mães. Conseguia me abrir com elas. Elas entendiam o que eu sentia.
Comércio - Desculpe, mas a senhora viu seu filho no hospital, viu ele em coma, ser velado, enterrado e ainda assim o esperava?
Zelma Bonacine - Isso é a coisa mais estranha que existe. A coisa mais sem explicação. Não é racional. Mas o amor de mãe também não é. O amor é tão grande que nossa vontade de que a morte seja apenas uma mentira, às vezes, parece tomar conta da nossa mente. E isso acontece com quase todas as mães que eu tenho visitado. Isso é que é doloroso. Esperar por quem a gente sabe que nunca mais vai voltar. Mas é o nosso inconsciente em ação. Eu comparo muito com aquelas pessoas que perdem um membro do corpo e ainda assim afirmam que sentem dor naquele membro perdido.
Comércio - E como surgiu a ideia de criar o Grupo Mães de Amor?
Zelma Bonacine - Passados mais ou menos uns seis meses da morte do Eduardo, eu comecei a olhar ao meu redor. A perceber que o Dú, tinha ido, mas meus outros filhos e meu marido ainda estavam aqui e precisavam de mim, comecei a sentir uma necessidade de tentar ajudar outras mães que também tinham perdido seus filhos ainda jovens. Comecei a ver no jornal como acontecem essas fatalidades com crianças e com adolescentes. Eu lia as reportagens e pensava: “Eu acho que eu posso ajudar essa família em alguma coisa porque eu sei como ela está se sentindo. Eu não sei direito como, mas pelo menos eu posso chorar junto como fizeram comigo”. Foi quando passei a pegar os endereços e a ir até as casas dessas famílias. Hoje, existem várias pessoas que já conhecem nosso grupo e me ligam para avisar que conhecem alguém que precisa da nossa ajuda.
Comércio - Como funciona o Grupo Mães de Amor?
Zelma Bonacine - Nós somos cerca de dez mães que perderam filhos ainda crianças ou jovens. Nos reunimos pelo menos uma vez por mês na casa de uma de nós para uma reunião geral em que contamos nossas experiências e falamos sobre como a vivência no grupo tem nos ajudado a conviver com a dor da perda. Além disso, cada uma de nós faz suas visitas a outras mães que também perderam filhos. Agora, nosso sonho é encontrar uma sede para o grupo, onde possamos fazer nossas reuniões e onde as pessoas possam nos encontrar.
Comércio - Então o grupo acredita em uma superação?
Zelma Bonacine - Acreditamos que é preciso tentar. E acreditamos também que não existem receitas prontas para isso. Eu mesma já fui em três psicólogas atrás de respostas para as minhas dores. Mas descobri que para a perda de um filho não há resposta. Mas, com fé em Deus, ajuda e muita força de vontade, vamos reaprendendo a andar, a olhar a vida com outros olhos, a sentir que ainda podemos ser úteis.
Comércio - Mas como chegar neste ponto?
Zelma Bonacine - O caminho é doloroso. Temos que viver o luto, nos dar o direito de viver esse luto e, depois, entender que nossos filhos serão sempre nossos filhos, vão estar sempre guardados nos nossos corações. Mas, com o passar dos dias, você vai aprendendo a viver sem a presença física deles. Eu não posso falar que aceito e que me conformo com a morte do meu filho porque isso eu nunca vou fazer. Nem eu nem mãe nenhuma. Eu questionei muito Deus, eu tive raiva, eu desejei que outros jovens tivessem morrido no lugar do meu filho. Perdi o número de vezes que, de madrugada, abraçada à foto do Eduardo, me perguntava “por quê?”. Mas não há respostas. As mães que perdem filhos só têm dois caminhos: ou ficam prostradas o resto da vida tentando encontrar respostas ou enfrentam a dor e aprendem um novo modo de viver. Eu escolhi a segunda opção.
Comércio - O grupo possui alguma metodologia de trabalho, tem algum acompanhamento psicológico? Como é a abordagem dessas mães?
Zelma Bonacine - Não há uma metodologia nem acompanhamento psicológico. Tudo o que fazemos é com o coração, é com base na intuição. Já fiz visitas em que mal falei. A mãe precisava tanto desabafar que conversou comigo por quase quatro horas seguidas. Eu acho ótimo. Não temos a pretensão de um trabalho profissional. Queremos dar apoio, queremos trocar experiências, mostrar que há alternativas.
Comércio - Vocês já enfrentaram resistência de mães que não querem ser visitadas, que não querem se abrir. Como agem neste caso?
Zelma Bonacine - Já enfrentamos, sim. Mas, não desistimos. Existem mães que preferem se trancar em si mesmas a enfrentar a dor. Resolvem tomar remédios pesadíssimos para não viver a realidade. Nós respeitamos. Sabemos que, em algum momento, elas irão se abrir. Então, insistimos nas ligações e sempre deixamos mensagens.
Comércio - E hoje como está a sua vida?
Zelma Bonacine - Para ser sincera, não há um só dia em que eu não lembre do Eduardo. Mas hoje não sinto mais dor, sinto saudades.
Se você quiser entrar em contato com a Zelma os telefones são: (16) 3720-4225 e (16) 3017-3519