Cada vez mais a Internet banaliza a palavra escrita. Por ela ser um meio instantâneo de comunicação, normalmente o Português viciado da fala chega diretamente ao texto dos internautas.
Não dá tempo do usuário da língua refletir naquilo que quer expressar. Quando vê, já escreveu ‘corgo’ no lugar de córrego. Se isso é bom ou mau, só o tempo dirá.
De momento, pelo menos a Internet serve para forçar a pessoa a escrever. Junto às incursões pelas comunidades virtuais, basta surgir uma questão polêmica para que o internauta rasgue o verbo sem dó. Pena que para a maioria só prevaleça o seu ponto de vista. Qualquer opinião contrária recebe uma saraivada de impropérios.
A prova disso está na notícia da recente queda de uma moça com seu carro, no córrego dos Bagres. O texto virtual recebeu inúmeros comentários. Entre uma opinião e outra, as palavras soltaram até fogo. Na Internet, qualquer assunto perde o rumo. Os leitores partem para a agressão verbal pura e simples.
Esse fenômeno linguístico vem ganhando corpo já há algum tempo. Tanto faz a notícia ser local ou nacional.
Os internautas se valem do anonimato ou daquela falta de ter que olhar nos olhos do interlocutor para proferir afrontas pessoais, das mais descabidas, sem nem conhecer o oponente na realidade.
As seções dos meios de comunicação que se valem da Internet para receber comentários instantâneos estão muito próximas de um festival de bicadas.
Diz uma fábula norte-americana que basta uma galinha se desentender com outra, nunca por causa do galo, mas normalmente devido a algum tipo de comida, para que se inicie uma agressão.
Como se sabe, o bico tem duas funções. Uma delas é servir de arma. Começada a briga entre duas galinhas do terreiro, basta uma bicada mais forte para que o sangue apareça na cabeça de uma das briguentas. A partir daí, o restante do bando começa a bicar a ensanguentada. Se a vítima não consegue um esconderijo, acaba morrendo.
Entretanto, o festival de bicadas não acaba nisso. Durante a refrega, outra galinha se suja de sangue. As demais partem para cima dela com fé e vontade. A sessão de bicadas continua. Situação semelhante ao comportamento das galinhas acontece nos comentários dos internautas. Se alguém defende uma opinião divergente, recebe ofensas das mais intensas.
A sabedoria popular sobre galináceas não fica só no festival. Na maioria das vezes, as galinhas usam o bico para a função básica de ingerir alimentação ou água.
Quando uma delas acha um pedaço de carne crua dá (opa!) logo uma bicada. Lógico, não consegue tirar nem uma lasquinha. Fica bicando sem parar. As demais começam também a bicar a porção.
Nessa versão da festa de bicadas, as galinhas bicam que bicam e não são capazes de tirar lasca nenhuma da carne.
Tudo muito parecido ao resultado de algumas reuniões ou dos comentários na Internet.
Todo mundo fala, fala ou escreve, escreve e nada de concreto advém. Somente canseira.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br