‘Saber o que é certo e não o fazer é a pior covardia’
Confúcio, filósofo chinês
Francesco Schettino, 52 anos, casado e pai de uma menina, é membro de uma família de homens ligados ao mar. Desde 2006, ostenta o pomposo título de ‘capitão’, o posto máximo da carreira, o que lhe conferia, além de prestígio, autoridade absoluta sobre tudo e todos nos barcos que comandava - invariavelmente, gigantes navios de cruzeiro através de idílicos destinos. Pelo menos era assim até a última sexta-feira 13 quando, sob seu comando, o transatlântico Costa Concordia - 300 metros de comprimento, 114 mil toneladas de peso, 3.200 passageiros e 1.100 tripulantes a bordo - zarpou de Civitavecchia, na Itália, para um dos cruzeiros mais desastrados da história.
Seis horas depois da partida, o Costa Concordia já estava tombado sob o raso mar que circunda a ilha de Giglio, a cerca de 150 metros de terra firme, parcialmente submerso e inundado. Milhares de pessoas desesperadas desciam por cordas lançadas sobre o casco rumo aos botes salva-vidas. A esta altura, o capitão Schettino, que conforme a tradição dos homens que fazem do mar a sua vida - e de acordo com uma regra elementar que deve seguir qualquer um que lidere uma equipe, uma família ou uma empresa - deveria estar cuidando pessoalmente da operação de salvamento, já tinha há muito abandonado o navio.
Deixou para trás centenas de passageiros, tripulantes e qualquer resquício de honra e dignidade que pudesse ter, mesmo advertido pelo oficial encarregado da Capitania dos Portos, Gregorio de Falco, para que voltasse a bordo e provesse assistência e auxílio a todos. O capitão preferiu ignorar as determinações e fugir, como um rato de porão.
O pior é que, neste caso específico, nada, além da própria estupidez de seu capitão, pode explicar a tragédia. O tempo era ótimo, a noite clara, a rota conhecidíssima, o navio funcionava com perfeição, não houve sabotagem e nenhum sistema, por menor que fosse, falhou. Tudo que aconteceu é reflexo direto das ações comandadas e executadas por Francesco Schettino.
A origem do desastre parece estar no encantamento do capitão por uma jovem loira, de 25 anos, que apesar de trabalhar para a companhia que era dona do transatlântico, havia embarcado como clandestina. Domnica Cemortan, da Moldávia, jantou na companhia do capitão. Terminada a ceia, regada a doses generosas de bom vinho e fartas risadas, os dois foram para a ponte de comando, onde certamente o idiota planejava exibir-se. Para tanto, determinou a seus oficiais que desligassem o piloto automático que mantém o navio na rota programada e assumiu o leme da embarcação. Em seguida, fez um desvio de nove quilômetros rumo à ilha de Giglio, para uma manobra conhecida como ‘reverência’, quando a embarcação passa rente à terra firme com as luzes e sirenes ligadas.
Bêbado ou incompetente, não dá para saber. O fato é que o transatlântico encontrou pelo caminho uma série de rochedos. O choque provocou um rombo de 70 metros no casco. Foi neste instante que houve um blecaute a bordo. Engana-se quem pensa que a idiotia havia chegado ao fim. Sem emitir nenhum alerta verdadeiro sobre o que havia acontecido, o capitão limitou-se a informar aos passageiros uma pane elétrica e seguiu em frente. Questionado a primeira vez pela guarda costeira sobre relatos feitos por passageiros através de celular, que apontavam problemas a bordo, o capitão mentiu e, de novo, insistiu nos problemas elétricos. Interpelado uma segunda vez, repetiu a mesma ladainha.
Como a água não parava de entrar e a situação caminhava para a tragédia, Schettino fez mais uma bobagem. Tentou aproximar-se da costa, para ‘facilitar’ a evacuação. Qualquer um que tenha noções elementares de navegação sabe que uma embarcação daquele tamanho não conseguiria se aproximar tanto de terra firme. Não deu outra. O navio encalhou, a água entrou com mais força e o Costa Concordia acabou tombando, para desespero de quem estava lá dentro.
A esta altura, o capitão tinha enfim dado a ordem - quase duas horas após o primeiro choque - para que todos abandonassem o navio. O que ninguém poderia imaginar é que o próprio fosse um dos primeiros a seguir a instrução. A gravação da guarda costeira que mostra de Falco, irritadíssimo, determinando a um pasmado Schettino que voltasse ao barco e ajudasse no resgate, é uma das provas mais contundentes de quão patético pode ser o comportamento de um covarde.
Schettino está preso, formalmente acusado de homicídios múltiplos. Até a tarde de sábado, o saldo da tragédia chegava a 12 mortos, 23 desaparecidos e milhares de pessoas assustadas. A companhia Carnival, proprietária do Costa Concordia, já contabiliza prejuízos que se medem na casa dos milhões de euros em indenizações às vítimas, cancelamentos de viagens e danos à embarcação.
Felizmente, na Europa, o buraco é um pouco mais embaixo e ninguém protege o capitão, como não é delírio supor que pudesse acontecer se a tragédia ocorresse em águas brasileiras. Herói é de Falco, que mandou o covarde cumprir o seu dever, e não há execração da companhia, que agiu com seriedade. Até que se prove o contrário, irresponsável e cretino houve apenas um na tragédia do Costa Concordia: Francesco Schettino, o capitão covarde.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br