O menino tímido que cresceu brincando nas ruas da mineira Ubá, terra de Ary Barroso e Nelson Ned, hoje comanda o hospital que seu avô ajudou a construir. Alberto Costa Silva Filho, de 66 anos, é presidente do Hospital Regional de Franca, que conta com 120 médicos contratados e é uma das empresas mais antigas das cidade. Em julho, o HR completa 45 anos de existência.
Filho caçula de uma família de três filhos (ele tem duas irmãs), Alberto herdou a paixão pela medicina de seu pai. “Sempre pensei em ser médico, desde que me conheço como gente. Eu admirava muito o trabalho do meu pai, o carinho e o respeito que ele recebia das pessoas.”
Na adolescência, assim que completou o ginásio no IETC, prestou vestibular para medicina em Uberlândia. “Nunca vou esquecer o dia em que saiu minha aprovação. Foi uma festa só, com direito a trote, cabelo raspado e tudo mais. O olhar de felicidade dos meus pais naquele momento não tem preço.”
Depois de oito anos estudando fora, em 1978, Alberto voltou para Franca e montou seu consultório pediátrico junto com seu pai. “Foi nesta mesma época que entrei para o Regional. Ainda me lembro exatamente a data. Dia 1º de fevereiro de 1978, eu estava com 33 anos. Nunca mais deixei o hospital, que hoje é a minha paixão.”
Durante mais de três décadas, Alberto dividiu seus dias entre a rotina nos corredores do hospital e os afazeres em casa com a mulher que amava. Ângela Vilela morreu há um ano e oito meses, mas ele ainda chora toda vez que fala sobre a vida a dois. “Foram quase 40 anos juntos. Impossível não me emocionar.” Com Ângela, o médico teve três filhos, Leopoldo, que é juiz de direito; Camila, ginecologista, e Marina, especialista em clínica médica.
Depois de 27 anos exercendo cargos administrativos no hospital, no ano passado, Alberto foi eleito presidente do Regional, sucedendo seu primo Sátiro Rodrigues. No início deste ano, foi o responsável pelo anúncio dos planos de fusão com a Unimed Franca, até então a maior concorrente do Regional.
A notícia agitou os bastidores da saúde na cidade. Ainda muito reticente em falar sobre o assunto, Alberto disse que, de concreto, a única coisa acertada é a intenção dos dois grupos de se unirem. Como, quando e de que forma isso irá acontecer permanece sendo uma incógnita.
Comércio da Franca - Sua história de vida e sua carreira médica estão intimamente ligadas ao Hospital Regional, empresa pela qual o senhor se diz um apaixonado. Como nasceu essa paixão?
Alberto Costa Silva Filho - O Hospital Regional surgiu da iniciativa de um grupo de médicos da cidade. Três deles eu vou citar os nomes porque os considero os líderes deste movimento. São eles Cirilo Barcelos, Fernando Ruas e Nilson Novato. Foram eles que começaram a construir o hospital com dinheiro próprio. Na época, este era um empreendimento extremamente caro e eles se exauriram financeiramente até o ponto em que não tiveram mais condição de tocar a obra. Para não abandonar o sonho, resolveram, então, procurar algumas pessoas da sociedade e pedir ajuda. Uma delas foi o meu avô Antônio Rodrigues Neto. Ele tinha nove filhos, mas nenhum era médico. Ele só tinha um genro médico, que era o meu pai. Meu avô não era de Franca. Era da região de Laranjal,Tietê. Veio para Franca, trabalhou na área de café e ele achava que devia retribuir à cidade aquilo que ele tinha ganho aqui. Então, resolveu ajudar. Ele e meu pai. Por isso eu tenho uma ligação afetiva muito grande com o Regional.
Comércio - Em abril do ano passado, depois de uma longa experiência em cargos administrativos, o senhor assumiu a presidência do hospital. O que isso significou para o senhor?
Alberto Costa - Eu assumi dando continuidade ao trabalho de um grupo que vem administrando o Regional nos últimos 12 anos. O presidente anterior é o dr. Sátiro Rodrigues Alves, que é meu primo de primeiro grau. Chegou o momento em que era a minha vez de dar uma contribuição maior.
Comércio - Mas, qual foi o seu sentimento sobre essa conquista?
Alberto Costa - Para mim (longa pausa)... Eu podia te falar que foi uma realização pessoal, mas não foi. Foi mesmo um compromisso que eu achei que deveria assumir com o hospital. Era um momento em que era necessário uma pessoa com experiência na área administrativa do hospital. E eu tinha. Uma pessoa que tivesse uma boa penetração com os colegas. Eu tinha. Que tivesse um bom relacionamento com a maioria absoluta dos médicos. Eu tinha. Então, foi uma junção de fatores que me levaram a assumir a presidência e esse compromisso.
Comércio - Do jeito que o senhor está falando, parece que a situação do hospital não era boa...
Alberto Costa - Não, não... Muito pelo contrário. O Hospital Regional tem uma condição financeira muito boa. É uma empresa que não tem dívidas, que é administrada de forma bem pé no chão. A gente dá os passos que tem capacidade de dar, não ultrapassamos nosso limite financeiro, não temos dívidas bancárias. Nossa situação financeira é bastante tranqüila. Isso foi avaliado recentemente pela própria ANS (Agência Nacional de Saúde), que nos considerou uma empresa de risco mínimo. Para quem não confia no que estou falando, também existem os nossos balancetes, que são divulgados e estão à disposição.
Comércio - O senhor diz que o hospital tem uma condição financeira boa, que a administração é tranqüila, mas, agora no começo do ano, vocês anunciaram a fusão com a Unimed Franca. Por que se unir ao concorrente se o hospital vai tão bem?
Alberto Costa - Na verdade, essa fusão ainda não aconteceu. Esse processo ainda está caminhando. É uma idéia que nós tivemos. E, quando digo nós, estou me referindo à diretoria do Hospital Regional e à diretoria do grupo Unimed. A grande motivação para essa fusão é a seguinte: a Agência Nacional de Saúde é extremamente rigorosa. Ela nos policia, vigia nossos dados financeiros e econômicos, tabela os valores máximos de aumentos que podemos aplicar aos planos de pessoas físicas, normalmente, limitando-os aos índices da inflação e exige cada vez mais. Todos os anos inclui um novo rol de procedimentos que somos obrigados a oferecer a nossos clientes e isso implica custos maiores, que a operadora de planos de saúde acaba tendo que arcar.
Comércio - E o que isso tem a ver com a fusão?
Alberto Costa - Na verdade, a fusão ainda não existe. O que há são estudos para verificar a viabilidade de uma junção das empresas. A realidade é que, há cinco anos, no Brasil nós tínhamos cerca de 1,6 mil operadoras de planos de saúde. Hoje, não restam mais do que 1,1 mil. O que aconteceu com essas 400, 500 empresas? Ou se juntaram a outras, ou foram compradas ou literalmente faliram. Nós imaginamos que um grupo maior vai ter uma base maior e uma sustentabilidade melhor para cumprir todas as exigências da ANS sem grandes perdas ou riscos.
Comércio - Então, a fusão seria um caminho para evitar uma crise futura nos dois hospitais?
Alberto Costa - Sim, o que estamos pensando é justamente no futuro. Agora nós não temos problemas. É como eu te disse, o Hospital Regional é uma empresa sólida, com as finanças em dia. Não estamos preocupados com este ano, com o ano que vem. Mas não sabemos como será daqui a cinco, dez anos. Então precisamos nos preparar para o futuro.
Comércio - Afinal, é uma fusão ou o Regional vai ser incorporado pela Unimed? Vocês vão ter participação na administração da nova empresa?
Alberto Costa - Nós pretendemos juntar nossas empresas. Como isso vai ser feito ainda não foi tratado.
Comércio - Mas já houve informações de que um contrato teria sido assinado entre a Unimed e o Hospital Regional no dia 4 de janeiro. O senhor agora está dizendo que não há nada acertado. O que, de fato, há entre as duas empresas?
Alberto Costa - O grande dado do acordo é os dois grupos acharem que isso é importante para ambas as partes. Temos já acertado um acordo entre as diretorias bastante avançado. Só que este acordo foi construído em bases maiores, como se fosse uma carta de intenção. Agora precisamos discutir os detalhes, os aspectos contábeis, jurídicos, ver as viabilidades de associação. Tem muita coisa que ainda precisa ser discutida e acertada. Principalmente porque o Hospital Regional é uma sociedade anônima. Temos acionistas que vão ter que votar a anuência do acordo e eu vou ter que levar esses dados para a assembléia. Um exemplo são os médicos. Eles terão que entrar para a cooperativa. A discussão no Regional hoje é que eles querem entrar em igualdade plena de condições com os médicos que já estão na Unimed. Eu penso em como fazer isso. Isso não foi discutido nem acertado. São detalhes que têm de ser bem esclarecidos. Existe também a questão dos nossos clientes que precisam ter garantias de que não sofrerão perdas nem acréscimos de valores em seus planos. Nós temos hoje uma carta de intenção. Não temos contrato nenhum assinado.
Comércio - Dentro do Hospital Regional como os profissionais estão reagindo à idéia de se associar ao até então maior concorrente no mercado, ainda mais em um ano em que o hospital completa 45 anos de vida?
Alberto Costa - Eu sempre brinco dizendo o seguinte: que o fato de eu ter uma loja e outra pessoa ter uma loja em frente a minha e vender os mesmos produtos que os meus não faz dessa pessoa uma inimiga minha. Ela não é minha adversária, é apenas uma concorrente. Eu tenho grandes amigos que trabalham na Unimed, inclusive, da mesma especialidade que a minha. Eu tenho ótimas relações com o pessoal da cooperativa. Essa deveria ser a visão de todos. Mas em todos os negócios existe uma parte emocional. Então, para alguns, essa decisão tem um peso maior, não dá para esconder isso. Mas fizemos uma consulta prévia ao corpo clínico. A ampla maioria acha que as negociações com a Unimed devem continuar e que devemos estudar bem as propostas, que este é mesmo o caminho. Todos basicamente são a favor da fusão. Mas além do corpo clínico, no caso do Regional, há ainda pessoas não médicas que também são sócias do hospital e que terão que ser ouvidas também.
Comércio - Há alguma data acertada para o encerramento dessas discussões? Tem algum prazo para a conclusão da negociação?
Alberto Costa - Não há prazo, mas a gente estima que em uns seis meses já seja possível ter algumas definições sobre o negócio.