07 de julho de 2026

Construtor de sonhos


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A engenharia francana ficou menor ao perder um dos seus luminares, Maurício França. Junto com o irmão mais novo Paulo, formou a dupla de irmãos de ouro da engenharia local, responsáveis pela chegada da modernidade à velha Franca dos mestres e práticos italianos e espanhóis da construção civil.

Pode ser coincidência, mas duplas de irmãos são freqüentes na construção francana, como Ari e Rui Balieiro, João e Paulo Rocha de Freitas, Valdir e Carlos Lopes, Dilu e Ismar Jacintho. O fato é que Maurício e Paulo eram diferentes no estilo, mas não no resultado: a qualidade e apuro técnico do que construíram.

Anos atrás, desenvolvi um projeto na Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Franca chamado Memória & Ciência, onde entrevistei e filmei alguns dos mais antigos profissionais da engenharia e da arquitetura em atividade na cidade. O objetivo era resgatar a história destes profissionais e também da construção da cidade. Foi a segunda entrevista que fiz com o engenheiro civil Maurício Costa França, formado pela Politécnica da USP no início dos anos 50. A primeira foi quando fiz o mestrado e ele me mostrou os desenhos originais da fábrica da Samello, que reproduzi na minha dissertação. Em São Paulo, ao morar na mesma república de estudantes com o arquiteto boliviano Carlos Gonzalez Lack, a história da cidade mudou.

Foi a breve associação entre os dois, que durou de 1952 a 1955, que mudou para sempre a paisagem, a arquitetura e a engenharia da cidade. Eles projetaram e construíram três prédios seminais para nossa história moderna: o prédio de escritórios da Casa Barbosa na praça Barão, a sede social da AEC e a fábrica da Samello. A partir da Casa Barbosa, veio a arquitetura modernista com pilotis, combogós, fachada livre, estrutura independente das paredes e outras mudanças no jeito de morar e viver.

A sede da AEC então é um primor como obra de engenharia e arquitetura. Grandes vãos, fachadas envidraçadas, combogós, é uma excepcional obra de arte, infelizmente não preservada por esse governo insensível e inculto de Sidnei Rocha, hoje totalmente adulterada. O prédio da Samello revolucionou o jeito de fazer as fábricas de sapato, com seus escritórios envidraçados controlando o chão de fábrica, os sheds que iluminam e ventilam sem gastar energia elétrica, muito antes das preocupações ambientais de hoje.

Maurício sempre foi um homem empreendedor. Sua história profissional foi repleta de saborosos acontecimentos, que talvez o tenham levado para a arte musical. Construiu conjuntos habitacionais e loteamentos, meteu-se na política como vereador, ajudou a construir usinas hidrelétricas e até participou da construção das moradias da vila operária da usina atômica de Angra. Meu tio Juca Leite, um grande mestre da construção, foi seu braço direito nas obras que executou de loteamentos.

É uma daquelas pessoas que fará falta, não apenas para a família e os amigos, mas para todos que acreditam que vale a pena construir sonhos.