08 de julho de 2026

Mudanças pontuais


| Tempo de leitura: 3 min

Quando se esperava que a presidente Dilma Rousseff realizasse uma reforma ministerial efetiva - aguardada desde o ano passado, quando denúncias de irregularidades contra alguns de seus auxiliares tornaram-se praticamente diárias -, sabe-se agora que serão mudanças, e não reforma, e que elas se darão principalmente por causa das saídas de Fernando Haddad/Saúde (substituído pelo petista Aloizio Mercadante, ex-Ministério da Ciência e Tecnologia) e Irimy Lopes/Secretaria das Mulheres, que vão disputar as prefeituras de São Paulo e Vitória (ES), respectivamente. No mais, vai trocar o comando das Cidades, sem tirá-lo do PP, e devolver o Trabalho ao PDT.

No caso das Cidades, Dilma fará a troca a contra-gosto. Embora as denúncias contra o titular, Mário Negromonte, sejam graves - envolvendo nepotismo e favorecimento com propósitos eleitorais - não queria a substituição. Mas ele perdeu o apoio do próprio partido e deve retornar à Câmara dos Deputados. Além disso, a presidente ainda não digeriu a saída de Carlos Lupi do Trabalho, onde mantém um ministro interino, e pretende devolver a pasta ao PDT.

Como se pode perceber, Dilma Rousseff - depois de um encontro com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na semana passada, onde se aconselhou sobre as mudanças que pretendia fazer no ministério -, como diz o ditado, está com um olho no rato e outro no queijo. Embora mostre descontentamento com o desempenho de seus auxiliares diretos, não pretende, pelo menos agora, criar atritos com a base aliada.

No decorrer de 2011, sete ministros deixaram o governo. Uma ‘reforma obrigatória’, uma vez que seis deles saíram por denúncias de irregularidades. Porém, a maioria deles foi pressionada a se demitir, bradando inocência - a alegação era de que ganhariam mais tempo e espaço para se defender. A debandada diminuiu o espaço de manobra de Dilma na reformulação de seu gabinete e chegou a levar o PR, partido do ex-ministro dos Transportes Alfredo Nascimento, a deixar o bloco governista. E é uma debandada ainda maior que a presidente quer evitar. Melindrar a base, pelo menos neste início de segundo ano de mandato, seria contraproducente e serviria apenas para tumultuar o governo. Criar atritos no Congresso é o que Dilma menos quer, já que poderia inviabilizar todas as votações hoje plenamente favoráveis ao Planalto.

Desta forma, ouvindo Lula - que durante seus oito anos de mandato soube muito bem conduzir as articulações políticas que envolviam seu ministério e a sua base de sustentação no Legislativo -, Dilma resolveu contemporizar e adotar as chamadas ‘mudanças pontuais’ - em detrimento de uma ampla reforma ministerial - que tirasse de sua equipe o espectro das denúncias que abalaram todo o primeiro ano de seu mandato. Além disso, fortalece auxiliares diretos que estão sofrendo ataques da oposição, deixando esta a bradar no Congresso e pela imprensa, sem dar ouvidos ao que realmente seria importante: trocar as peças que já apresentam desgaste e que podem, no futuro, atravancar todo o trabalho da máquina. Entre perder o apoio da base e livrar-se das amarras que ainda prendem o seu governo ou manter o apoio e carregar consigo auxiliares aos quais é grata pela ampla aliança que a elegeu, evidentemente Dilma Rousseff preferiu a segunda opção. Se o governo vai conseguir deslanchar, isso já é outra história...