Não. Nunca fui boa em nada. Nunca ganhei uma medalha de ouro, nem de bronze, nem de prata
Nunca nadei bem; sempre fugi da bola. Nunca subi num pódio, nunca tive o gosto de ser apontada como talento ou potencial para qualquer atividade física – bom, na verdade tive quatro filhos e alguns sustos, mas isso já é outra história. Nas comuns aulas de educação física da escola, sempre dei jeito de ficar de fora. Meu sonho maior na ocasião era a possibilidade de estar sempre menstruada, que naquela época dava direito a dispensa, sem ter que ficar provando o incômodo, literalmente incômodo. Ninguém jamais me quis em time algum, fui a preterida nos mais diversos tipos de seleção esportiva. Como nunca fui também dona de bola alguma, nunca fui escalada para jogo algum. Por vingança, nunca namorei um atleta. Ou por proteção: vai que ele me quisesse ver numa quadra! Participei de todas as demonstrações de ginástica que aconteciam por ocasião do 7 de Setembro: minha professora achava que eu era engraçadinha, bonitinha, levava jeito para as evoluções, mas também era só. Tive aparecimentos esportivos sazonais. E apenas dessa natureza. Muitas vezes me inscrevi em aulas de ginástica e academias. Aliás se tivesse que subir num pódio, seria por ser campeã de inscrições nessas aulas. Freqüentar que é bom...
Vim lutando pela vida contra duas coisas chatas, uma na área de saúde, outra na estética: hipertensão arterial herdada dos avós e barriguinha besta que só. Indicações para amenizar ambas: ginástica ou outro tipo de atividade física com persistência e constância. Ginástica nem considerei: eu me conheço. A segunda, já que se abria um amplo leque de opções, deu para encarar. Mesmo assim, fiquei só nas caminhadas. Já andei tanto que daria para ter concluído volta ao redor da Terra. Não em oitenta dias, que ando sim, mas dentro de um ritmo maneiro, levando ao meu ouvido um radinho que invariavelmente toca canções românticas. A hipertensão vou contornando com remédios, terapias, com caminhadas. A barriguinha fica, já me acostumei a ela, já faz parte do meu visual, assim como meu nariz empinado e minha complacência com minhas limitações. Ia bem assim vivendo, quando descobri uma atividade física deslumbrante.
Nessa idade, com obrigações domésticas, profissionais e arsenal de desculpas esfarrapadas e bem aceitas para ficar em casa no bem-bom, descobri a Academia de Natação. Quando consigo superar a preguiça, quando me convenço de que posso ir tranquila, que não acontecerá qualquer catástrofe pelo rápido abandono do controle doméstico, pego a sacola e vou para a hidroginástica. Na sacola, roupão e chinelos e apetrechos de beleza (xampus, cremes, sabonete, pente) e de feiúra: aquela touquinha que nos obrigam a colocar para evitar encontros desagradáveis com cabelos nossos e alheios boiando na água e que, em contrapartida, nos deixa democraticamente todos muito feios.
Já comprei maiôs daqueles que nos deixam parecidos com aqualoucos. Já venci o medo de encontrar por ali antigos colegas que sabiam da minha aversão pelas atividades que exigissem desempenho e competitividade. Já me flagrei até organizando o horário para dar um jeito de ir às aulas. Estou deveras empenhada! Vario de turma. Às vezes estou com pessoas de mais idade – meu momento de glória, quando supero minhas próprias expectativas e me redimo de um passado sem mérito, vulgar, cinzento e sem notoriedade. Outras vezes a turma é muito jovem e saio de lá mortinha e sem fôlego, jurando que não abuso mais, que não exagero mais. De maneira geral, entro naquela água morninha, que me abraça feito um útero aconchegante, faço os exercícios direitinho como manda a professora, e volto revigorada. Continuo com a barriguinha. Mas quem foi que disse que é tarde para iniciar algum empreendimento em busca de redenção?
Releitura de texto escrito e publicado nos anos 90
Sopão
Amiga jornalista paulistana afirma que jamais fará parte do “sopão”. Diz que hidroginástica pode ser chamada assim: é recipiente cheio de água quente, com um monte de galinhas velhas dentro. Ela não sabe o que está perdendo.
Trânsito 1
O trânsito francano é assassino ou o motorista francano é inconsequente? Millôr Fernandes – salvo engano – disse haver descoberto que o milésimo de segundo é exatamente o espaço de tempo entre abrir o sinal verde e a buzinada do motorista imediatamente atrás dele. O pedestre que tenta atravessar a rotatória da avenida Champagnat – em qualquer direção – se despede da vida primeiro, faz o sinal da cruz. Depois é que vai. E correndo.
Trânsito 2
A rotatória do cruzamento da Saldanha Marinho com a Dr. Alonso é outro ponto vergonhoso. São poucos, muito poucos os motoristas que obedecem à sinalização proibindo a conversão, apesar das indicações. Qualquer dia desses vão colocar grupo de pessoas para vaiar quem obedece, já que os desobedientes são numerosos. E impunes. Nunca se viu um guarda de plantão por ali pegando os infratores.
Trânsito 3
Quando em Franca nevar, a descida da cachoeira – sentido centro/bairro – vai virar pista de esqui. Pelo menos gente treinando com carro já podemos acompanhar, dia e noite. Se a velocidade permitida é 60km por hora, ali se desce a, pelo menos, a 80 ou 90. Durante o dia. Na madrugada, escorrega-se mais fácil e de forma mais veloz. Pela manhã, marcas de pneus, cercas caídas, grades quebradas e postes tortos são provas da violência noturna.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br