De um lado, os moradores temem pela segurança dos seus imóveis e anseiam liberdade de ir e vir. Do outro, dezenas de usuários de crack consomem o entorpecente em qualquer hora do dia. Este é o cenário da rua Antônio Scarabucci, paralela à avenida Major Nicácio, na Vila Santa Cruz, onde dois terrenos baldios -um deles conhecido como o antigo “piscinão” - tornaram-se refúgio para os moradores de rua. A reportagem do Comércio acompanhou durante um mês a movimentação no local em diversos horários da manhã até a madrugada e testemunhou o drama e o medo dos francanos que têm casa própria na rua e preferem não se identificar.
A reportagem flagrou um grupo fumando crack em plena luz do dia. Segundo os vizinhos, a movimentação dos viciados é intensa a partir das 18 horas e alguns dias prossegue durante toda a noite com muito barulho e brigas. “Perdemos totalmente a liberdade. Tenho um filho de 17 anos e quando vou buscá-lo à noite preciso chamar a polícia para entrar em casa”, revelou um dentista de 59 anos, que tomou medidas para aumentar a segurança da residência e da família. “Aumentei o muro e coloquei alarme.”
Além da perturbação, os viciados incomodam os moradores pedindo alimentos e produtos de higiene. “Eles pedem água, sabão, óleo... Com medo, alguns moradores dão. Quem não dá é ofendido e sofre ameaças”, disse o dentista, que afirmou estar cansado de solicitar a presença da Polícia Militar na rua e pedir providências à Prefeitura.
Uma vizinha, que cuida da mãe e do irmão doente, contou que uma vez esqueceu o portão aberto e foi furtada. Outro morador disse que várias vezes o barraco dos viciados apareceu incendiado. “Eles acham que somos nós e vivem nos ameaçando.”
De acordo com o dentista, o problema é antigo e se intensificou há cinco meses. “Os usuários de drogas nos infernizam. A porta da minha casa virou sanitário para eles que urinam no portão.” Já um representante comercial de 46 anos “interditou” o banheiro público dos viciados plantando coroa-de-cristo no pequeno jardim que decora sua calçada. “Eles defecaram aqui, limparam com a mão e passaram na parede.”
Num dos terrenos baldios da região, que está murado e com calçada, os moradores de rua abriram um buraco no muro e improvisaram um lençol como cortina. “Eles quebraram o muro de madrugada e fez muito barulho”, diz o representante comercial. Lá dentro, lonas rasgadas cobrem o canto do terreno. Alguns dormem debaixo de uma mesa apoiada sobre tijolos. Lixo e mato dominam o local. Vários pontos do muro estão com buracos nos tijolos que, segundo os moradores, são locais usados para depositar e esconder os entorpecentes.
A situação é pior no terreno aberto, sem muro, que abrigou durante 10 anos o “piscinão”, o subsolo de um prédio inacabado na avenida Major Nicácio onde a água de nascentes ficava represada e que era utilizado até o ano passado por usuários de drogas e moradores de rua. No local, o mato divide espaço com o lixo e móveis velhos, e a água empoçada da chuva é um prato cheio para a proliferação do mosquito aedes aegypti, que transmite a dengue, e a procriação de animais peçonhentos.