08 de julho de 2026

O valor de um roubo


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Quanto custa uma bicicleta? Depende. Aliás, em questão de números, apesar de indicarem uma quantia exata, entra uma série de fatores na composição valorativa de um bem qualquer. Tudo fica na dependência de sentimentos e necessidades do possuidor.

Não faz muito tempo, furtaram a bicicleta de um homem. Até aí nada demais. Pior seria se a tivessem roubado mediante uma agressão física. Só que o furto trouxe até depressão ao proprietário. Ele não se conforma com a perda de sua Merck Swiss marrom, ano 1952. A bicicleta tem enorme valor emocional para a vítima. Ele a ganhou de seu pai, há 60 anos. Pode até ser que um colecionador ainda valorize tal veículo. Quem furtou a ‘magrela’ talvez nem consiga andar nela. Não bastasse o peso, por não ter marchas, ainda tem breque de pé. Isso dificulta a locomoção do ciclista, além de poder provocar uma queda no momento da frenagem.

Em novembro passado, roubaram a bicicleta de um garoto de 12 anos no trajeto de sua casa até a escola. O ambicionado veículo havia custado mais de mil reais. O ladrão ainda agrediu a vítima, em pela luz do dia.

No caso desse roubo e também do furto anterior, tanto o homem como o pai do garoto podem comprar novas bicicletas. No entanto, o primeiro não se conforma. Quer porque quer a sua Merck Swiss de volta. Uma dessas bicicletas de fabricação moderna não consegue repor a relíquia.

Já o garoto está traumatizado. Mesmo tendo ganhado outra, não quer mais sair pedalando pelas ruas da cidade. Acha que vai ser atacado a qualquer momento por algum desses nada românticos ladrõezinhos de bicicleta e outros quetais.

O valor de um roubo é um quase nada para o ladrão. O objeto surrupiado acaba sendo vendido por quantias irrisórias. Entretanto, além de provocar abalo psicológico em alguns, quem sofre a perda de um bem pode ter baixas financeiras incomparáveis. As posses variam de pessoa para pessoa.

Semana passada, um pedreiro teve sua bicicleta furtada. O veículo de duas rodas havia sido comprado no começo de dezembro. A aquisição não foi por luxo. Sua bicicleta antiga, por ser o único meio de locomoção, já não suportava mais consertos.

No dia de pagar a primeira prestação, o pedreiro saiu da Vila Santa Helena antes das 6 horas para trabalhar em uma chácara do Residencial Ana Dorothéa, na saída para Ibiraci. Depois de percorrer mais de 15 km, guardou sua nova bicicleta em um dos cômodos da construção e foi assentar piso no banheiro.

Por volta das 11 horas, o pedreiro foi pegar a marmita na mochila pendurada no guidão. Cadê a bicicleta? O perverso ladrão havia levado tudo: almoço, capa de chuva, carteira com dinheiro da prestação a ser paga à tarde na volta para casa e mais alguns trocados. Foram embora também os documentos pessoais e o telefone celular. Sobraram tão somente o restante do dia para trabalhar e a caminhada de quase 3 léguas de volta para casa.

Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br