16 de março de 2026

Final infeliz


| Tempo de leitura: 4 min
De um jeito ou de outro, esta história sórdida terá um final infeliz. Se o avô estuprou mesmo a neta, é ruim demais. Se tudo foi invenção, não fica melhor

‘A vergonha de confessar o
primeiro erro nos leva a muitos outros’
Jean de La Fontaine,
escritor francês


Pesam contra um homem, recolhido neste instante a uma cela da penitenciária de Serra Azul, acusações tão fortes que são capazes de reduzir qualquer um à condição de verme. O próprio local de sua detenção provisória, longe de Franca, onde tudo supostamente aconteceu, revela muito sobre a magnitude dos crimes aos quais responde. O acusado está lá, onde existe uma área de ‘segurança’, porque nem mesmo bandido aceita ao seu redor gente que faz o que dizem que ele fez: estupro do pior tipo, praticado contra uma criança, e da sua própria família.

Por isso mesmo, se fosse colocado junto com presos comuns aqui em Franca, onde tudo teoricamente aconteceu, muito provavelmente apareceria morto, vítima de um tribunal de exceção, num julgamento onde a chance de defesa inexiste e em que a aplicação da pena é imediata. Bandido julga, condena e executa de uma vez só. Estupradores não costumam receber qualquer tipo de misericórdia. No meio de detentos, onde não há exatamente a presença abundante de homens santos, os estupradores são a escória. Dentro da cadeia ou fora dela, é gente para quem a redenção e o perdão não são sentimentos possíveis.

O sujeito, um taxista de 68 anos tido por todos como simpático, religioso e cordial, é acusado pela neta - ou, mais precisamente, neta de sua mulher - de submetê-la a abusos sexuais frequentes, cometidos há pelo menos dois anos. Diz a menina de 12 anos que os abusos aconteciam nos finais de semana em que habitualmente dormia na casa dos avôs. Ainda segundo a menina, o avô a ameaçava e, em razão disso, ela suportava tudo em silêncio. O tormento teria durado até alguns dias atrás quando, angustiada e revoltada, revelou toda a história a uma conhecida e, depois, à própria mãe.

A partir daí, os relatos oficiais, que já eram bastante tenebrosos, ficam ainda mais horripilantes. Diz a mãe da estuprada - portanto, enteada do acusado - que o sujeito é tão bondoso e querido que ninguém acreditaria no que a sua filha dizia se não houvesse uma prova robusta. Diz também que pensou que o avô bolinasse a criança, mas que nunca imaginou que as coisas chegassem ao ponto que alegam ter chegado. Foi por isso que uma ideia lhe pareceu razoável: determinar à filha que retornasse às garras de seu algoz para que, com um celular, filmasse o que acontecia. Só desta forma, sustenta a mãe da vítima com sua lógica particularíssima, as pessoas acreditariam no que o insuspeito vovô fazia.

Assim foi feito. A menina foi para casa do avô, supostamente submeteu-se a mais uma sessão de violência sexual, filmou tudo com seu celular e, gravações em punho, foi com a mãe à polícia denunciar tudo. O acusado foi preso em flagrante, com base nos depoimentos e nas gravações do celular. A delegada Christina de Oliveira, que atendeu a ocorrência, diz que há cinco vídeos gravados pela menina e que, em pelo menos um deles, é possível reconhecê-lo nitidamente. E que há também trechos que revelam palavras obscenas dirigidas pelo avô à neta, além de imagens que, segundo a delegada, parecem ser de atos libidinosos praticados pelo acusado. É bom que se diga e repita que o avô nega tudo. A parte da família que o defende alega que tudo foi ‘armação’. Por enquanto, ele segue preso.

De um jeito ou de outro, esta história sórdida terá necessariamente um final infeliz. Se a versão contada pela menina e sua mãe acabar comprovada e seu avô for realmente um maníaco sexual, então estaremos diante de mais um animal disfarçado de gente, um ser humano abjeto capaz de atentar contra uma criança que deveria proteger, vil o bastante para seviciar alguém depois de comungar na missa e para quem nenhuma defesa será boa o bastante para garantir mínima redenção.

Se, de outra forma, as acusações se mostrarem levianas, então nos veremos diante de mãe e filha capazes de fantasiar um enredo nojento só para acusar alguém de ser autor de um crime hediondo, tudo por motivo fútil e torpe, e por conseguinte capazes de submeter um homem inocente às delícias do sistema prisional brasileiro e da execração pública - a começar, da própria família, neste instante dilacerada.

Independente das hipóteses possíveis, resta um drama adicional a cutucar nossas consciências. Quem ouviu a entrevista da menina certamente deve estar incomodado com a tranquilidade demonstrada por ela na narrativa de situações capazes de corar adultos mais pudicos. A menina de 12 anos, cujas atenções deveriam estar restritas a brincadeiras de bonecas e sonhos adolescentes, fala de sexo com a desenvoltura de uma balzaquiana. É perturbador ouvi-la descrever as cenas do que teria acontecido em detalhes. Certamente a psicologia tem lá suas explicações para este comportamento, nenhuma delas boas o bastante para nos livrar de uma certa angústia existencial.

Agora, resta aguardar a perícia dos vídeos, a conclusão do inquérito e, em última instância, a posição da Justiça. O desfecho deste caso sórdido, de um jeito ou de outro, não será nada bom.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br