Visto de fora é um imóvel comum no Residencial Paraíso, com muro e portões altos. Por dentro é uma espécie de casa de roça, ou venda dessas antigas, comuns nas fazendas da região, com cabeça de boi, roda de carroça, sela, viola, berrante e lampiões pendurados nas paredes. E a casa tem nome: Morada Du Capiau.
O imóvel é alugado por cinco amigos entre 22 e 33 anos, preocupados em preservar a verdadeira cultura sertaneja caipira. É ali, na rua dos Pracinhas, 1.800, onde eles se reúnem com amigos semanalmente para contar causos, tocar viola, ouvir música - muitas vezes na vitrola, para isso escolhem um dos mais de 200 discos de vinil, o popular “bolachão”, da coleção da casa.
A casa é simples: uma edícula com dois quartos, dois banheiros e uma cozinha grande. Mas, é na parte externa, uma área com cerca de 200 metros quadrados, que acontecem as festas. Avessos ao sertanejo universitário - para eles esse tipo de música tem letra comercial, sem histórias bonitas -, no rádio dos meninos tocam as duplas Durval & Davi, Belmonte & Amaraí, Tião Carreiro & Pardinho e Roberto Viola & João Carvalho, nomes que a maioria das pessoas na idade deles desconhece.
O representante comercial Lucas Renato de Souza, o Lucão, 28, pode ser considerado o relações-públicas da Morada. Fala com orgulho do trabalho que eles desenvolvem para preservar o que para sua turma é tão importante: a cultura rural e a moda de viola. O irmão, o empresário Marco Aurélio de Souza, 22, é o violeiro da casa. Ele e o agricultor Wender de Souza Rigoni, o Serginho, também de 22 anos, são os caçulas da república caipira. Completam a lista de amigos Leandro Quintino, 29, também representante comercial, e o funcionário público Walter Silvério Neto, 33.
Com idades e profissões diferentes, em comum têm, além do gosto musical, o “estilo cowboy” de se vestir: bota, chapéu, calça ajustada ao corpo, camisa e cinturão.
“A gente é o que é, peão 24 horas por dia e sete dias por semana: seja em casamento ou formatura, nosso estilo é esse. Se precisar de um sapato social, nós não temos”, diz Marquinho.
A turma foi se juntando ao longo da vida, como gostam de dizer, e a paixão pelas coisas do campo vem de família. A ideia de alugar uma casa na cidade e dedicá-la a esse amor pela vida simples do campo surgiu há dois anos. Antes disso frequentavam um clube de violeiros, no centro comunitário da Vila Santos Dumont.
Atualmente, a casa deles recebe até as famosas duplas do passado como Belmonte e Amaraí, Durval & Davi e Cassiano e Diquinho. Os “capiaus” também viajam em busca das coisas caipiras. Recentemente, foram assistir à gravação do programa de Inezita Barroso, da TV Cultura, em São Paulo.
A Morada, apesar de não ter destinação comercial - não há cobrança de ingressos - , é um dos únicos locais de Franca destinados à música de raiz. “Aqui é bem vindo quem aprecia o mesmo que a gente”, afirma Lucão.
Além dos cinco donos do “rancho urbano”, frequentam o lugar também os agregados. São os amigos da turma amantes da moda de viola como os vendedores Deílton Devaldo Silva, o Purga, 32, e Antônio Marcos de Araújo, 26, o Tóin. “Aqui tem sempre música boa. Com todo o respeito aos outros gostos musicais, quem conhece a vida que a gente leva e o que a gente ouve não troca o som da viola pela guitarra do rock in roll”, afirma Antônio.