20 de março de 2026

Depressão


| Tempo de leitura: 4 min

Sabe aquele dia que você tem certeza que pôs o pé esquerdo na frente para se levantar? Sabe aquele mal-estar generalizado, aparentemente sem motivo?

Aquela gastura no estômago, aquela extra sístole que lhe dá a impressão de estar no vai-e-vem de um balanço – você, cuja lembrança desse tipo de brinquedo está apagadinha, apagadinha e nem tem mais peso e impulso suficiente para ir tão alto? Dá vontade de voltar para o quarto, apagar a luz, impedir qualquer entrada de luz, deitar e ficar remoendo a tristeza, a angústia, já que nenhuma roupa serve, nada combina, os sapatos não entram, aquela camiseta desapareceu, aquela calça está ridícula, seu cabelo não assenta (nem com reza), seus dentes parecem sujos. Você se julga o último dos mortais e o espelho confirma a hipótese (impressão ou seus braços parecem mais longos e estão se arrastando no chão?)

Fossa. Depressão. Aí você começa a analisar e listar os possíveis motivos da fossa. Sua vida está cheia de razões. Pode ser o fato de haver esquecido compromisso importante, assumido e jurado e ter faltado com alguma promessa (...e você lá podia cumpri-los?). Pode ser que tenha sido a incompreensão de familiares (tão imperfeitos!) ou não ter conseguido sair de uma saia justa, como você merecia: por cima e plenamente vingado. Ou, ainda, aquela resposta fantástica à agressão que, dada naquela exata hora, mostraria sua perspicácia e superioridade e só veio à sua boca depois que você digeriu a situação: coisa mais frustrante!

Você foi atacado. Com certeza. E está justamente ofendido. E começa a desfiar outros motivos para se julgar assim. Aquela observação negativa que o cônjuge fez, foi imerecida. A maneira como seu filho reagiu, foi fora dos padrões da boa educação que você lhe deu. O jeito como seu funcionário respondeu a seu comando, daria motivo para uma dispensa com justa causa. Você é um injustiçado! Se as coisas andassem de conformidade com o direito, você seria um candidato (e venceria!) um ISO-qualquer-coisa. Veja só: você é ótimo, cumpridor de seus deveres, não lesa ninguém, paga seus impostos, reza. Você é um cidadão decente ou faz baita força para ser. Mas o mundo está contra você. Tudo está contra você.

Você ainda fica ali, jogado para as traças. Tristemente conclui, contabilizando tantas situações do seu cotidiano nas quais foi aviltado e desvalorizado embora tivesse razão na maioria delas: ninguém te ama, ninguém te quer, ninguém te compreende, ninguém te valoriza, ninguém te entende. E muito menos te chama de “meu amor”. Então você reage (encontra força, nem sabe onde) e sai de casa. Passa numa loja que vende móveis rústicos e artesanato. Entra, percorre com o olhar os objetos expostos e, de repente, encontra numa placa toda enfeitada com flores brancas a frase escrita com tinta azul, que faz parar o seu coração. “Eu não quero ter razão. Eu quero é ser feliz.” Você compra o quadro pois sente que a mensagem foi escrita para alertá-lo. Tudo parece fazer mais sentido. Entra no carro, vai embora rindo sozinho, firme na convicção e certeza de poder reorganizar sua vida, segundo a orientação – tão simples! – súbita e recentemente aprendida. (Escrito no século passado, nos primeiros meses de 2000)

Vinil
Os bolachões pretos estão em alta. Os mais recentes trabalhos de Chico Buarque e Maria Rita, entre outros, podem ser encontrados na versão CD e na versão vinil. Muito mais caro que o modelo prático, reduzido e compacto ao qual nos acostumamos, o “cedezão”, como os chama Maria Fernanda, minha neta, seduz os amantes do som natural. É sutil, embora perceptível aos ouvidos mais sofisticados, a diferença de qualidade entre a reprodução sonora de um e outro. Que sejam bem-vindos.

Obviedades I
“Dê às pessoas mais do que esperam receber e faça-o com alegria. Case-se com alguém com quem goste de conversar. Não acredite em tudo que ouvir; não gaste tudo que tem; não durma quanto quiser. Quando disser ‘eu amo você’, diga-o com sentimento profundo. Quando disser ‘sinto muito’ olhe a pessoa nos olhos.”

Obviedades II
“Acredite no amor à primeira vista. Nunca caçoe dos sonhos dos outros. Ame profunda e apaixonadamente: você pode se ferir, mas é a única maneira de viver a vida plenamente. Em desavenças, lute de maneira justa e ao lutar, jamais cite nomes. Não julgue as pessoas pelos familiares.”

Obviedades III
“Fale com calma e pense rápido. Quando lhe fizerem pergunta à qual não queira responder, sorria e pergunte porque a pessoa quer saber isso. Um grande amor e grandes desafios sempre envolvem grandes riscos. Diga ‘saúde’, quando ouvir alguém espirrar. Quando perder, não perca a lição.”

Obviedades IV
“Lembre-se dos 3 R: respeito por você; respeito pelos outros; responsabilidade para com todos os outros. Não permita que uma pequena briga machuque uma grande amizade. Quando perceber que cometeu um erro, aja imediatamente para corrigi-lo. Sorria quando atender ao telefone. Passe algum tempo sozinho.”

Demanda
Após o Natal e com a baixa dos impostos, alguns eletrodomésticos desapareceram do mercado. Freezer da Brastemp, por exemplo, está indisponível até no site da própria empresa. Curioso, você pode comprar agora e, claro, pagar, mas o vendedor não pode garantir, muito menos prever a data de entrega. Isso é que é “compra virtual”.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br