A facilidade com que as pessoas viajam e se comunicam e as turbulências do mundo atual fazem a sociedade refletir progressivamente sobre o estado digamos ‘móvel’ das pessoas
O surgimento do telefone celular nos anos 90 do século passado veio em paralelo a um fenômeno muito mais amplo, o da mobilidade física e mental das pessoas. Com a internet, ganhamos a condição de poder pertencer a comunidades de interesses comuns sem sair do lugar. Um botânico pode estar em Franca com o foco em intercâmbios virtuais com colegas espalhados pelo mundo todo. Assim se dão os negócios, os estudos, os relacionamentos e a prestação de serviços. O mundo parece uma cidade só. E cada cidade é o próprio mundo. Nesse contexto de deslumbramento com o fim de muitos limites geográficos, ocorre um revigoramento dos valores regionais. Precisamos e queremos pertencer a uma região. Esse é o maior paradoxo da globalização.
Positivo
Há os que enxergam o lado positivo das mudanças globais. A nova condição, de seres planetários e ao mesmo fincados em raízes locais, contribui para uma espécie de reencontro da humanidade consigo mesma, segundo defende Pierre Lévy, filósofo da informação, em seu clássico A Revolução contemporânea em matéria de comunicação. Diz ele que o crescimento demográfico finalmente não leva mais à separação e ao afastamento entre os homens, como nos tempos dos caçadores do paleolítico, mas, ao contrário, conduz à intensificação dos contatos em escala mundial. “O progresso das técnicas de transporte e de comunicação é, ao mesmo tempo, motor e manifestação dessa relacionamento generalizado. A aventura dos computadores e do ciberespaço acompanha a banalização das viagens e do turismo, o desenvolvimento dos transportes aéreos, a extensão das auto-estradas e das linhas de trem de grande velocidade. Um computador e uma conexão telefônica nos dão acesso a quase todas as informações do mundo, imediatamente ou recorrendo a redes de pessoas capazes de remeter à informação desejada”, diz Lévy.
Pasteurização
A crítica cultura e literária Beatriz Sarlo, da Argentina, se preocupa com fato de muitas cidades terem perdido o “centro” como referência principal. Esse lugar geográfico preciso, marcado por monumentos, cruzamentos de ruas e avenidas, teatros, cinemas, restaurantes, ruas de pedestres e paredes carcomidas pelo tempo, foi substituído por condomínios e bairros urbanos. “A cidade deixou de crescer e as pessoas já não se deslocam por ela, de ponta a ponta”, diz ela. Nessa nova configuração urbana, reinam absolutos os shoppings centers, arquitetados com os mesmos conceitos do centro urbano, como se fossem formas idênticas, tanto faz se construídos em Piracicaba ou Miami. Verdadeiras catedrais do consumo, passaram a ser os novos locais para compras de produtos e serviços, entretenimento e refúgio. É possível simular bancos de praça e o canto dos pássaros. Nessa nave espacial, distante da pobreza e das mazelas da cidade, come-se, bebe-se, descansa-se e consomem-se mercadorias e símbolos. “Um extraterrestre que visitasse um desses recantos na Terra teria dificuldades em fazer distinções a não ser pela moeda em uso e pela língua dos vendedores. A constância das marcas internacionais e das mercadorias se soma à uniformidade do espaço”, diz Sarlo.
Culturas locais
As mudanças não ocorrem somente na paisagem urbana. Passou-se a discutir o poder que o novo ritmo de consumo e organização urbana exerce sobre a vida das pessoas. Pámela Wallin, âncora de televisão no Canadá e conferencista internacional é uma dessas estudiosas. Advertiu que o progresso tecnológico coloca a mídia com um alcance maior e ao mesmo tempo manipuladora e manipulável. “A transmissão via satélite invade e esmaga as culturais locais”, disse ela, num encontro de jornalismo promovido pela IBM do Brasil nos anos 90.
Batalhas
O sociólogo e urbanista espanhol Manuel Castells, em entrevista a O Estado de S. Paulo em 1999, disse a respeito do poder global: “Não se pode unicamente pensar em termos globais porque as questões se tornam muito abstratas. É preciso pensar localmente, começando por discutir quem você é, onde você vive, o que é que você quer fazer, qual a sua identidade e qual a sua história. Só depois de bem claras e enraizadas, essas respostas podem começar a agir para ter mudanças globais, a partir dos interesses e valores individuais, com a consciência de que o resultado último dessas ações vai afetar o global, mesmo que muitas vezes isso seja um processo de passo a passo e de vitórias em batalhas locais.”
Teia
Emerge a consciência global, mas sem perder de vista a importância para a maioria das pessoas do vínculo local e regional. É dessa forma que cresce a importância do jornalismo regional, desafiado a refletir cada vez mais sobre o mundo fisicamente próximo da rua e do bairro, para satisfazer as necessidades de informação imediata dos cidadãos, mas com uma visão atualizada, já que os fatos ocorrem de forma cada vez mais encadeada.
Wilson Marini
Jornalista – wmarini@apj.inf.br