‘Em geral, na natureza humana
existe mais tolice do que sabedoria’
Francis Bacon, filósofo inglês
Sempre acreditei que a maior estupidez que alguém poderia cometer é participar de uma roleta russa. Até hoje não sei se o que me levou a esta conclusão foi o filme O Franco Atirador - um clássico dos anos 70 sobre a Guerra do Vietnã que mostra prisioneiros obrigados a participar de um jogo mortal em que as apostas são pagas com a própria vida - ou os muitos relatos que li sobre gente que morreu, em versões domésticas da mesma prática, tentando parecer corajoso. Entender como alguém, conscientemente, gira o tambor de um revólver carregado com uma bala e dispara contra a própria cabeça, arriscando a vida toscamente, esteve sempre muito além da minha capacidade de compreensão. Uns morrem, outros seguem vivos mas, na idiotia, todos se equivalem.
Nos últimos meses, as proezas perpetradas por outra categoria de humanos me levaram a uma revisão conceitual e, consequentemente, a uma nova conclusão que me obriga, imediatamente, a um mea culpa: fui injusto com os participantes de roleta russa. Muito mais imbecil é parte significativa dos motoristas brasileiros, aqui incluídos vários que conduzem seus carros e motos pelas ruas de Franca. Perto destes, o sujeito que se senta na frente de outro, gira o tambor do revólver com uma bala dentro e dispara até ver quem morre, chega a ser inocente.
Difícil a edição do Comércio que não traga em suas páginas um relato qualquer de acidente - quase sempre, com vítimas. Num trabalho de fôlego, os repórteres Daniel Rodrigues e Samuel Santos conseguiram traduzir, com precisão matemática, o tamanho do problema. A partir do cruzamento das informações do número dos mortos em acidentes com o total de vítimas de crimes, a reportagem publicada na última quinta-feira comprova que o trânsito mata cinco vezes mais que os homicídios. Ao longo de 2011, 59 pessoas perderam a vida em decorrência de acidentes nas ruas da cidade, enquanto os assassinatos foram responsáveis por 11 mortes. Ninguém precisa ser gênio para perceber que, enquanto menos de uma pessoa por mês morreu em decorrência de um crime, mais de uma por semana perdeu a vida vítima de acidente. É uma relação perversa demais.
Uma simples experiência que consome pouco mais de uma hora ajuda a explicitar o grau de inconsequência de boa parte dos motoristas. Quem se dispuser a percorrer os 65 km que separam Franca de Rifaina, independente do sentido - ida ou volta, tanto faz - vai certamente se deparar com dezenas de atrocidades cometidas por gente de todo tipo que estará fazendo o mesmo percurso. É uma insanidade democrática, que não faz distinção de idade ou sexo. Há idiotas de todo tipo dirigindo nos dois sentidos. Homens e mulheres, jovens e idosos, condutores de carros já desgastados e também motoristas na direção daqueles tão novos que o plástico ainda nem foi removido do banco. Tem de tudo. Ultrapassagens em locais sem visibilidade ou pelo acostamento, gente trafegando em velocidades que se aproximam dos 180 km/h, doidos que conduzem seus carros sem faróis mesmo quando a luz do sol já se foi há tempos, caminhoneiros que arrastam seus ‘brutos’ espatifando pedaços de pneus ressolados sobre os infelizes que vêm atrás...
Nada disso se compara, no entanto, ao pior tipo, uma espécie de motorista que desafia a mínima racionalidade e que sobra nas pistas da Cândido Portinari. O louco em questão ignora solenemente a faixa contínua que, pintada de amarelo no centro da pista, indica de forma óbvia que as ultrapassagens ali são proibidas. O sujeito é uma espécie de analfabeto funcional que, alheio à sinalização, acelera o carro, invade a pista contrária e parece indiferente ao fato de que, por ali, vem alguém num outro carro - e no sentido oposto.
Se você está com sorte, a invasão acontece num trecho onde é possível avistar o débil e jogar o próprio carro para o acostamento, ou onde uma redução de velocidade permite que o desembestado complete sua tosca manobra. Nem todo mundo tem sorte. Muita gente morre em terríveis colisões frontais, quase sempre porque uma anta qualquer invadiu a pista contrária e levou o veículo que seguia no sentido inverso no peito.
O pior é que, diferente da roleta russa, onde o sujeito morre sozinho, ao invadir a pista contrária o motorista coloca em risco a sua vida, a de seus eventuais acompanhantes e também a dos incautos que, sem ter o que fazer, correm risco de morte apenas por trafegar na mesma rodovia. É um absurdo inominável.
É bem provável que estes motoristas se imaginem indestrutíveis, hábeis pilotos capazes de completar qualquer ultrapassagem independente do número de veículos à sua frente ou do carro que venha em sentido contrário. Não são. Estão aí os inúmeros acidentes, dia após dia, para reforçar o óbvio - são apenas malucos inconsequentes, que arriscam e ceifam vidas por pura estupidez.
Por isso mesmo, acredito que o governo deveria reformular drasticamente as campanhas de educação no trânsito, comprovadamente ineficazes. Melhor seria simplesmente recomendar a estes assassinos que trocassem a direção de seus veículos pela prática de roleta russa. É bem insano, mas o dano é muito menor. Pelo menos, para gente.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br