Eles somam 15 anos de carreira e trazem seis álbuns na bagagem. Um é de Franca, o outro, de São Thomás de Aquino. Tinham em mente um objetivo: vencer na vida. Só não imaginavam que a música seria o grande trunfo deles nessa empreitada. Ruan e Rafael se conheceram em uma fábrica de calçados e começaram a dividir a paixão pela música sertaneja entre uma marmita e outra, nos intervalos do almoço. “Saíamos de moto, íamos para a casa de um amigo e cantávamos”, lembra Rafael, cujo nome de batismo é Wagner Luis Barbosa.
De pequenas apresentações, como o primeiro - e inesquecível - show na festa de confraternização de fim de ano da fábrica, a dupla aos poucos foi ganhando espaço em Franca. Foram inúmeras madrugadas em bares, restaurantes e festas, noites praticamente emendadas entre as apresentações, um banho e o raiar do dia a caminho da fábrica. Até obter o primeiro patrocínio para a gravação do tão sonhado CD, em 2000. “Quando entramos no estúdio pela primeira vez foi assustador. Não tínhamos a mínima ideia de como se gravava um disco”, diz Ruan, ou Francisco Dias Rocha, que faz a segunda voz na dupla.
Os anos se passaram, e na estrada a dupla construiu amizades, fez parcerias e conquistou, dia a dia, o reconhecimento de seu talento. Tanto que este ano, ao completarem os 15 anos de carreira, estão lançando o sexto CD, Balada Open Bar, com a participação especial de Rionegro e Solimões, Gian e Giovanni e Juliano César. “Graças a Deus e a essa convivência, fazemos shows juntos em várias cidades, divulgamos nosso trabalho junto com eles”, comenta Ruan. E a dupla não pretende parar por aí. A ideia é transformar o CD em um DVD, com gravações em estúdio e dos bastidores das 13 faixas do novo trabalho.
O maior sonho da dupla é fazer sucesso em âmbito nacional. Grandes shows beneficentes e participações em rodeios de grande porte também fazem parte da lista de desejos de Ruan e Rafael. Aliado a isso, esperam participar de uma Expoagro em Franca. “Uma coisa que ficamos chateados é que nunca tocamos na Expoagro. Fizemos um show em Conceição Aparecida/MG para 13 mil pessoas, que ficaram berrando as nossas músicas. E na nossa cidade, ainda não conseguimos entrar na Expoagro”, desabafa Rafael.
Comércio da Franca - Como vocês se conheceram?
Wagner Luiz Barbosa, o Rafael - A gente se conheceu na fábrica de calçados Sambinos, em 1997. Trabalhávamos lá. Eu já cantava antes, mas não fazia shows. Cantava em festas, em reuniões com os amigos, encontros com a família. Sempre fui um apaixonado por música sertaneja, desde criança. Já na fábrica, nosso chefe de seção sabia que o Ruan cantava, e depois descobriu que eu também cantava. Foi ele quem nos apresentou. Começamos a cantar na hora do almoço. A gente levava marmita para a fábrica. Saía de moto, ia para a casa de um amigo e cantava na hora do almoço. E assim foi até começarmos a pensar em fazer apresentações na época. Como eu já tinha amizade com o Ronaldo Sabino (violonista francano), porque tocávamos na mesma igreja desde pequenos, nós o procuramos. Ele inclusive me deu aulas de violão de graça, porque na época eu não tinha condição de pagar um curso. E aí começamos a tocar com o Ronaldo Sabino em festas, bares, e ele nos acompanhava no violão.
Francisco Dias Rocha, o Ruan - Já cantava desde criança. Em São Thomás de Aquino, eu tinha uma banda de música sertaneja com meus irmãos, que se chamava Irmãos Rocha. Trabalho com música desde os 12 anos de idade. Mudei para Franca para trabalhar e foi aí que conheci o Rafael, na fábrica. Nossa primeira apresentação foi na festa de confraternização da fábrica.
Comércio - Quando vocês resolveram gravar um CD?
Rafael - Depois de alguns anos tocando na noite, de muitas noites fazendo shows, já tínhamos feito muitas amizades com o pessoal da música em Franca, mas continuávamos trabalhando na fabricação de calçados. Em 2000 surgiu a oportunidade de gravarmos o primeiro CD, Solidão e Saudade, patrocinado por amigos do Calçados Pé de Ferro, o Márcio, o Maurício e o Paulinho. Gravamos em Londrina/PR. Tanto o primeiro quanto o segundo CD.
Ruan - Esses amigos nos convidaram para cantar no rancho deles. Lá perguntaram: “Quanto custa para gravar um CD?”. Aí eles nos disseram que iriam pagar a gravação. Até nos assustamos, porque o custo naquela época era de cerca de R$ 50 mil. Quando entramos no estúdio pela primeira vez foi assustador. Não tínhamos a mínima ideia de como se gravava um disco. Era o mesmo local em que vários artistas de renome gravavam, como Teodoro e Sampaio e Athaide e Alexandre. A ansiedade foi muito grande, mas depois tudo deu certo.
Comércio - O novo CD de vocês, Balada Open Bar, tem participações especiais de Rionegro e Solimões, Gian e Giovanni e Juliano César. Como é a amizade com essas duplas?
Rafael - Conhecemos Rionegro e Solimões através de nosso ex-empresário, o Marcos. Ele sempre foi amigo da dupla, bem antes de eles fazerem sucesso. Nós os conhecemos numa festa em uma chácara, há 12 anos. Fizemos amizade e, com o passar do tempo, fomos nos encontrando mais vezes e essa relação ficou mais sólida. Vamos à casa deles, à fazenda, o Ruan joga bola com eles. A mesma coisa com Gian e Giovanni que, apesar de não morarem mais em Franca , foram pessoas que nos ajudaram a sair da fábrica de calçados, com um CD na mão, e ir atrás de rádio, jornal, de mídia.
Ruan - Hoje, graças a Deus e a essa convivência, fazemos shows juntos em várias cidades, divulgamos nosso trabalho junto com eles.
Comércio - Como foram os convites para as parcerias? O que acharam do resultado?
Rafael - Sempre tivemos vontade de convidá-los para fazer um disco. Já fazia um tempo que não gravávamos, e aí decidimos fazer um CD de músicas inéditas. Quando fechamos o CD, olhamos para as músicas e vimos que elas tinham a cara desses artistas. Se Preciso For, que é uma música romântica, tinha tudo a ver com o Gian e Giovanni. Foi muito legal, porque além da amizade, eu sou fã da dupla. Tenho todos os discos. Hoje estou com 35 anos e ter o nome deles em um disco meu era algo que eu nunca imaginaria que pudesse acontecer.
Ruan - O Juliano César nós já conhecemos há bastante tempo. É um cara muito atencioso, uma pessoa maravilhosa. Fiz o convite até meio que brincando para ver qual seria a reação dele. Falei: “A gente tem muita vontade de gravar uma música com você, será que um dia vai dar?”. Ele respondeu: “É só arrumar a música e me ligar”. E nessa oportunidade do CD, liguei para ele para confirmar o convite. Ele topou gravar a música de cara. Isso foi muito gratificante para nós, ele confiou no nosso trabalho. Isso mostra o respeito que conseguimos criar ao longo da nossa carreira.
Comércio - Como se deu a evolução de vocês no meio artístico?
Rafael - Corremos bastante para que pudéssemos crescer. Não é só uma questão de levar a música para a rádio e torcer para tocar. Fizemos muitos shows, muita coisa em lugares pequenos. Já estivemos em tudo quanto é lugar que se possa imaginar até ganharmos nosso nome e fazermos grande shows. Quando lançamos o segundo CD, trabalhamos com a música No embalo da Cachaça, que é lembrada até hoje. O show aconteceu há oito anos, foram 8 mil pagantes no Castelinho e quatro anos consecutivos com a festa No Embalo da Cachaça.
Comércio -Vocês têm vontade de tocar em algum lugar especial?
Rafael - Rodeios nós já fizemos todos da região. Fazemos muita festa de peão no sul de Minas. Em 2011, foram 15 festas de peão. Uma coisa que ficamos chateados é que nunca tocamos na Expoagro aqui em Franca. Fizemos um show em Conceição Aparecida/MG para 13 mil pessoas, que ficaram berrando as nossas músicas. E, na nossa cidade, não conseguimos tocar na Expoagro.
Ruan - Mesmo o pessoal de Franca nos cobra isso [tocar na Expoagro]. Ninguém entende porque não estamos na Expoagro. Sempre dizem assim: “Mas tem tanta gente fazendo show na Expoagro, por que vocês não tocaram lá ainda?”. Estamos esperando essa oportunidade. Agora, em termos de eventos maiores, o rodeio de Jaguariúna e o Barretão (Festa do Peão de Barretos) é um grande sonho.
Comércio - O que vocês acham do cenário sertanejo atual? Além de duplas, há um número muito grande de artistas jovens se destacando em carreira solo, como Luan Santana, Gusttavo Lima e Eduardo Costa. É uma nova tendência?
Ruan - Acho que esse espaço para cantores solo sempre existiu. Basta pensar em Roberta Miranda, Amado Batista e vários outros. É fato que ficamos um tempo sem ver artistas solo despontarem, mas de um tempo para cá isso começou a surgir novamente. Mas hoje em dia gravar um disco está muito mais fácil. Basta ter suporte financeiro.
Rafael - Acho que hoje mudou demais. Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Rionegro e Solimões, Gian e Giovanni fizeram sucesso de uma forma que hoje em dia é impossível repetir. São cantores fora do comum. Na época, existiam muitos cantores, mas era bem menos do que temos hoje. O sistema mudou. O “cantar” ficou em segundo plano. Pega-se alguém, faz-se o visual do cara, o marketing, uma megaprodução e o artista já é lançado com esse boom no mercado. Lança-se um produto. Não digo que esses artistas não tenham talento, porque existe aí uma escolha. Mas é diferente se pensarmos que viemos de famílias muito pobres, o Ruan saiu de São Thomás de Aquino com a cara e a coragem, nos conhecemos na fábrica e fomos cantar pelo simples fato de amar a música sertaneja. Passamos anos cantando na noite, chegávamos em casa de madrugada, tomávamos banho e já íamos trabalhar na fábrica. Acho que hoje é muito difícil alguém conseguir fazer sucesso só dessa forma. É preciso apoio financeiro.
Comércio - Qual o maior sonho de vocês?
Rafael - Um sonho que eu tenho é fazer um show num domingo, no Parque Fernando Costa, em um fim de tarde, e cobrar um litro de leite para a entrada. Fazer um DVD assim, com imagens aéreas, uma coisa bem grande. E depois doarmos tudo isso que arrecadamos.
Ruan - Fazer sucesso em nível nacional e poder mostrar nosso trabalho para o Brasil inteiro. Trabalhar nos grandes circuitos de rodeios. Imagina, em Jaguariúna, Americana, Barretos, tocar ao lado de Luan Santana, Gusttavo Lima. Esses são nossos sonhos.