Começo o ano chutando o balde. Neste final de ano fiquei meio longe da televisão, do rádio, dos jornais e revistas. Contemplei o sol, na verdade a chuva... Assisti a um monte de DVDs e li.
No retorno ao dia a dia, tomei contato com a realidade, apenas para confirmar que nada mudou. É impressionante a quantidade de gente tentando levar vantagem.
Do aumento dos próprios salários ao desvio da verba para socorrer os atingidos pelas enchentes, do superfaturamento de obras às verbas para paletós, é um interminável desfile de autoridades tentando explicar o inexplicável e justificar o injustificável, só para provar que no Brasil o bem público não tem dono. Sem contar a cara de pau de alguns prestadores de serviços, do encanador ao super-diretor da multinacional de telefonia celular. Todo mundo querendo sua casquinha.
Antigamente era moleza saber quem eram esses caras. Eram poucos, facilmente descobertos no meio da multidão. Mas hoje a coisa mudou. A multidão são eles.
Como designar esses tipos? Tem que ser algo que os ofenda. Decidi recuperar um termo antigo, meio em desuso: calhorda. Parece que o “lhor” no meio da palavra dá o impacto de um palavrão mesmo, daqueles que a gente fala com gosto, sabe?
Lembro de “calhorda” nos anos setenta em publicações como O Pasquim e textos de autores como Nelson Rodrigues.
O dicionário Aurélio diz que calhorda é “pessoa desprezível, impudente, ordinária.” Já o Houaiss diz que é “sinonímia de pulha”.
Encontrei também outras definições, como patife, canalha, nojento, repulsivo, escroto, desprezível, ignóbil, biltre, sórdido, torpe, fúfio, baixo, miserável, infame, indigno, pífio, à-toa, somenos, ignominioso, abjeto, ordinário, vilão, vil, asqueroso, mísero, reles, pulha, desclassificado. Pô, calhorda é um baita adjetivo!
Adjetivos são palavras que usamos para qualificar substantivos. Por exemplo: “político ladrão”. “Político” é o substantivo, “ladrão” é o adjetivo. Mas quando a gente usa assim: “Olha lá que ladrão esperto”, o adjetivo “ladrão” passa a ser o substantivo, sacou?
Nem precisa mais de um adjetivo prá ser definido: ladrão é ladrão, substantivo e adjetivo ao mesmo tempo.
Pois tomei uma resolução de ano novo: transformarei calhorda em substantivo. A partir de agora, toda vez que me deparar com alguém aprontando das suas não direi mais que é o político, o executivo, o médico, o prefeito ou o vereador tal.
Direi simplesmente “o calhorda”. O que vier depois será adjetivo: o calhorda governador, o calhorda professor, o calhorda jornalista, o calhorda ministro, o calhorda jogador, o calhorda apresentador. Ah, sim, poderá ser “a” calhorda também.
- Calhooooorrrrddaaaaa!
Talvez eu agrida a norma culta. E sei que não vai resolver nada. Mas me dá um gostinho de vingança...
Luciano Pires
Jornalista, escritor, conferencista e cartunista