Nos últimos anos, nosso Senado foi protagonista de vários escândalos que deixaram transparecer a fragilidade de nossa democracia. Como já dissemos nesse espaço, essa casa de nosso Legislativo insistiu em adentrar a mídia pela porta dos fundos, escondido e envergonhado. O local que deveria ser referência e pilastra de nossa República apresentou-se mais como um espaço espúrio, disponível aos cambalachos e malandragens, do que um espaço aberto ao debate e à criação de nossas leis.
Funcionários que marcavam presença, mas não trabalhavam, contratação de servidores por atos secretos, número excessivo de servidores e contratação de parentes e apaniguados de nossos parlamentares, entre outros desmandos, foram largamente divulgados pela mídia, trazendo ao Senado e a seus parlamentares uma imagem nada condizente com aquela mais nobre que deveria pairar na percepção de nossos cidadãos.
Em função disso, impôs-se a necessidade de uma reforma. Depois de anos de discussão, que geralmente caminham de forma bem mais lenta do que os desmandos, parece que finalmente nossos parlamentares estão chegando a um acordo.
Preparado por técnicos da diretoria-geral, o substitutivo do senador Benedito de Lyra prevê uma economia de R$ 150 milhões por ano na máquina administrativa da instituição. Dos 3.053 cargos de confiança, deverão restar apenas 1.236. O total de servidores por gabinete também deverá ser alterado, diminuindo dos atuais 79 para 60.
Além desses cortes, o substitutivo prevê a limitação de gastos com celulares e a rescisão de alguns contratos de serviços.
Apesar dos 3 anos de atraso, não se pode reclamar da iniciativa. Se for para sanear a administração e acabar com o desperdício e os desvios de dinheiro público, é forçoso reconhecer que antes tarde do que nunca.
Há, porém, algo intrigante nessa proposta. Sem desmerecer o trabalho feito pelos técnicos da diretoria-geral, seria necessário explicar porque o projeto elaborado pela FGV (Fundação Getulio Vargas), talvez a melhor escola de administração do Brasil, não foi aprovado pelos nossos senadores, que a julgar pelo que andaram fazendo no Senado, não têm muita aptidão para as questões administrativas.
Fica a dúvida. Será que a FGV errou na elaboração do projeto? Será que seus professores, tão acostumados com as práticas administrativas das maiores empresas brasileiras e internacionais, não conseguiram resolver o emaranhado de desmandos que permeava os corredores do Senado? Ou será que a contratação dessa renomada escola foi apenas um jogo de cena do senador Sarney, presidente da casa, na época pressionado por uma série de escândalos e acusações que na verdade nunca conseguiu explicar?
De longe, fica difícil entender. Porém, pelo histórico de ambas as instituições, é possível imaginar os motivos pelos quais os senadores não gostaram muito do projeto. O corte devia ser bem mais drástico. Bom para o Brasil, mas nem tanto para eles.