O professor universitário e agente de exportação de calçados, Cassiano Pimentel, tem uma vida dedicada ao PT. Impossível não associar sua imagem à do partido. No fim da década de 70, quando a legenda ainda não havia sido criada na cidade, ele já atuava nas comissões provisórias em Uberlândia (MG), onde residia e estudava. Em 1982, já de volta a Franca, foi candidato a vereador na primeira eleição disputada pelo PT. Não se elegeu. A vitória viria em grande estilo 14 anos depois.
Em 1996, Cassiano formou uma chapa puro sangue com Gilmar Dominici e surpreendeu ao vencer as eleições municipais. Nomes tradicionais, como o do atual vereador Joaquim Pereira Ribeiro e do deputado estadual Gilson de Souza, foram derrotados pela dobradinha petista. Pela primeira vez, o Partido dos Trabalhadores chegava ao poder em Franca. Ambos, foram reeleitos. Entre os candidatos derrotados pelos petistas em 2000, estava o atual prefeito Sidnei Rocha.
Vice prefeito de Franca por oito anos, Cassiano Pimentel ocupou os cargos de secretário de Desenvolvimento Econômico e Agropecuário e também de Educação e Esportes. Disputou sem êxito as eleições para deputado federal em 2002 e foi derrotado por Sidnei Rocha na tentativa de chegar à Prefeitura dois anos depois. “Tivemos uma ação da Rádio Hertz, capitaneada pelo seu dono, que é o atual prefeito Sidnei, muito intensa em relação a um projeto político que ele tinha de retornar à Prefeitura. Era quase uma obsessão para ele derrotar o PT. Infelizmente, coube a mim ser o candidato do PT a ser derrotado por ele”. Cassiano sofreu nova derrota em 2008, quando tentou uma vaga na Câmara de Vereadores.
Neste ano novo, Cassiano se impôs um novo desafio político. Vai tentar conquistar a Prefeitura, mas, desta vez, sem as cores do PT. No fim de setembro, ele deixou o partido que ajudou a criar e se filiou ao PV. “O PT envelheceu no sentido de desenvolver práticas que nós, historicamente, combatíamos em outros partidos”.
Nesta entrevista, Cassiano relembra as dificuldades enfrentadas a longo dos oito anos em que ajudou a governar Franca, fala sobre os erros de Gilmar Dominici (“Ele confiou demais nas pessoas”) e quais são suas expectativas em relação à próxima eleição.
Comércio da Franca - Por que o senhor decidiu sair do PT depois de 30 anos de militância e embarcou no PV?
Cassiano Pimentel - Na verdade, este não é um processo de decisão imediato. Se pensarmos no âmbito municipal, o PT, para mim, envelheceu no sentido de desenvolver práticas que nós, historicamente, combatíamos em outros partidos. Envelheceu adquirindo as mesmas práticas de outros partidos.
Comércio - O senhor quer dizer que o partido tomou o poder e não fez aquilo a que se propôs?
Cassiano - Alguma coisa por aí. E também perdeu a capacidade sedutora de atrair gente jovem, de atrair gerações novas para que pudessem contribuir com a modernização do debate. Fica a impressão de que o PT esgotou toda a sua capacidade de debate, de discussão na luta de classes e esqueceu que assuntos novos foram colocados como desafios globais e que refletem no âmbito municipal. E o PT, por conta da derrota que sofremos nas eleições de 2004, não conseguiu se reestruturar.
Comércio - O partido morreu em Franca?
Cassiano - Não diria que morreu. Ainda tem um núcleo de pessoas bastante atuantes, tem vereadores na Câmara e também tem um número de filiados bem grande ainda. Acho que, isoladamente, o PT é o partido mais votado em Franca. Mas, também não julgo que seja uma votação expressiva a ponto de levá-lo para o segundo turno numa eleição municipal ou, eventualmente, para uma vitória. Isto, por conta de limitações que foram sendo criadas ao longo do tempo. A minha saída do PT é um pouco do resultado desta reflexão.
Comércio - O histórico do PT em Franca não o credencia a ganhar a Prefeitura?
Cassiano - Depende de como analisamos este histórico. O histórico é dúbio em um certo sentido. Alguns podem entender e imaginar que o PT é forte porque foi governo oito anos. Eu imagino que o PT apresentou naquele momento de eleição uma novidade com potencial de vitória muito grande mas, historicamente, sempre teve uma rejeição muito grande em Franca. A história do PT em Franca é diretamente ligada ao sindicato dos sapateiros e o sindicato não é, e nunca foi, agradável à classe média. Muito menos à classe alta, por conta de seu discurso combativo.
Comércio - Como candidato do PV, o senhor acredita que poderá ser a novidade como o PT foi a novidade em 96? O PV também não perdeu um pouco da capacidade de sedução que tinha quando surgiu?
Cassiano - O PV, na verdade, surgiu como braço ambientalista de um movimento mais amplo, que foi dividido entre movimento ambientalista e sindicalista. O PT deu conta de uma parte e o PV de outra. Infelizmente, o PV perdeu a oportunidade de criar uma identidade política própria no País ao compor hora com o PT, hora com o PSDB. A possibilidade de o partido resgatar o seu DNA, que é a questão ambiental dentro de um conceito de desenvolvimento sustentável, me atrai.
Comércio - O senhor não teme ser chamado, durante a campanha, de traidor do PT?
Cassiano - Não temo. Porque estive 30 anos no PT e militei a vida inteira pelo partido. No final do nosso governo, talvez, fui uma das únicas pessoas que saíram totalmente isentas de qualquer tipo de acusação, de dúvida ou suspeita. O que significa isto para mim? Significa que sempre defendi e vesti a camisa do partido. Se hoje eu deixo o PT, não é porque me indispus com a militância. É porque o partido já não atende mais às minhas expectativas políticas. Não há traição. Há mudança de posição partidária.
Comércio - Caso o senhor seja eleito, o ex-prefeito Gilmar Dominici poderia integrar seu governo?
Cassiano - Acho que o Gilmar se identifica muito bem com o PT, tem um trabalho que desenvolve junto com o governo federal e, certamente, contribuiria muito em Brasília para o governo do PV sem que, necessariamente, tivesse que participar do governo. Eventualmente, se ele sinalizar algum interesse de contribuir de outra maneira, ele seria muito bem recebido. O Gilmar é uma pessoa extremamente honesta, que pode ter tido os seus erros administrativos, mas se há uma coisa que não abro mão em defender é a idoneidade e honestidade dele.
Comércio - O senhor disse que o Gilmar cometeu erros administrativos na Prefeitura? Qual foi o principal erro dele?
Cassiano - Confiar e acreditar muito nas pessoas. Na política, você pode até confiar, mas tem que ter controle permanente dos atos que as pessoas fazem. As únicas pessoas que têm data e hora para terminar o mandato são o prefeito e o vice. Os demais são cargos de confiança. Portanto, o prefeito tem que remover sempre que houver qualquer tipo de incompatibilidade. O Gilmar não fez isso. Acho que ele confiou muitas vezes em pessoas, colocando-as em certos cargos de expressão, o que não poderia ter ocorrido.
Comércio - São pessoas sem qualificação ou mal intencionadas?
Cassiano - Não diria sem qualificação nem mal intencionadas. As pessoas que ocuparam o nosso governo, em princípio, eram de confiança para nós, mas não prontas para o cargo.
Comércio - O PT teve dificuldades de atrair pessoas de qualidade para formar o seu governo?
Cassiano - Naquele tempo, existia uma desconfiança muito grande em relação ao governo do PT e uma conjuntura econômica desfavorável. O partido não teve tempo de formar quadros para administrar uma cidade dentro de uma realidade institucional que nós, romanticamente, combatíamos.
Comércio - Mesmo com estas dificuldades, o PT conseguiu se reeleger. O que deu de errado na última gestão?
Cassiano - Tivemos uma ação da Rádio Hertz, capitaneada pelo seu dono, que é o atual prefeito Sidnei Rocha, muito intensa. Ele tinha um projeto político de retornar à Prefeitura de Franca e, ao mesmo tempo, derrotar o PT. Era quase uma obsessão para ele derrotar o PT. Quando ele foi presidente da Vasp e a empresa quebrou, o relator da Comissão de Inquérito Parlamentar na Assembleia Legislativa era o José Dirceu. Naquela época, o PT bateu muito nele. Infelizmente, coube a mim ser o candidato do PT a ser derrotado por ele. Nos dois últimos anos do nosso governo, o Sidnei montou uma equipe só para acompanhar o governo. Esta equipe potencializava os problemas que surgiam e repercutia através da rádio. Dentro deste processo, uma coisa foi o calcanhar-de-Aquiles do nosso governo: asfalto, racapeamento, buraco de rua. Fomos o governo que mais construiu escolas na história de Franca, fizemos uma série de ações na área de desenvolvimento econômico, mas para o povo isto acabou sendo secundário. O que passou a ter relevância era toda aquela campanha que foi desenvolvida pelo Sidnei na sua rádio, que tinha uma audiência muito forte, sobre os buracos de rua. Quando se falava em buraco, foi criada a ideia de que nós éramos incompetentes. E, por ironia, se não fosse o contrato da Sabesp, dando uma verba extraorçamentária de R$ 30 milhões à Prefeitura, o Sidnei não teria recapeado as ruas como ele fez ao assumir..
Comércio - O que o senhor destaca como positivo no governo Sidnei?
Cassiano - O Gilmar tornou público demais o governo. Tudo para ele tinha que se consultar, tinha que buscar a participação. Isto é muito importante, mas em determinados momentos. O Sidnei profissionalizou um pouco mais a administração e passou a cobrar, apesar das limitações do governo enquanto formulador de propostas e de mudanças. Ele restringiu muitas decisões mais ao campo técnico. Neste aspecto, soube conduzir melhor o governo.
Comércio - Como o senhor avalia que será a campanha eleitoral?
Cassiano - Existe o lado do dia-a-dia de uma campanha que, mesmo que você não queira se envolver com ele, acaba envolvendo, que é o lado mais pesado dos ataques. Não gosto disto. Espero ter uma postura mais propositiva e discutir assuntos de interesse. Não quero me perder muito nestas questões pequenas de ataques pessoais. Tenho bom respeito por todos os nomes que estão sendo apresentados e sou respeitado por eles. Não vou atacar ninguém. Quero discutir propostas.