Vários rolinhos feitos de panfletos de propaganda fazem a vez da palmilha, viés de algodão (debrum) contornam o solado de TR, a flor de couro dá o toque especial. Tudo isso, unido com cola branca e confeccionado com tecnologia mínima, garante à rasteira artesanal um custo de menos de R$ 5. Essa peça é apenas uma das 20 criadas - sendo seis apenas conceituais - pelos alunos do curso de Gestão da Produção Industrial da Fatec (Faculdade de Tecnologia) “Dr. Thomaz Novelino”, de Franca. A ideia vai além da preocupação com a preservação do meio ambiente e defende a sustentabilidade social.
“O projeto iniciou a partir da proposta de uma atividade autônoma de projeto que concentra conceitos teóricos vistos em várias disciplinas e que conduziram a uma solução de aplicação prática de utilização de materiais sustentáveis”, explica Carlos Eduardo de França Roland, co-orientador do projeto.
A primeira coleção foi inspirada nos produtos-conceitos das indústrias automobilísticas e relojoeiras, tendo a inovação visual como ponto forte da linha. Mas o alto custo da produção é inviável e os modelos não saíram do papel.
Na lista de materiais da segunda coleção, os componentes são variados e fáceis de ser encontrados: panfletos, jornais, papel cartão, embalagens plásticas (de materiais de limpeza) e longa vida, madeira e algodão. O lixo virou arte nas mãos dos alunos e dos jovens atendidos nas oficinas da ONG Craia (Centro Regional de Atenção à Infância e à Adolescência). “Os sapatos foram construídos conforme os materiais foram surgindo e trabalhamos com as tramas, combinação das cores e acabamentos”, diz Juliano Mesquita Fagundes, aluno da Fatec, que tem 30 anos de experiência na área calçadista. “No sistema que se usa habitualmente nas indústrias, o projeto é desenvolvido a partir de uma pesquisa de tendência. Neste caso, partimos basicamente de uma seleção de materiais e em cima deles testamos o que era possível desenvolver.”
A aluna Janaína Moreti Silva se surpreendeu com a parceria da ONG. “Trabalhar focada na sustentabilidade social foi muito importante e dará mais oportunidade às outras ONGs, além de motivação, pois o trabalho delas podem ser vistos através dos nossos projetos.” E isso já está acontecendo. Os Calçados Femininos Conceituais Sustentáveis já foram expostos, com boa aceitação, em três eventos, como feira tecnológica e seminário. “As pessoas ficaram encantadas porque estavam acostumadas a ver materiais reciclados em artesanatos para decoração. A sustentabilidade social, além da ambiental, também chamou a atenção”, disse Érica Aparecida Araújo, orientadora do projeto.