Na verdade é, apenas, repetição da rotina celeste. A Terra termina, como fez trilhões de outras vezes, a volta em torno do Sol em 365 dias, período que os humanos chamam de ano
Nessa volta, por causa das posições que o planeta tomou com relação ao astro rei, aconteceram mudanças na sua superfície que fizeram acontecer as quatro Estações – Primavera, Verão, Outono e Inverno. Criança, aprendi, que esse movimento se chama Translação. Só fui entendê-lo muito tempo depois, quando já usava caneta Bic, embora tivesse acertado a questão nas provas da dona Carmen, feitas com caneta cuja pena dourada a gente molhava na tinta colocada no buraquinho da carteira, ali, no lado direito, posição que não favorecia os canhotos. Claro, secava o excesso com mata-borrão.
A Terra faz o percurso girando em torno de si mesma e em altíssima velocidade, o que justifica a tonteira de muita gente e provoca, de quebra, o surgimento do dia e da noite. O movimento da Terra em torno do seu eixo é chamado de Rotação. Amedrontador: não fosse a gravidade que nos prega na superfície, teríamos todos sido expelidos das nossas casas, junto com elas.
Fenômenos naturais, não fantásticos, sem um pingo ou resquício de magia. No entanto fazemos a transição do fim de uma prosaica volta e o natural começo da outra, momento sobrenatural.
Acreditamos que o uso de cores nas nossas roupas possa influir na condução do caminho que percorreremos. Estamos convictos que comer lentilha, mastigar sementes de romã e depois guardá-las na carteira possa segurar e assegurar que dinheiro não nos faltará. Se na praia, pularemos sete ondas para alcançarmos felicidade. Jogaremos flores para Iemanjá, embora nossa santa de devoção seja Nossa Senhora Aparecida. Acenderemos velas na areia, para iluminar caminhos. Abraçaremos pessoas desconhecidas como se fossem velhos amigos. Daremos trégua no nosso cotidiano de violência: seremos, inclusive, capazes de sorrir e apertar a mão daquele que no dia seguinte chamaremos de ‘anta’, quando obstruir nossa correria no trânsito. Por um instante estaremos em local coletivo que se mostrará aprazível, acolhedor, pacífico, cheio de pessoas mansas, tranquilas e sorridentes. Por um instante: enquanto estivermos sob o efeito de arabescos e desenhos pirotécnicos desenhados no céu por fogos de artifício.
A necessidade do ser humano de dar caráter extraordinário aos mais prosaicos acontecimentos naturais pode ser apenas resultado da falta de cultura. Ao que não conseguimos explicar racionalmente, por limitação intelectual, damos o sentido de sobrenatural. (Lembra dos índios temendo raios e trovões?) Pode ser resultado da humana exigência interna de romantizar o simples. Quem sabe, a prova de que é mais prazeroso acreditar na mentira bonita, que na verdade nua e crua. De qualquer forma – olha aí a prova de que a tradição tem poder de Lei – amanhã, depois que soarem as doze badaladas dos relógios, ouviremos vozes unissoantes como a anunciar que novo tempo vai começar e o momento é de festas e alegria. É preciso escancarar portas e janelas para renovar intenções e desejos. Nosso coração vai se regozijar. Vai parecer que deixaremos problemas para trás. Que as doenças desaparecerão. Que o Ano Novo trará paz à humanidade. Que todas as crianças serão acolhidas. Que ninguém mais vai chorar, seja por qual motivo for. E, ao nos abraçarmos, diremos uns aos outros com convicção, com fé, alegria e sinceridade: Feliz Ano Novo!
NESTE NOVO ANO NOVO...
1 - Assistirei a, pelo menos, uma sessão da Câmara Municipal de Franca todo mês. (Tenho dúvidas a respeito das barbaridades que a imprensa divulgou e que teriam acontecido dentro da casa. Tornou-se frequente a sensação de que o Legislativo estaria mais preocupado em obstruir as intenções de melhoria da cidade, apenas para prejudicar o Executivo.)
2 - Adotarei novo verbo para nortear ações e intenções: descomplicar. ‘Depois de infinitas – e imensas– conquistas, acho que está na hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós mesmas, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho.’
3 - Retomarei o hábito de fazer exercícios físicos, com regularidade e sem chiar. Primeiro devo achar treinador adequado e insensível. Tenho saudades do único que não se deixou seduzir por minhas desculpas. Quando eu o ameaçava com o Estatuto dos Idosos, ele batia palmas e ordenava: ‘Anda, vai! Prá mim você tem dezoito anos. Corra!’
4 - Descerei do pedestal e retirarei a escada. Não raro a Síndrome de Deusa me ataca e me põe lá em cima. Esqueço que maior o coqueiro, maior o tombo do coco. Esqueço de não ofender, para não ser ofendida. De perdoar, para ser perdoada.
5 - Continuarei com a terapia. ‘Se de longe pareço sã, de perto não sou nem um pouco normal’ (Frase do Caetano Veloso.)
6 - Não falo mais ao celular quando dirigir. Motivo? Basta acessar http://youtu.be/yZTv0vWM5TA. O vídeo inglês fez parte de campanha de conscientização de motoristas naquele país.
7 - Farei meditação e ioga. Três horas por semana. Não, duas horas. Bem, uma hora que seja. Farei!
8 - Não implicarei com ninguém. Bem, só com quem implicar comigo.
9 - Terminarei todos – ou a metade – dos projetos iniciados e não terminados.
10 - Farei todas as visitas que prometi.
E...
Querido leitor, querida leitora. Feliz Ano Novo!
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br