O Natal passou e os brasileiros foram às compras. A lista de contas a pagar, porém, aumentou ainda mais. Segundo a consultoria MB Associados, o nível de endividamento da população nunca foi tão alto. Está quatro pontos percentuais acima dos números contabilizados em dezembro passado.
No entanto, o mesmo estudo aponta que o orçamento familiar ainda não está excessivamente comprometido. Se comparados com o Reino Unido, por exemplo, onde o endividamento chega a 171% da renda líquida das famílias, nossos 22,4% são apenas um pequeno ‘aperitivo’ desse processo de endividamento.
Mas se o cenário não é tão ruim, também não é dos mais promissores, pois ao mesmo tempo em que cresce o percentual de endividamento de nossa população, aumenta também seu índice de inadimplência, o que perfaz uma receita perigosa para o futuro próximo.
Segundo a Acrefi (Associação Nacional de Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), com o aumento da inadimplência, muitos consumidores estão voltando ao mercado para negociar suas dívidas, o que demanda ainda mais oferta de crédito.
Por enquanto, essas evidências são apenas sinais. Porém, como todo sinal, deveria merecer mais atenção de nossas autoridades, já que eles servem para sinalizar alguma coisa. Com a crise internacional rondando a Europa e os EUA, talvez eles estejam pedindo mais atenção aos níveis de emprego e renda de nossa população, pois nada garante que eles continuarão no mesmo patamar no próximo ano.
E se piorarem, obviamente a inadimplência também irá piorar, o que poderá trazer sérios problemas para o país.
Se lembrarmos que a crise de 2008 pegou praticamente o mundo todo de surpresa, mas que seus sinais já eram bastante claros muito antes de sua eclosão, vamos perceber que no mundo da economia nosso saber tem sido mais retrospectivo que prospectivo. As explicações para a crise vieram aos montes, mas depois de seu impacto. Quase todos os economistas tinham uma boa explicação para a crise, com números bastante claros, mas poucos perceberam sua chegada.
Na maioria das vezes, seguimos por demais absortos na vida. E seguimos sem a devida reflexão, praticamente “acompanhando a boiada”, com muita atenção nos detalhes e quase nenhuma no todo que vai se formando.
Como vivemos em uma sociedade de plena oferta, para que a economia continue crescendo será necessário que a cadeia produtiva permaneça girando, aumentando a produção e consequentemente o consumo. A tendência, portanto, é que o consumo continue sendo financiado.
Por essa razão, é preciso que os bancos tornem-se mais criteriosos na concessão de créditos. Talvez isso nos faça experimentar um crescimento menor nos próximos anos, mas ainda que isso se verifique, é mais interessante que uma crise motivada pelo aumento da inadimplência.