16 de março de 2026

Nozes e castanhas


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"As alegrias revividas nunca morrem" James Montgomery, poeta inglês

O Natal é uma data que provoca sentimentos distintos. Há aqueles que, profundamente religiosos, vêem no 25 dezembro um marco que evoca reflexão e introspecção, um momento de refletir sobre os erros e acertos de suas existências. Para outros, Natal é sinônimo de consumo desenfreado, um tempo de compras sem fim que serão pagas sabe-se lá como, em prestações a perder de vista e que exigirão, muito provavelmente, algum tipo de empréstimo para serem honradas.

Há os que, fãs da boa mesa, associam a ceia a todas as delícias possíveis e imagináveis, degustadas sem culpa – e também, sem limite – em sessões sucessivas que se multiplicam até o Ano Novo, com muita noz, castanha, avelã, doces e compotas de todas as frutas imagináveis, panetones, espumante, vinhos, cerveja e, claro, os onipresentes peru, pernil, chester – nome presunçoso para um frango gordo metido a besta – e, claro, sua majestade, a leitoa.

Tem pessoas para quem Natal e melancolia são uma coisa só, normalmente gente que perdeu parentes queridos e próximos, e para quem a data traz consigo um vazio que não pode ser preenchido, a sensação de ausência e saudade de alguém que ainda hoje faz muita falta. Para essas, Natal não tem nada de lúdico, bonito ou poético e vencer a ceia é um verdadeiro suplício.

Há ainda pessoas para quem o Natal não significa coisa alguma. Não são religiosos, nem consumistas, tampouco têm grande interesse na ceia mas também não sofrem de maneira especial só porque dezembro chegou ao fim. É gente simplesmente indiferente ao clima das festas de fim de ano, para quem uma ceia à base de macarrão assistindo ao show do Roberto Carlos na TV é programa suficientemente interessante.

Não sou nenhum destes tipos, apesar de carregar características de vários deles. Gosto do Natal, simplesmente. Cresci curtindo a alegria de dezembro, quando meus primos chegavam de São Paulo para passar as férias conosco. Eram aventuras intermináveis na chácara onde morávamos. Quando chegava a semana do Natal, a agitação se intensificava. Numa época em que hipermercado por aqui não existia nem em sonho, cabia a nós, as crianças, tarefas bem específicas. A missão de descascar nozes, avelãs e castanhas uma a uma era nossa. Também tínhamos que partir os queijos, descaroçar azeitonas, limpar as taças e ficar de prontidão para o que mais fosse necessário.

No dia 24, uma horda composta por avós, tios e primos invadia nossa casa. Adorava aquela bagunça. Comida havia aos montes, de todos os tipos, para todos os gostos. Enquanto os mais velhos embalavam suas conversas com vinho ou espumante, a gente se divertia com guaraná. Normalmente, a ceia, que começava lá pelas dez, terminava só na manhã seguinte.

Cresci, fui para São Paulo estudar, voltei. Comecei a trabalhar no jornal. Durante muitos anos, cheguei para ceia sujo de graxa, exemplar do Comércio quentinho na mão. Imprimíamos no dia 24 à noite para garantir que gráficos e entregadores também tivessem suas ceias, idêntica rotina que mantemos hoje. Me sentia um herói, distribuindo aquele jornal para os meus tios presentes à ceia. Quase sempre, era nesta hora que conseguia tomar um banho e me aprontar, enquanto os convidados há muito tempo se divertiam. Nenhum problema. Os primos e tios continuavam lá e até amanhecer havia tempo de sobra para me divertir.

Depois vieram as doenças, alguns tios morreram, os primos crescidos constituíram suas famílias e deixaram de marcar presença. Foi também num dezembro que meu pai infartou e acabou num centro cirúrgico para implantar três pontes de safena. Foi um Natal difícil, uma ceia à base de canja, mas que não deixou sequelas. Ano seguinte, a rotina de celebração foi retomada. Eram menos participantes, a duração fora sensivelmente encurtada, mas a alegria permanecia a mesma.

Hoje meu pai não está mais aqui, ainda não tenho netos e o total de primos e irmãos cabe nos dedos das mãos. Dos tios e tias, que eram nove, restam três. Ainda assim, e em que pese a versão compacta da celebração do Natal, mantemos intacta a tradição. Minha mãe, soberana, rege a cozinha de onde saem perfumes e sabores indescritíveis, enquanto minha mulher cuida de organizar tudo. Nos mínimos detalhes. Meu filho brinca com os cachorros, espantado e assustado sempre que ouve um latido mais forte, à espera de sua irmã que só se junta a nós na semana que vem – adolescente, preferiu passar o Natal com a tia e um amigo em Florianópolis, entre uma aula de surf e um sorvete na praia. Menos arisco, meu irmão André chega com a noiva Débora a tempo da ceia.

À beira desta represa magnífica em Rifaina, seguir-se-ão dias de festa e alegria, de lembranças e saudades, de projetos, leituras e também, de muita preguiça. As festas são uma espécie de recreio da vida, um tempo de recarregar as energias e se preparar, internamente, para o ano que se aproxima com seus desafios particulares. Vou celebrar. Feliz Natal.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br